20 de junho de 2021
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RACISMO E ÓDIO

Sete suspeitos são presos por mortes de Bruno e Yan, acusados de furtarem carne

Três seguranças do mercado estão entre os presos, acusados de entregarem tio e sobrinho para serem executados por traficantes

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Na manhã desta 2ª feira (10.mai.2021), três seguranças do supermercado Atakadão Atakarejo e mais quatro homens foram presos, suspeitos de estarem envolvidos nas mortes de Bruno Barros da Silva, 29, e seu sobrinho, Yan Barros da Silva, 19, no dia 26 de abril, em Salvador. 

O enredo narra que Bruno e Yan foram flagrados por seguranças furtando pacotes de carne no supermercado Atakadão Atakarejo, no bairro de Amaralina. Ambos foram encontrados mortos no porta-malas de um carro com tiros e sinais de tortura, no bairro da Brotas. 

Não houve um registro de boletim de ocorrência por parte do "Atakarejo" e a principal suspeita, segundo informações da Folhapress, é que tio e sobrinho tenham sido entregues por seguranças do supermercado a traficantes do bairro, que ficaram responsáveis pela execução. 

Hoje (10.mai) foi deflagrada a Operação Retomada, com cerca de 200 policiais civis, militares, agentes da inteligência da Secretaria de Segurança Pública e do Departamento de Polícia Técnica, que realizaram incursões por Salvador, nos bairros do Nordeste de Amaralina, Mata Escura e Fazenda Coutos, e na cidade de Conceição do Jacuípe.

Ainda houve o cumprimento de um mandado de busca e apreensão na sede do Atakadão Atakarejo, onde foram apreendidos computadores e outros equipamentos.

De acordo com a Polícia Civil, quatro pessoas foram presas no logo no início da manhã, sendo um dos seguranças e três suspeitos,  com prisão temporária. Ainda por volta das 10h30 (pelo horário de Brasília), mais dois seguranças e um suspeito de envolvimento com o tráfico foram presos. 

Andréa Ribeiro é diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, delegada responsável, e não informou a existência de outros mandados de prisão a serem cumpridos.  

"A ação visa cumprir os mandados de prisão temporária e de busca e apreensão e trazer aos autos elementos novos que possam nos ajudar na elucidação do crime", disse a delegada através da Secretaria de Segurança Pública da Bahia

Segundo apurado pelo portal G1 Bahia, os seguranças mentiram no depoimento do caso, em um primeiro momento e pediram R$ 700 para liberar as vítimas. De acordo com a delegada, outra vítima de violência física em circunstâncias parecidas no ano passado também foi ouvida. 

Em seu relato a jovem, de apenas 15 anos, conta que foi espancada, além de ter o braço cortado e perfurado com barra de ferro depois de furtar produtos no supermercado Atakarejo. Ela sobreviveu pois conta que conseguiu fugir. 

"Começamos a perceber que a ação era algo muito padrão dentro do estabelecimento, não foi uma atuação direta nesse caso que culminou no duplo homicídio. Nós conseguimos identificar, a partir da comparação entre a fala deles [seguranças], o depoimento deles, e a ação anterior a essas falas, de que eles não estariam falando a verdade", detalhou a delegada Andréa Ribeiro.

Também o Ministério Público do Estado da Bahia, Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa da Bahia e a seccional local da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) acompanham o caso. 

Dez dias após o assassinato de Bruno e Yan o Atakarejo lançou uma nota de repúdio, manifestando solidariedade à família das vítimas. Hoje, o supermercado apresentou uma segunda publicação onde informa que: "não comenta decisões judiciais e vai continuar colaborando com as autoridades competentes para que o fato policial seja esclarecido o mais rapidamente possível".
 
Em sindicância interna os seguranças foram afastados até o esclarecimento dos fatos. "A empresa reafirma o compromisso com o seu código de ética e conduta e que jamais irá tolerar qualquer ato de violência".

RACISMO E ÓDIO

Ainda na 3ª feira passada (04.mai.2021), segundo apurado pela Folhapress, o secretário da Segurança da Bahia, Ricardo Mandarino, reconheceu que há componentes de racismo e de ódio nas mortes de Bruno e Yan.

"Trata-se de um delito resultado desse conceito vil, tosco, desumano, deturpado de que 'bandido bom é bandido morto'. Há, nessa ação abjeta, um componente forte de racismo estrutural e ódio aos pobres. Na cabeça dessa gente torpe, todo pobre e preto é bandido", afirmou o secretário.

Entidades do movimento negro de Salvador têm realizado protestos cobrando apuração do crime e punição para os culpados.

Em nota, a Polícia Militar informou que tomou conhecimento de que teria ocorrido um possível furto no supermercado. Ainda, segundo apuração da mídia local, funcionários teriam negado o fato, apesar da rede não anunciar quem são esses funcionários que negaram o que aconteceu e o motivo.

Uma testemunha que não quis se identificar, ao portal G1 Bahia, relatou que ouviu gritos de uma sala reservada aos funcionários. 

"Ouvi muitos gritos, como se estivessem agredindo os dois rapazes. Muito, muito, muito mesmo. Quando estava saindo, eu vi muitas pessoas armadas, umas 10 a 20 pessoas armadas e vi o portão abrindo, e os dois rapazes pedindo por favor para não deixar levarem eles", disse.

** (Com informações agência Folhapress e Portal G1)