"OLHARES IANQUES"
Alto escalão da Fiesp apoiou a ditadura e pagou por sala de tortura no Brasil
"Me chocou a capilaridade informacional dos EUA no Brasil", diz autor
Enquanto a propaganda oficial da ditadura militar (1964-1985) bradava slogans sobre soberania nacional, os bastidores do regime operavam uma logística pragmática e sombria.
O historiador Felipe Loureiro, professor da USP, traz a público em seu livro "Olhares Ianques" evidências documentais que implodem o mito da austeridade militar e revelam a face "terceirizada" do autoritarismo brasileiro.
O ponto de maior ebulição da obra descreve uma reunião secreta em novembro de 1971. Nela, o general Humberto Sousa Melo, então chefe do 2º Exército, não solicitou apoio para infraestrutura ou desenvolvimento, mas sim recursos para "construir uma sala de tortura na capital paulista" e adquirir armamentos. O modelo seria o DOI-CODI do Rio de Janeiro.
O "RECIBO" DA BARBÁRIE
O evento, convocado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), reuniu o PIB paulista e representantes de gigantes americanas, como o presidente da General Electric, Thomas Romanach. Para viabilizar o fluxo de capital sem deixar rastros de caixa dois nas matrizes estrangeiras, o grupo criou um "fundo educacional". Através dele, as empresas emitiam recibos oficiais por doações que, na prática, financiavam a logística da violência estatal.
Thomas Romanach, ao ser questionado pelo consulado americano sobre os riscos da exposição, defendeu o então presidente da Fiesp, Teobaldo de Nigris, descrevendo-o como "um amigo de longa data e alguém que ele considerava de altíssima integridade".
CONTRADIÇÕES E O MITO DA EFICIÊNCIA
A pesquisa de Loureiro, baseada em arquivos desclassificados do governo dos EUA, desafia a narrativa nostálgica de que os militares eram gestores técnicos e impolutos.
Os documentos retratam um regime "desorganizado", marcado por corrupção generalizada e uma "capilaridade informacional" estrangeira que tratava o Brasil como um território de livre trânsito para espiões e diplomatas.
"Me chocou a capilaridade informacional dos EUA no Brasil. A representação diplomática americana poderia falar com quem eles quisessem, da elite econômica e política até os principais jornalistas", afirmou Loureiro.
Os arquivos americanos também jogam luz sobre a farsa das versões oficiais da época. O cônsul Frederic L. Chapin, por exemplo, relatou prontamente a Washington que a tese de suicídio do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, era uma "farsa".
A RESPOSTA DAS INSTITUIÇÕES
Procurada para comentar o envolvimento direto na lavagem de dinheiro para a repressão, a Fiesp enviou uma nota que busca o distanciamento temporal como escudo:
"Os documentos citados pela reportagem referem-se a supostos fatos ocorridos há mais de 50 anos", afirmou a entidade, reiterando seu atual "compromisso inabalável com o Estado democrático de Direito".
O RETRATO DA "LINHA DURA"
A obra de Loureiro desmonta a ideia de que o endurecimento do regime foi um processo coeso. Os documentos mostram um generalato que, embora autoritário, era frequentemente emparedado por oficiais de baixa patente da "linha-dura".
"O generalato era extremamente autoritário também, mas acreditava que o autoritarismo poderia se impor de outras formas", explicou o historiador.
Sobre o cenário atual e os riscos de retrocessos em 2026, Loureiro apontou que o uso da pauta de segurança pública pode ser o novo cavalo de Troia para intervenções:
“Se for uma intervenção contra o crime organizado, Lula fica numa situação difícil para se opor”.
