ERA DOS EXTREMOS
'Super El Niño': 'Cidades Esponja' podem evitar colapso urbano
Filipe Falcetta, do IPT, alerta que urbanização desenfreada piorou cenário e detalha criação de "gêmeos digitais"
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, quando atinge patamares superiores a 2°C acima da média, configura o chamado "Super El Niño". Aliado às mudanças climáticas, o fenômeno natural tem provocado alterações severas nos padrões meteorológicos globais.
"Entramos no que costumo chamar de 'Era dos Extremos'", afirma o pesquisador Filipe Falcetta, da unidade Cidades, Infraestrutura e Meio Ambiente (Cima) do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Segundo ele, a ação humana alterou as condições prévias do clima global.
"O El Niño passa a atuar sobre um oceano e uma atmosfera que já estão mais quentes, reduzindo a previsibilidade histórica e ampliando significativamente a intensidade de ondas de calor, secas e tempestades severas".
No Brasil, os efeitos se dividem regionalmente. O pesquisador aponta como essas alterações afetam o território de diferentes formas.
"Na Amazônia, reduz drasticamente o nível de rios essenciais para a mobilidade e o abastecimento, isolando comunidades inteiras. Já nas regiões Sul e Sudeste, ocorre o efeito oposto: aumenta a frequência de tempestades intensas".
Para ilustrar o cenário atual, o IPT utiliza como base comparativa o evento de 1983, que causou inundações em Santa Catarina e em São Paulo — onde a capital paulista registrou 121,8 mm de chuva em apenas 24 horas num mês de fevereiro. Atualmente, o avanço da impermeabilização do solo agravaria o quadro de escoamento.
"Desde 1983, a urbanização e a impermeabilização do solo avançaram continuamente. O asfalto e o concreto impedem a infiltração da água", explica Falcetta.
"Continuamos urbanizando bacias hidrográficas e, ao mesmo tempo, aumentando o volume de água que chega aos rios em menos tempo. Se uma chuva semelhante à de 1983 ocorresse hoje, as consequências seriam significativamente mais graves".
Os dados coletados pelo instituto na bacia do Ribeirão Eusébio, em Franco da Rocha (Grande SP), quantificam essa mudança. Hoje, uma chuva de 75 mm gera no centro do município um volume de cerca de 440 milhões de litros de escoamento superficial a mais do que o registrado em 1985. O montante equivale a 180 piscinas olímpicas adicionais direcionadas às vias urbanas durante a tempestade.
INFRAESTRUTURA VERDE E TECNOLOGIA
O modelo de contenção adotado a partir dos anos 1990, focado em grandes obras como os piscinões, tem se mostrado insuficiente para os volumes pluviométricos recentes. "A infraestrutura cinza, baseada apenas em concreto, atingiu seus limites físicos e tecnológicos diante da atual crise climática", aponta o pesquisador.
Para estruturar novas soluções, Falcetta coordena o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cidades Resilientes a Inundações, iniciativa financiada em parceria com a Fapesp. O objetivo do projeto, focado na etapa de 2026 a 2031, é aplicar o conceito de "Cidades Esponja". Em vez de focar apenas no armazenamento das águas, a engenharia urbana passa a incorporar elementos naturais para gerenciar o volume das chuvas.
"Buscamos permitir que as cidades voltem a absorver, reter e desacelerar naturalmente esse fluxo, por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), infraestrutura verde e florestas urbanas", detalha.
O planejamento prévio dessas intervenções no Estado de São Paulo será feito por meio da Plataforma ARCA (Aliança pela Resiliência das Cidades e das Águas). O sistema atua com a criação de "gêmeos digitais" — réplicas virtuais das metrópoles que cruzam dados de radares, sensores e inteligência artificial para simular os efeitos das obras antes de sua execução pelo poder público.
"Mais do que um projeto de pesquisa, o CCD foi concebido como um ecossistema permanente de produção de conhecimento voltado à tomada de decisão. É um patrimônio construído para a sociedade", afirma o coordenador do centro. Sobre os desafios de longo prazo para a adaptação das infraestruturas urbanas, ele conclui.
"Projetos são como rios: eles desviam, se adaptam e encontram obstáculos. O que não pode mudar é o rumo".
