EXTREMISTA DE DIREITA
Flávio Bolsonaro e os indícios no caso Best Bet
Empresa de apostas ligada formalmente ao advogado Willer Tomaz
A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito para investigar se o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, era sócio oculto da Best Bet, empresa de apostas ligada formalmente ao advogado Willer Tomaz, seu amigo e companheiro de viagens internacionais.
A suspeita foi revelada pela revista piauí, em reportagem publicada em 20 de outubro, que reuniu documentos empresariais, registros bancários e informações da investigação policial.
O principal indício envolve uma conta bancária de uma empresa ligada à estrutura da Best Bet. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz teriam autorização para movimentá-la.
ESTRUTURA EMPRESARIAL
Em janeiro de 2023, Tomaz abriu a Cathedral Holdings, na Ilha da Madeira, em Portugal, com capital de 50 mil euros.
No mês seguinte, foi criada a Rede Loto Ltda., com capital de R$ 1 milhão, que passou a operar comercialmente como Best Bet. A empresa brasileira era controlada pela Cathedral.
Em abril, a Loterj, vinculada ao governo do Rio de Janeiro, abriu uma licitação para explorar o mercado de apostas. No mês seguinte, 13 empresas receberam licenças, entre elas a Best Bet.
A autorização foi assinada por Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj, indicado para o cargo com influência de Flávio Bolsonaro, segundo a reportagem.
O filho de Hazenclever, Hazenclever Cançado Júnior, trabalhou no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, entre agosto de 2020 e junho de 2026. Flávio foi um dos articuladores da indicação do ministro ao Supremo.
Em julho de 2023, a Loterj autorizou empresas licenciadas no Rio a explorar apostas em todo o território nacional. A medida beneficiou a Best Bet, mas posteriormente foi alvo de restrições federais e disputas judiciais.
FLÁVIO TINHA ACESSO À CONTA
A reportagem identificou outra empresa ligada a Tomaz na Ilha da Madeira: a Alcazar Holdings, constituída em 2023.
A empresa e a Cathedral tinham o mesmo proprietário formal, Mateo Scudeler como administrador e endereço na sala 105 do edifício Marina Club, em Funchal.
A Alcazar também possuía uma filial no Brasil, que abriu uma conta no Santander. Segundo a piauí, apenas duas pessoas estavam autorizadas a realizar saques: Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro.
Em 22 de maio de 2025, uma funcionária de Tomaz solicitou ao banco a exclusão do senador como usuário máster da conta.
Naquele dia, os dois estavam em Portugal. No dia seguinte, viajaram com suas famílias de Cascais para Nice, na França, em um jato contratado em nome da Cathedral.
A reportagem relaciona a mudança no acesso bancário ao período em que a Best Bet perdeu a possibilidade de operar nacionalmente e se aproximava do encerramento das atividades.
DISPUTA JUDICIAL
A atuação nacional das casas de apostas licenciadas por loterias estaduais também chegou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1).
A Loterj recorreu à Justiça contra as restrições impostas pelo governo federal e conseguiu uma liminar que permitiu a continuidade das operações nacionais.
O tribunal tem uma ligação institucional com Kassio Nunes Marques, que atuou como desembargador federal e vice-presidente da Corte antes de chegar ao STF.
O TRF1 também aparece em outro caso sob investigação: o do Banco Master.
Mensagens relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro associaram o desembargador Newton Pereira Ramos Neto e sua esposa, a advogada Camilla Ramos, à expressão “turma do KN”, apontada como possível referência a Nunes Marques.
O escritório de Camilla participou de uma proposta contratual com o Banco Master que previa honorários de até R$ 427 milhões, condicionados ao êxito em processos envolvendo precatórios.
O magistrado também foi alvo de apurações sobre decisões relacionadas a interesses do banco. Em setembro, o Conselho Nacional de Justiça realizou diligências em seu gabinete.
As conexões institucionais, por si só, não comprovam irregularidades no caso Best Bet. A investigação precisa esclarecer se houve favorecimento e qual foi o papel de cada envolvido.
MOVIMENTAÇÃO BILIONÁRIA
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, baseada em informações do Ministério da Fazenda, Willer Tomaz movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas durante 2025.
O advogado teria realizado depósitos superiores a R$ 258 milhões e saques de cerca de R$ 200 milhões em plataformas de apostas.
A Polícia Federal também investiga a natureza das movimentações financeiras entre empresas ligadas a Tomaz e o possível repasse de recursos a terceiros.
Outro dado divulgado pela imprensa envolve o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, que teria faturado aproximadamente R$ 14 milhões entre 2023 e 2026.
Segundo o UOL, parte dos pagamentos foi direcionada à conta do Santander mencionada na investigação sobre a relação entre o senador e Tomaz.
A origem, o destino e a finalidade desses recursos precisam ser esclarecidos.
APOIO DO SETOR DE APOSTAS
O caso também levanta questões sobre os interesses econômicos em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Empresários do setor de apostas manifestaram apoio ao senador, entre eles Fernando Oliveira Lima, dono da 7 Games Bet, e Ernildo Júnior de Farias Santos, ligado à Pixbet.
A reportagem da piauí também aponta Willer Tomaz como possível sócio oculto de Flávio na Best Bet, hipótese que depende de apuração.
O ponto central é saber se o senador tinha participação econômica não declarada em uma empresa beneficiada por autorizações públicas e disputas regulatórias.
Se confirmada, a suspeita exigirá esclarecimentos sobre eventuais conflitos de interesse e sobre a relação entre a estrutura empresarial e as decisões políticas que afetaram o setor.
ELEIÇÃO NÃO ELIMINA A INVESTIGAÇÃO
Flávio Bolsonaro não é apenas um empresário ou parlamentar. É candidato à Presidência da República e pode, se eleito, participar diretamente das decisões federais sobre a regulamentação das apostas.
A investigação precisa esclarecer se ele era beneficiário oculto da Best Bet, qual foi sua participação nas movimentações financeiras e se houve favorecimento na concessão das licenças.
Até que os fatos sejam apurados, as suspeitas não podem ser tratadas como culpa comprovada.
Mas a candidatura presidencial não torna essas questões menos relevantes. A população tem o direito de conhecer os interesses econômicos de quem pretende governar o país.
A eleição não pode servir de salvo-conduto para impedir o esclarecimento de fatos anteriores ao mandato.
Se os indícios forem confirmados, o caso poderá revelar um conflito entre interesses privados e decisões públicas em um setor que movimenta bilhões de reais.
Flávio Bolsonaro precisa explicar por que seu nome aparece entre os autorizados a movimentar uma conta ligada à estrutura empresarial investigada. É essa resposta, e não a disputa de versões políticas, que poderá esclarecer o caso.
