SOLDADO DO BOPE
PM acusado de estupro é encontrado morto e vítima desacreditada
'Quantas vezes mais eu preciso ser estuprada para comprovar que estou falando a verdade?', questionou a frentista
Uma de frentista de 24 anos denunciou à Delegacia da Mulher (DEAM) que saía do trabalho na noite da 3ª feira (8.ago.23), no Bairro Jardim Noroeste, em Campo Grande (MS), quando foi abordada pelo policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Israel Giron Arguelho de Carvalho, de 32 anos, e sob a mira de uma arma foi estuprada pelo servidor da segurança pública.
O PM acabou preso na 6ª feira (11.ago.23), três dias após o suposto crime. Posteriormente, Israel recebeu liberdade provisória. Ele, no entanto, foi encontrado morto na 3ª feira (17.out.23), na casa onde morava, no Bairro Coronel Antonino, na Capital. A suspeita é que ele tenha cometido suicídio.
DESACREDITADA
Na manhã desta 4ª feira (18.out.23), o site Campo Grande News publicou uma reportagem demonstrando a indignação da frentista com o descrédito da denúncia de estupro feita contra o PM. Ao site, ela questinou o laudo do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (IMOL), que disse não comprovar a agressão sexual.
"Quantas vezes mais eu preciso ser estuprada para comprovar que estou falando a verdade?", questionou a frentista.
A vítima contou à jornalista do Campo Grande News, que morava há um ano em Campo Grande com a filha pequena, no Jardim Noroeste. Dias depois de ter sido vítima do PM, a mulher precisou voltou para sua cidade natal, no Paraná. A mulher também contou que após o caso ganhar repercussão na mídia, ela passou a ser perseguida por agentes de segurança e agredida.
“Policiais foram no meu local de trabalhar tentar forçar o pessoal dizer eu fazia programa ou que era funcionária ruim. Tive meu celular apreendido para vasculharam minha vida, porque saiu boatos que tive um caso com Israel, tentaram entrar em contato com meus familiares para buscar algo de errado meu. Eu não podia nem ir na igreja porque estavam indo atrás dos irmãos da igreja para saber onde eu estava, foram perguntar sobre mim para minha pastora”, revelou a frentista.
'INTERROMPI MEUS SONHOS'
A frentista contou que vivendo Jardim Noroeste, estava cercada, e precisou deixar a cidade em razão de denunciar o PM.
"Eu fui estuprada, tive que mudar de cidade à força, interrompi todos os meus sonhos. Mudei de vida com minha filha, tive minha vida devastada e minha intimidade violada várias vezes e agora estão dizendo que fiz isso porque sou de facção. Até quando vou precisar provar que estou falando a verdade?", reclamou.
"Quando fiquei sabendo através de um link que me mandaram, que ele tinha sido preso e que era policial, eu quis ir embora, fiquei com muito medo, porque depois do estupro ele tirou foto do meu rosto e disse que se eu fizesse algo me mataria e mataria minha filha, ele ainda falou que sabia onde eu morava", contou.
LAUDO IGNORA O ÓBVIO
Mesmo o IMOL negando a conjunção carnal, lembramos que esperma do PM foi encontrado nas roupas da frentista e no carro de Israel. Ainda assim, o instituto livrou o PM. Vale observar que a vítima relatou que nunca tinha visto o homem na vida. "Eu nunca tinha visto ele na vida. No dia do estupro, ele estava de roupa normal, usava uma arma e apontava para mim a todo instante na hora do estupro, colocando nas minhas costas e na minha cabeça", reviveu.
Mãe de uma menina, a frentista precisou apontar o óbvio para refutar a exame do IMOL. "O laudo diz que não comprovou agressão porque não teve ruptura, não teve porque eu não era virgem mais e ele não usou com agressão. No laudo, não tem lesão em mim, mas mostra o esperma dele no banco do carro e nas minhas roupas”. “Se ele não fosse um policial tão renomado, será que estariam duvidando tanto de mim?”, questinou.
MORTE DO PM
Ao saber da morte de Israel, a frentista afirmou que nunca desejou o mal ao policial e que apenas buscava justiça. "Eu não sabia quem ele era, não sabia que ele era policial e não queria prejudicar a carreira de ninguém. Só queria que ele pagasse porque ele me obrigou a fazer algo que eu não queria. Eu não desejava o mal dele, só queria que ele respondesse pelo que ele fez e todo mal que ele me causou", comentou.
EXPOSIÇÃO EM GRUPOS DE PMS
Após a morte do PM, a frentista contou que fotos dela começaram a ser compartilhadas em grupos de Whatsapp, onde os policiais a chamavam de “vagabunda”.
TRATAMENTO PSICOLÓGICO
Após a violência, a vida da jovem frentista mudou radicalmente. Além de precisar mudar de estado, também passou a fazer tratamentos psicológicos. “Tenho que tomar remédios fortes para dormir. Eu sinto como se eu tivesse perdido um pedaço de mim, como se eu tivesse saído na terça para trabalhar e não tivesse voltado mais, as cenas se repetem na minha cabeça e sempre me pergunto por que isso aconteceu comigo. O que me dói mais é saber que quem era pra defender foi quem cometeu o crime”, finalizou.
POSICIONAMENTOS
A Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) lamentou o ocorrido com o policial e disse não tem mais nada a declarar sobre o caso, pois todas as informações relevantes foram apresentadas em um relatório final. 'A veracidade dos fatos foi comprovada em um inquérito de mais de 300 páginas, e a denúncia oferecida pelo Ministério Público foi recebida pelo Poder Judiciário', disse a delegacia.
Em uma nota oficial, a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul lamentou a morte do soldado Israel e expressou suas condolências à família, amigos e colegas de farda. A institucição pediu que a sociedade respeite a integridade de todos os indivíduos e evite fazer julgamentos antes do devido processo legal. Eis a nota:
PEÇA AJUDA
O Centro de Valorização a Vida (CVV) presta serviço voluntário e gratuito de prevenção do suicídio e apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Os cerca de 3 milhões de atendimentos anuais são realizados por 3.000 voluntários em 104 postos de atendimento pelo telefone 188 (sem custo de ligação), ou pelo www.cvv.org.br via chat ou e-mail. A entidade realiza também ações presenciais, como palestras, cursos e grupos de apoio a sobreviventes do suicídio – GASS (https://www.cvv.org.br/cvv-comunidade/).
FONTE: Campo Grande News.
