SAÚDE
Diagnóstico tardio aumenta o impacto das doenças digestivas no Brasil
Cirurgia minimamente invasiva e a chegada da robótica em Mato Grosso do Sul mudam o cenário, mas a procura tardia pelo especialista ainda é o maior obstáculo
A dor que aparece depois de uma refeição mais pesada, a sensação de estufamento que volta com frequência, a queimação que sobe pela garganta de madrugada.
Para uma parcela grande da população brasileira, esses sinais são tratados como incômodos passageiros, contornados com chás, antiácidos de farmácia e a promessa de que vão sumir com o tempo.
Em muitos casos, somem mesmo. Em outros, escondem doenças do aparelho digestivo que avançam em silêncio até forçar uma decisão cirúrgica.
A colelitíase, popularmente conhecida como pedra na vesícula, é o exemplo mais comum dessa lógica. De acordo com estudo publicado na revista Educação em Saúde, a prevalência da doença no Brasil aumentou 24% entre 2008 e 2017 e atinge cerca de 20 milhões de pessoas.
Levantamentos epidemiológicos baseados em Coelho et al. apontam que 9,3% dos brasileiros com mais de 20 anos convivem com algum tipo de cálculo biliar, com incidência até três vezes maior entre mulheres.
O problema, segundo gastrocirurgiões, não está apenas na frequência da doença. Está no tempo que separa os primeiros sintomas da primeira consulta com um médico capaz de avaliar com profundidade o que está acontecendo.
Sintomas que parecem comuns e não são
A vesícula biliar é um órgão pequeno, localizado abaixo do fígado, responsável por armazenar a bile, líquido que participa da digestão de gorduras. Quando substâncias como colesterol e bilirrubina saem do equilíbrio, formam-se grânulos que crescem dentro do órgão.
Conforme Dr. Thiago Tredicci, médico especialista em cirurgia digestiva na capital goiana, os cálculos podem permanecer assintomáticos por anos. Em outros pacientes, provocam crises de dor intensa do lado direito do abdome, irradiação para as costas, náusea e vômito, principalmente após refeições gordurosas.
Os números do Sistema Único de Saúde mostram a dimensão do problema. Pesquisa apresentada no III Congresso Nacional de Trauma e Medicina de Emergência, com base em dados do DATASUS, contabilizou mais de R$ 679 milhões em internações por colecistectomia videolaparoscópica no Brasil entre 2013 e 2022.
A média de dias de permanência no hospital caiu de 4,2 dias em 2013 para 2,2 dias em 2022, reflexo direto da consolidação da técnica minimamente invasiva como padrão de tratamento.
A queda no tempo de internação carrega uma boa notícia. Mas o avanço técnico não resolve sozinho a questão central: quanto mais tarde o paciente busca avaliação especializada, maior o risco de quadros complicados, como colecistite aguda, pancreatite biliar e até envolvimento das vias biliares principais.
A escolha do profissional define o caminho
Gastroenterologistas clínicos diagnosticam, acompanham e tratam clinicamente as doenças do aparelho digestivo. Em quadros que evoluem para indicação cirúrgica, entra em cena o cirurgião do aparelho digestivo, profissional que combina formação em cirurgia geral com especialização específica nas doenças do esôfago, estômago, intestino, fígado, vesícula, vias biliares e pâncreas. A diferença entre as duas atuações nem sempre é clara para o paciente, e essa confusão atrasa decisões.
Em consultórios e hospitais de Campo Grande e do interior do estado, os relatos seguem um padrão. O paciente com cálculo biliar passa anos com crises esporádicas, recorre a pronto-atendimentos quando a dor aperta, recebe analgésico, melhora e volta para casa.
Só procura um cirurgião especialista em aparelho digestivo quando o quadro evolui para uma complicação que não dá margem para escolha. A operação que poderia ter sido eletiva, com planejamento adequado, vira urgência.
A diferença entre um cenário e outro é grande. Cirurgia eletiva permite avaliação pré-operatória completa, escolha do melhor momento para o paciente e da melhor técnica para o caso. Cirurgia de urgência opera o paciente como ele chegou, muitas vezes com inflamação aguda, vesícula distendida e anatomia mais difícil de identificar.
Estudo publicado na base SciELO sobre complicações da cirurgia videolaparoscópica em vesícula e vias biliares aponta que tanto a curva de aprendizado do cirurgião quanto as variações anatômicas são fatores centrais nas complicações desse tipo de procedimento. Não é detalhe técnico distante. É um dado que diz respeito a quem vai operar e em que condições.
Mato Grosso do Sul ganha espaço como polo regional
Por muitos anos, pacientes de Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e cidades do interior do estado precisavam recorrer a São Paulo, Goiânia ou Curitiba para tratamentos digestivos de maior complexidade. Esse cenário começou a mudar de forma consistente nos últimos anos.
O Hospital Cassems de Campo Grande, em maio de 2025, realizou as primeiras cirurgias robóticas do aparelho digestivo de Mato Grosso do Sul. Os procedimentos incluíram correção de hérnia inguinal, tratamento de refluxo gastroesofágico e gastroplastia.
O programa de cirurgia robótica da unidade, iniciado em 2024 com procedimentos de urologia, ampliou-se para a cirurgia geral e digestiva. A vinda do cirurgião Carlos Saboya, do Rio de Janeiro, para acompanhar as primeiras operações, sinalizou o reconhecimento técnico que a estrutura sul-mato-grossense vem conquistando.
