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CANDIDATO À PRESIDÊNCIA

Por que Flávio Bolsonaro não nega ser miliciano?

Na Zona Oeste e na Baixada Fluminense, redutos históricos da família Bolsonaro, quem dita a regra de circulação em centenas de bairros é a milícia

Flávio não pode negar ser miliciano, pois precisa do apoio dos grupos paramilitares corruptos. Fotos: Reprodução

Flávio Bolsonaro (PL) ouviu a pecha de miliciano duas vezes na TV neste mês e calou, porque negar exigiria apagar 20 anos de documentos oficiais.

Na noite desta 6ª.feira (23.out.26), na Globo, e no domingo (18.out), na Band, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) jogou o rótulo na cara do senador.

O candidato do PL preferiu fazer piada sobre bater carteira e mostrar anotação de caneta na mão.

Passou longe do assunto.

Quem acompanha o avanço do crime sobre as periferias sabe o motivo do desvio.

Desmentir o vínculo obrigaria o parlamentar a rasgar notas taquigráficas, folhas de pagamento da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e relatórios da Polícia Federal.

DEFESA ABERTA NO PLENÁRIO EM 2007

A aproximação do filho mais velho de Jair Bolsonaro com grupos paramilitares começou no microfone aberto da Alerj.

Em abril de 2007, a imprensa e a polícia já denunciavam o domínio de agentes corruptos em favelas cariocas.

Na contramão, o então deputado estadual subiu à tribuna para defender o esquema.

Está gravado nas atas da Casa: Flávio chamou a cobrança de taxas ilegais de "novo tipo de policiamento".

Ainda atacou organizações de direitos humanos, como a ONG Viva Rio, dizendo que a entidade lucrava com a tragédia nas favelas.

Na visão dele, o morador da quebrada ocupada por milicianos vivia satisfeito e tinha segurança.

No mesmo ano (2007), ao comentar a ação de grupos de extermínio na Bahia, o deputado disse que essas quadrilhas teriam seu apoio caso migrassem para o Rio.

De lá para cá, os paramilitares tomaram conta das vans, do botijão de gás, da internet e da venda ilegal de terras.

Flávio nunca voltou ao microfone para retirar o que disse.

MEDALHA NO PRESÍDIO E CONTRACHEQUE

O miliciano matador Adriano da Nóbrega e o senador Flávio Bolsonaro. Fotos: Reprodução e Wilson Dias/Agência Brasil

Antes do discurso na tribuna, o deputado já usava a caneta para premiar a linha de frente do esquema.

Em junho de 2005, ele deu a Medalha Tiradentes ao então capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega.

É a maior honraria do parlamento estadual.

A entrega aconteceu dentro do Batalhão Especial Prisional, onde Adriano estava preso acusado de homicídio.

Mais tarde, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) apontou o capitão como chefe da milícia de Rio das Pedras e líder do grupo de matadores "Escritório do Crime".

Foragido por mais de um ano, Adriano morreu em uma operação policial na Bahia (fev.20).

A relação ia além do quadro na parede da cadeia e passava pela folha salarial da Alerj.

Quem fazia a ponte no gabinete era o ex-PM Fabrício Queiroz, operador financeiro de Flávio.

Por indicação de Queiroz, o deputado contratou a ex-mulher de Adriano, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, que ficou no cargo de 2007 a novembro de 2018.

A mãe do capitão, Raimunda Veras Magalhães, também recebeu salário do gabinete entre 2016 e novembro de 2018.

Quando a investigação das "rachadinhas" estourou, o MP-RJ descobriu que parte do dinheiro do esquema girava nas contas da família do chefe miliciano.

Questionado em 2020 sobre as homenagens, o senador disse que entregou centenas de medalhas a policiais e que não tinha bola de cristal para prever crimes futuros.

EMENDAS DO SENADO PARA "PEIXE"

Robson Calixto Fonseca, conhecido como 'Peixe' é homem próximo a Flávio Bolsonaro. 

A desculpa de que o caso Adriano ficou no passado caiu por terra no mês passado (21.set.26), com a abertura de novos relatórios da Polícia Federal (PF).

Mensagens extraídas de celulares mostram o gabinete de Flávio no Senado negociando quase R$ 200 mil em emendas com Robson Calixto Fonseca, o "Peixe".

Ex-assessor de Domingos Brazão, Peixe é apontado pela polícia como miliciano na Taquara (Zona Oeste do Rio).

Ele foi condenado por participação nas mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

As conversas aconteceram entre outubro de 2023 e fevereiro de 2024.

De um lado estava Peixe; do outro, a secretária parlamentar do senador, Maria de Fátima Bezerra Castro, a Fafá.

Na agenda de contatos do paramilitar, Flávio estava salvo como "nosso senador".

Em outubro de 2023, Peixe mandou ofício pedindo verba para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), ONG ligada aos irmãos Brazão.

Fafá destravou o dinheiro para o projeto "Jogadores do Futuro", via Ministério do Esporte.

A assessora ainda convidou Peixe e o então deputado federal Chiquinho Brazão para uma entrega oficial de coletes à PM no Rio.

Cinco meses depois do convite, o Supremo Tribunal Federal (STF) mandou prender Chiquinho e Peixe.

Nos diálogos de janeiro de 2024, a funcionária de Flávio também cobrou de Peixe quatro ingressos de camarote na Sapucaí para o desfile das campeãs.

Para a PF, houve pedido de vantagem indevida.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) travou a prestação de contas dos R$ 200 mil ao achar um repasse de R$ 100 mil para a empresa da filha de Peixe.

Em nota divulgada na época (set.26), Flávio declarou que segue critérios técnicos nas emendas e jogou a responsabilidade de fiscalizar o dinheiro para o governo federal.

CÁLCULO ELEITORAL NO TERRITÓRIO

Flávio Bolsonaro e Rodrigo Bacellar.

Nas contas de campanha, a mudez de Flávio nos debates de outubro é puro instinto de sobrevivência.

Na Zona Oeste e na Baixada Fluminense, redutos históricos da família Bolsonaro, quem dita a regra de circulação em centenas de bairros é a milícia.

O próprio círculo de aliados do senador no estado esbarra no problema.

Apadrinhados como o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar também viraram alvo da PF por suspeita de vazar operações contra o crime organizado.

Se Flávio atacar os paramilitares em rede nacional, perde o apoio da estrutura que garantiu votos para o seu grupo desde os anos 2000.

Se repetir o discurso de 2007 e defender o esquema, derrete nas pesquisas fora do Rio.

Encurralado entre o arquivo público e a urna, o senador finge que não é com ele.

Quem deixou rastro no Diário Oficial, dividiu folha de pagamento e apareceu em celular apreendido pela PF sabe o preço de falar demais.