27 de janeiro de 2022
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INTERIOR | DOURADOS (MS)

Gilmar morre soterrado em obra com engenheiro fantasma

Estrutura desabou na tarde desta sexta (3.dez.21)

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O servente de pedreiro Gilmar Garcia Machado, de 30 anos, morreu soterrado por laje às 13h15 desta sexta-feira (3.dez.21), numa obra na Rua Gregório da Fonseca, Jardim dos Cristais, em Dourados (MS). O caso foi registrado como homicídio culposo (entenda abaixo). 

Segundo o registro de ocorrência, quando a polícia chegou a vítima estava sobre os escombros de um "(sic) beiral de laje". No local haviam diversos trabalhadores, um deles que assinava a execução da obra, porém "era fantasma". 

A polícia disse que Adriano da Silva Amorim, de 25 anos, se apresentou como pedreiro responsável e explicou que os trabalhos no local começaram em (29.nov.21) e a vítima fatal, Gilmar, começou a trabalhar ainda na semana como ajudante de pedreiro (servente) e no momento do acidente Gilmar estava sobre o beiral da laje que desabou.

"Gilmar fornecia materiais para os pedreiros que faziam levantamento de uma parede", detalhou em registro. Adriano ainda explicou que ao iniciar o trabalho na obra, a parte que desabou já estava construída.

Silas Paulo Agostinho, de 54 anos, disse que iniciou o trabalho na obra como pedreiro no dia 2 de dezembro. No momento do acidente, disse que realizava o levantamento de uma parede na parte superior da laje e recebia material fornecido pela vítima fatal. Segundo Silas, ele também não participou das fases anteriores da obra.

Valdevino da Silva Brites, de 29 anos, disse que trabalhava na obra também como ajudante e assim como a vítima fatal carregava os materiais para a parte superior da casa 'laje'.

"No momento do acidente, Gilmar caminhava sobre o beiral da laje até o ponto de entrega do material para o pedreiro", narrou à polícia. O ajudante disse que está trabalhando há poucos dias na obra. A polícia comentou que Silas e Valdevino confirmaram terem sido contratados por Adriano Amorim.

Márcio Aparecido Marques Aguilera de Souza, de 33 anos, se apresentou como construtor responsável pela obra. Ele teria contratado Adriano. 

André Pedro Cristianni, de 43 anos, disse ser o engenheiro responsável pelo projeto da obra. Ele foi ao local e de forma preliminar apontou diversas irregularidades que podem ter contribuído para o acidente. A falta de duas colunas do volume — essas colunas seriam continuação das colunas existentes na lateral da casa. A falta de distribuição de ferragem na laje indicada no projeto. Irregularidade na espessura da laje, maior que o especificado no projeto (12cm), apresentava 20cm e a distribuição regular e adicional de ferragem que não foi encontrada. 

A polícia, então, disse que o engenheiro Lucas Lourenço Albino de Oliveira, de 26 anos, assinava como o responsável técnico pela execução junto os orgãos responsáveis, mas Lucas não possui contrato comercial de execução da obra com o proprietário da obra Srº, Vicente Palote — o nome de Vicente, porém, não foi discriminado em registro. A reportagem tentou falar com Lucas, mas ele não atendeu a tentativa de contato por telefone.  

"Foi apurado também que o concreto da obra foi fornecido pela empresa Concreluz, em duas etapas, sendo a primeira da parte principal da casa, a segunda parte para a concretagem da laje 'beral' ́. O construtor Márcio disse que o concreto do beiral foi despejado no chão pela empresa Concreluz e foi baldeado para a parte superior da casa de forma manual e este serviço perdurou toda tarde e parte da noite  até as 20h aproximadamente. Isso foi questionado pelo funcionário da prefeitura e do [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia] CREA que também estavam no local, afirmaram que o concreto usinado não poderia passar de duas horas para ser aplicado. Que o pedreiro responsável, Adriano, afirmou não ter visto o Srº Lucas Albino na obra", completou o registro. 

O construtor Márcio também afirmou que sequer conhecia Lucas e que ele nunca tinha ido à obra e apresentou os nomes de Pedro e Manoel como  pedreiro/armador responsáveis pela execução da obra 'primeira fase'. 

"Acrescentou que os materiais utilizados na obra foram os apontados no projeto e o proprietário sempre adquiriu os materiais de acordo com o projeto. Além disso, o construtor Márcio disse que era ele quem fazia a leitura e execução do projeto de engenharia/arquitetônico. Os projetos que estavam na obra foram apreendidos", disse a polícia.   

O corpo da vítima fatal foi retirado após intenso trabalho da equipe do Corpo de Bombeiros. Gilmar apresentava lesão aparente na face, além de escoriações pelo corpo. "Ao deixarmos o local, houve a interdição da obra por parte dos órgãos responsáveis", finalizou o documento.  

O caso vai ser investigado pela 1ª Delegacia de Polícia Civil de Dourados.