Em paralelo, o Governo de Mato Grosso vizinho avança com o Hospital Central de Cuiabá, que em pouco mais de três meses de operação já havia realizado mais de 290 cirurgias, sendo 11 robóticas, contemplando inclusive cirurgia do aparelho digestivo no SUS.
O movimento regional indica algo importante para o paciente sul-mato-grossense: a opção de tratamento de alta complexidade dentro da própria região existe e está se ampliando.
Com a oferta crescente, surge a pergunta prática. Como saber se o profissional que vai indicar e conduzir a cirurgia tem o preparo necessário? Pacientes que procuram por clínicas com gastrocirurgião costumam se deparar com nomes parecidos, especialidades sobrepostas e poucas pistas sobre o que realmente importa na escolha.
O que avaliar antes de marcar a consulta
A primeira camada de verificação é objetiva. O Conselho Regional de Medicina disponibiliza consulta pública dos registros, e o paciente pode confirmar se o profissional possui CRM ativo e se tem RQE (Registro de Qualificação de Especialista) específico para Cirurgia do Aparelho Digestivo.
Esse registro indica que o médico cumpriu residência médica reconhecida na área, com prova de título por sociedade médica de especialidade, como o Colégio Brasileiro de Cirurgiões ou o Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva.
A segunda camada é o histórico de formação. Residência em cirurgia geral seguida de residência em cirurgia do aparelho digestivo, em hospital universitário ou de grande volume, é o caminho clássico.
Vínculos com instituições de ensino, como participação em programas de residência médica como preceptor, costumam indicar que o profissional mantém atividade acadêmica e atualização permanente.
A terceira camada é mais difícil de medir, mas decisiva. Volume cirúrgico em procedimentos similares, familiaridade com técnicas minimamente invasivas, disposição para conversar com clareza sobre riscos, alternativas e o que esperar do pós-operatório.
Pacientes que saem de uma consulta com dúvidas sobre por que aquela cirurgia é necessária ou sobre quais são as outras opções, geralmente saem mal informados.
Outro ponto sensível é a confusão criada por terminologias usadas no marketing médico. Há conteúdos que descrevem a remoção da vesícula biliar como cirurgia de vesícula a laser, expressão popular que circula em sites e materiais publicitários.
Na prática, a técnica padrão atual chama-se videolaparoscopia, conduzida com câmera de alta definição e instrumentos cirúrgicos introduzidos por pequenas incisões no abdome. O nome popular pegou, mas pode levar o paciente a expectativas equivocadas. Cabe ao cirurgião explicar com transparência o que é cada coisa.
Por que a videolaparoscopia mudou o jogo
A retirada da vesícula biliar foi uma das primeiras grandes cirurgias incorporadas pela videolaparoscopia, ainda na década de 1990. Hoje, é o método padrão e está bem distribuído nos hospitais brasileiros, públicos e privados.
As vantagens incluem incisões menores, menos dor no pós-operatório, retorno mais rápido às atividades e menor índice de infecção de ferida operatória.
Em casos selecionados, o passo seguinte é a cirurgia robótica. O sistema oferece visão tridimensional ampliada, movimentos mais precisos e menor tremor instrumental.
Não substitui a videolaparoscopia em todos os cenários, e raramente é necessária para uma colecistectomia simples, mas tem espaço claro em cirurgias mais complexas do aparelho digestivo, como tratamento do refluxo, hérnias maiores e oncologia digestiva.
A leitura correta dessa transformação tecnológica é simples. A técnica boa, quando bem indicada, faz a cirurgia mais segura. Mas ela não substitui o julgamento clínico de quem indica.
Cirurgia desnecessária com a melhor técnica do mundo continua sendo cirurgia desnecessária. Cirurgia indicada com atraso e feita em quadro complicado tem mais risco mesmo com a melhor tecnologia disponível. O que define o resultado, no fim, é a combinação de diagnóstico no tempo certo, indicação correta e mãos preparadas.
O peso do diagnóstico precoce
A regra geral vale para todas as doenças do aparelho digestivo, não só para a vesícula. Refluxo gastroesofágico que persiste apesar de medicação, dor abdominal crônica sem causa esclarecida, perda de peso involuntária, alteração persistente do hábito intestinal e sangramento digestivo, mesmo discreto, são situações em que a procura por um especialista não pode ser adiada.
Em câncer de esôfago, por exemplo, dados brasileiros mostram que entre 2013 e 2023 foram registradas mais de 193 mil internações por neoplasia maligna do órgão, com forte concentração em homens entre 50 e 69 anos e fatores de risco bem conhecidos: tabagismo, álcool e padrão alimentar.
A doença chega tarde a uma boa parte desses pacientes porque os sintomas iniciais imitam refluxo comum. A diferença entre receber o diagnóstico em estágio precoce e em estágio avançado, nesse cenário, é a diferença entre uma cirurgia com chance real de cura e um tratamento muito mais agressivo, com prognóstico mais reservado.
Essa lógica se repete em outras doenças do aparelho digestivo. Diagnóstico no tempo certo amplia opções terapêuticas, reduz a complexidade do procedimento, encurta a recuperação e aumenta a chance de retorno completo à rotina.
O caminho passa por uma postura simples, e nem sempre seguida: diante de sintomas digestivos persistentes, marcar consulta com profissional especializado em vez de empurrar a avaliação para depois.
Mato Grosso do Sul tem hoje uma rede de gastrocirurgiões e centros de referência que dispensam o deslocamento para outras capitais na maioria dos casos. A escolha consciente do profissional e a valorização da consulta especializada continuam sendo, do lado do paciente, as duas decisões mais importantes para que o avanço técnico das últimas décadas se traduza em resultado concreto na própria saúde.
