RACISTA
Candidato do PL diz temer "odor" de mulheres negras
Avisado que estava cometendo um crime, político chamou de "mimim de esquerda"; a Lei 7.716 alterada pela Lei 14.532/2023, prevê de dois a cinco anos de prisão e multa para injúria racial
O vereador do Recife e candidato a deputado federal Thiago Medina (PL) afirmou ter ficado “com mais medo do odor” durante um protesto de mulheres negras realizado na Câmara Municipal.
A manifestação ocorreu na 3ª feira (1º.set.26), em solidariedade à vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), única parlamentar negra da atual legislatura do Recife.
Cerca de 30 pessoas participaram do ato, organizado por movimentos sociais e coletivos de mulheres negras para denunciar episódios de racismo e misoginia contra Jô.
A vereadora acusa Medina de perseguição política. Ao responder ao protesto, o parlamentar ironizou as denúncias e direcionou a fala aos participantes.
“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”, afirmou Medina na tribuna.
Jô reagiu na sequência e classificou a declaração como racista.
“Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa”, afirmou.
A vereadora também afirmou que o episódio integra uma sequência de ataques da extrema direita contra grupos vulneráveis, citando pessoas negras, LGBTQIAPN+ e integrantes de religiões de matriz africana e afro-indígena.
Eis o vídeo dos ataques de Medina:
RACISTA SE ACHA ACIMA DA LEI
A fala criminosa sobre o “odor” veio no mesmo pronunciamento em que Medina debochou das acusações de racismo religioso, intolerância religiosa e misoginia.
“Ontem eu fiquei sabendo que hoje haveria uma manifestação contra a minha pessoa, contra o vereador Thiago Medina, por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e todos os mimimi da esquerda", disse o candidato.
Depois, completou:
“Se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago, mas, como não gosto, estou aqui discursando”.
O que Medina chama de “mimimi” tem previsão na legislação brasileira. A Lei 7.716, alterada pela Lei 14.532/2023, prevê de dois a cinco anos de prisão e multa para injúria racial.
Não é uma questão de gosto político. Racismo é crime. E o Supremo Tribunal Federal já decidiu que a injúria racial é uma forma de racismo e não prescreve.
Medina, no entanto, trata as acusações como deboche político. A manifestação que motivou sua fala havia sido organizada justamente por mulheres negras que denunciavam episódios de racismo e misoginia.
A Câmara Municipal do Recife registrou o pronunciamento e informou que o vereador atribuiu o ato a integrantes do PSOL e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
CONFRONTO
O conflito entre Medina e Jô Cavalcanti se intensificou em agosto, durante a discussão do Projeto de Lei nº 147/2026.
A proposta apresentada pela vereadora pretendia instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha no calendário oficial do Recife.
Mestra Ritinha é uma referência da Jurema Sagrada. Durante a discussão, Medina classificou o projeto como “uma porcaria” e chamou a entidade espiritual de “mestra dos cabarés”.
Jô acusou o vereador de racismo religioso.
Em 18 de agosto, a Câmara do Recife rejeitou o projeto por 12 votos a sete.
No dia anterior, Jô havia chamado Medina de “racistinha de merda” e “fascistinha”. O vereador respondeu com uma representação contra ela na Comissão de Ética.
JÔ ANUNCIA NOVA REPRESENTAÇÃO
Após a declaração sobre o odor, Jô afirmou que apresentaria nova representação contra Medina na Comissão de Ética da Câmara e no Ministério Público de Pernambuco (MPPE).
Segundo a vereadora, a medida será baseada na repetição de condutas que ela classifica como racismo e LGBTfobia.
“O Legislativo não pode tolerar, de forma alguma, esse tipo de postura de violência aos direitos fundamentais das pessoas”, afirmou Jô à Marco Zero.
A vereadora também disse esperar providências do Ministério Público.
COMISSÃO DE ÉTICA RECEBE PROCESSOS
Dois dias depois do protesto, a disputa entre os vereadores ganhou novo registro oficial.
Na quinta-feira (3), a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara do Recife comunicou a chegada de sete novos processos administrativos.
Entre eles está o processo nº 2731/2026, apresentado por Jô Cavalcanti contra Thiago Medina.
A comissão também recebeu o processo nº 2719/2026, apresentado por Medina contra Jô, além de outra representação da vereadora contra Eduardo Moura (Novo).
O comunicado da Câmara não detalha o objeto dos novos processos.
Por isso, o registro oficial confirma a representação de Jô contra Medina, mas não permite afirmar que o processo nº 2731/2026 trate exclusivamente da declaração sobre o “odor”.
Na mesma semana, Medina recebeu censura verbal aprovada por uma subcomissão de Ética em outro processo.
O caso foi aberto por declarações feitas contra o vereador Osmar Ricardo (PT) em setembro de 2025 e não tem relação com Jô Cavalcanti ou com o protesto das mulheres negras.
Na reunião de quinta-feira, o vereador Zé Neto (PSB) pediu vista dos sete novos processos apresentados à Comissão de Ética.
O pedido foi aceito pelo presidente do colegiado, Carlos Muniz (PSB). Até o momento, não houve julgamento da nova representação apresentada por Jô contra Medina.
