MS Notícias

ELEIÇÕES NOS EUA

Trump torrou US$ 11,21 bilhões em campanha fracassada nos EUA

Congresso, agora democrata, pode ampliar a pressão sobre Trump para extraditar o clã Bolsonaro

O presidente Donald J. Trump embarca na comitiva presidencial no Pórtico Norte a caminho da Base Aérea Conjunta Andrews, na quinta-feira, 29 de outubro de 2026. Foto: Molly Riley | Casa Branca

Donald Trump e o Partido Republicano despejaram bilhões de dólares em publicidade eleitoral, mas não conseguiram evitar uma derrota histórica nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos na 3ª.feira (3.nov.26). Os gastos com propaganda ultrapassaram US$ 11,21 bilhões em 2026, superando até os US$ 11,2 bilhões registrados no ciclo presidencial de 2024.

A montanha de dinheiro financiou anúncios na televisão, nas redes sociais, no YouTube e em outdoors. Mas nem a avalanche publicitária conseguiu convencer os eleitores de que os republicanos tinham respostas para a crise econômica agravada durante o 2º mandato de Trump.

O Partido Republicano chegou às urnas pressionado pela impopularidade do presidente, pelo encarecimento do custo de vida e pela insatisfação de setores que haviam contribuído para sua vitória em 2024. Dois anos depois, a promessa de uma suposta Era de Ouro esbarrou na realidade dos preços elevados, da insegurança econômica e da ausência de respostas concretas.

É difícil não questionar se parte dos republicanos derrotados não sentiu até alívio com o encerramento de uma campanha marcada pelo desgaste e pela incapacidade de apresentar resultados.

DERROTA REPUBLICANA

A dimensão da reação eleitoral apareceu também nas disputas pelo Senado. Os democratas conquistaram vitórias importantes em estados como Kansas, Iowa, Texas, Ohio, Carolina do Sul e Carolina do Norte.

No Texas, James Talarico derrotou Ken Paxton, candidato apoiado por Trump, com uma diferença próxima de 20 pontos percentuais.

O avanço democrata também alcançou o Sul dos Estados Unidos, região historicamente dominada pelos republicanos. Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms conquistou o governo estadual e se tornou a primeira mulher negra a ocupar o cargo.

A sequência de derrotas foi tão expressiva que Trump adotou um discurso diferente daquele utilizado em outras disputas eleitorais. Em entrevista ao The New York Times, afirmou que reconheceria o resultado e que pretendia negociar com os democratas.

A declaração contrasta com o histórico de contestação eleitoral do presidente, que durante anos alimentou acusações de fraude sem apresentar provas capazes de sustentar suas alegações.

TRUMP ABRIGA FORAGIDOS DO BRASIL

Enquanto enfrenta o desgaste político nos Estados Unidos, Trump mantém em seu país integrantes da família Bolsonaro e aliados da extrema direita brasileira que tentaram impedir a democracia no Brasil.

Entre eles estão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado condenado pelo Supremo Tribunal Federal a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, e que permanece foragido nos Estados Unidos com mandado de prisão em aberto no Brasil, e Flávio Bolsonaro, que fugiu do território brasileiro após sua derrota nas urnas e descumpriu a uma decisão judicial que o proibia de sair do país. 

Os dois são filhos de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. O ex-presidente cumpre a pena em prisão domiciliar.

A permanência dos filhos de Bolsonaro em território norte-americano parece estar em corda-bamba, ainda mais se o Congresso, agora democrata, ampliar a pressão sobre Trump para extraditar o clã de criminosos.

'MAGA RACHADO'

A derrota escancarou divergências dentro do próprio Partido Republicano. Às vésperas da votação, o governador da Flórida, Ron DeSantis, rompeu publicamente com Trump em questões relacionadas à guerra contra o Irã e à política migratória.

Na Pensilvânia, o deputado Scott Perry, aliado de longa data do movimento MAGA, também perdeu a eleição para a democrata Janelle Stelson.

Com menos aliados no Congresso, Trump terá de lidar com um partido pressionado pelo desgaste de sua associação com a Casa Branca.

O resultado revela mais uma crise política para o presidente, que já havia enfrentado o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio, quando apoiadores invadiram a sede do Legislativo para tentar impedir a certificação da vitória de Joe Biden.

ELEITORADO REAGE AO EMPOBRECIMENTO

Os democratas conseguiram reorganizar parte de sua força política depois da derrota de 2024. Desta vez, concentraram a campanha em problemas que afetam diretamente a população, como o preço dos alimentos, da moradia, dos serviços e da saúde.

A mensagem usada é que a política econômica de Trump está pesando no bolso dos trabalhadores.

O discurso ajudou a recuperar eleitores independentes, jovens, latinos e árabes-americanos que haviam se afastado do Partido Democrata na eleição presidencial anterior.

A corrupção também entrou na pauta. Pesquisas de boca de urna da Associated Press apontaram o custo de vida e a falta de integridade na administração pública entre as principais preocupações dos eleitores.

A derrota republicana mostra o tamanho da distância entre as promessas de Trump e a realidade enfrentada pela população. O presidente prometeu prosperidade, mas chegou ao fim do ciclo eleitoral com eleitores insatisfeitos com a economia e a condução do governo.

2028 NO HORIZONTE

A vitória democrata muda a correlação de forças em Washington e reduz o espaço de Trump para conduzir sua agenda sem enfrentar resistência no Congresso.

Com a nova composição da Câmara, os democratas terão mais condições de fiscalizar o Executivo, questionar gastos públicos e cobrar explicações de integrantes do governo.

O Partido Republicano também terá de enfrentar uma discussão que começa a ganhar espaço dentro da própria legenda: até quando conseguirá sustentar sua trajetória política em torno de Trump?