DIREITOS TRABALHISTAS
"Engavetada" por Alcolumbre, fim da escala 6x1 tem apoio de 78% dos brasileiros
Pesquisa mostra que fim do atual regime trabalhista é anseio popular e decisão de Alcolumbre custará caro ao Senado
Pesquisa nacional do Instituto Locomotiva aponta que 78% dos brasileiros são favoráveis à mudança da escala 6×1, com 44 horas semanais, para o modelo 5×2, com 40 horas.
O levantamento estima que o apoio à mudança representa cerca de 128 milhões de brasileiros. Entre os eleitores de direita, 61% defendem a alteração da jornada.
Na geração Z, o percentual de apoio chega a 86%. Entre as mulheres, 83% são favoráveis à mudança da escala.
Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, a principal insatisfação não está necessariamente relacionada ao salário, mas ao tempo disponível depois do expediente.
“Quando a gente pergunta para quem vive a escala 6×1, o problema não aparece primeiro no salário. Aparece no tamanho da vida que sobra depois do trabalho”, afirmou em entrevista à Fórum.
Entre os trabalhadores submetidos à jornada, 69% apontam a redução do tempo com a família como um dos principais problemas. Outros 61% relatam impacto no sono e 67% afirmam que a saúde mental piorou.
Segundo Meirelles, a rotina pode significar chegar em casa quando os filhos já dormiram ou concentrar tarefas domésticas e compromissos pessoais no único dia de folga.
Para 72% dos entrevistados, a escala 6×1 prejudica o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Já 78% afirmam que quem trabalha nesse regime tem menos tempo para estar com familiares e amigos.
A possibilidade de redução da jornada também não aparece, na pesquisa, associada automaticamente ao aumento de preços. Apenas 48% acreditam que empresários repassariam os custos trabalhistas aos consumidores caso a escala fosse alterada.
PRODUTIVIDADE ENTRA NO DEBATE
Outro dado do levantamento relaciona a discussão sobre jornada ao avanço da tecnologia e da produtividade.
Segundo a pesquisa, 74% dos brasileiros concordam que a tecnologia aumentou a produtividade, mas entendem que esse ganho teria beneficiado principalmente o lucro das empresas, sem melhorar na mesma proporção a vida dos trabalhadores.
Entre os eleitores de direita, esse entendimento chega a 64%.
Além disso, 70% dos entrevistados consideram que, se a produtividade aumentou, o trabalhador deveria trabalhar menos.
O impacto da escala também aparece na qualificação profissional. Entre quem trabalha no modelo 6×1, 47% afirmam que a jornada atrapalha os estudos e a busca por qualificação.
“Isso não é ideologia, é aritmética de balcão de padaria: o bolo cresceu e a fatia não”, afirmou Meirelles.
Segundo ele, a jornada pode acabar dificultando justamente uma das condições associadas ao aumento da produtividade: a possibilidade de o trabalhador estudar e se qualificar.
SAÚDE E VIDA PESSOAL
A pesquisa também aponta efeitos físicos e emocionais entre trabalhadores submetidos à escala 6×1.
Do grupo pesquisado, 67% afirmam perceber piora na saúde mental, enquanto 62% relatam problemas físicos relacionados à jornada.
Outros 63% avaliam que a escala prejudica a própria vida de maneira geral.
O modelo estabelece seis dias consecutivos de trabalho para apenas um dia de descanso. Na prática, a folga precisa ser utilizada para descanso, tarefas domésticas, compromissos pessoais e convivência familiar.
A concentração dessas atividades em apenas um dia é apontada pelos entrevistados como um dos fatores que reduzem o tempo efetivamente disponível para descanso e lazer.
FIM DA 6×1 ESTÁ NO CONGRESSO
Os números foram divulgados enquanto o Congresso Nacional discute propostas para alterar a jornada de trabalho e acabar gradualmente com a escala 6×1.
A proposta aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado prevê redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, além do fim gradual do modelo de seis dias trabalhados para um de descanso.
O texto ainda precisa passar por dois turnos de votação no plenário do Senado.
O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), afirmou na 5ª feira (3.set.26) que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) deve ser votada pelo plenário após as eleições.
A declaração ocorreu em resposta ao senador Paulo Paim (PT-RS), que defende a redução da jornada e a mudança na escala de trabalho.
A PEC foi aprovada pela CCJ, mas não entrou na pauta do plenário nesta semana. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta antecipar a votação e avalia a possibilidade de convocar uma sessão extraordinária ainda em setembro.
O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirma que o governo teria entre 53 e 54 votos favoráveis à proposta. Para uma PEC ser aprovada no Senado, são necessários pelo menos 49 votos.
A preocupação governista, segundo Randolfe, está na presença dos parlamentares no dia da votação.
“A questão é o não voto”, afirmou o senador.
A possibilidade de deixar a votação para depois das eleições também provoca reação de movimentos que defendem o fim da escala.
O Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) cobra a análise da proposta e sustenta que os trabalhadores não deveriam esperar pelo avanço da mudança.
A pressão ocorre em meio ao apoio registrado por outras pesquisas. Levantamento Datafolha aponta que 71% da população é favorável à redução do número máximo de dias trabalhados por semana, enquanto 27% são contrários.
No texto aprovado pela CCJ, a redução da jornada ocorre sem diminuição salarial. A proposta ainda depende da votação dos senadores para avançar no processo legislativo.
EXTREMA DIREITA CONTRA O POVO
Nos bastidores do Senado é sabido que adiamento da votação ocorreu em meio à articulação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro contra o avanço da proposta.
O cálculo político da oposição é evitar que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transforme uma eventual aprovação da redução da jornada em ganho eleitoral nas eleições.
A mudança para 40 horas semanais, sem redução salarial, tem forte apoio popular e será apresentada pelo governo como uma conquista para os trabalhadores.
Essa matemática, porém, só avalia como a medida impacta o clã bolsonarista, mas o adiamento também enfraquecer a própria PEC. Com a votação depois das eleições, os senadores deixam de enfrentar a pressão imediata das urnas sobre uma pauta apoiada pela maioria dos brasileiros.
Sem a necessidade de responder ao eleitorado naquele momento, parlamentares ganham maior liberdade para votar conforme seus interesses políticos, partidários e pessoais.
O risco é que uma proposta que hoje mobiliza a opinião pública perca espaço depois das eleições e volte a enfrentar o caminho conhecido no Congresso: o engavetamento.
