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EXTREMISTA DE DIREITA

Flávio cita fome no Brasil, ataca Lula, mas usa vídeo do caos da gestão Bolsonaro

Além de ser dono da imagem de pessoas revirando o caminhão de lixo em busca de comida em Salvador, os Bolsonaros também detém a autoria da chamada 'fila do osso'

Mas esse é, sem dúvidas, o único meio dos Bolsonaros ganhar votos: mentir, mentir e mentir. É esperado que a máquina de mentira de Flávio Bolsonaro entre em cena a poucos meses da corrida eleitoral. 

O extremista de direita Flávio Bolsonaro resolveu brincar com a memória recente do país — e contou com a desatenção (ou má-fé) de quem topa compartilhar qualquer coisa sem contexto.

Ao publicar um vídeo no dia 12 de abril — mês que começa com o Dia da Mentira —, Flávio compartilhou cenas de fome para atacar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Entretanto, ocultou um detalhe central — as imagens do vídeo são de 2021, quando o Brasil era governado por seu próprio pai, Jair Bolsonaro.

Flávio datou o material como sendo de 3 de março de 2026, como se as imagens fossem de uma reportagem do Diário do Nordeste — justamente em uma região onde Lula é amplamente popular e onde o senador tenta ganhar votos a qualquer custo. Não é erro. É método.

A reportagem do MS Notícias explica, a seguir, como funciona o modus operandi da extrema direita no Brasil.

POR QUE É MENTIRA?

Jair Bolsonaro submeteu o povo a fome extrema no Brasil, realidade que Flávio Bolsonaro tenta ocultar. Foto: Reprodução

O vídeo mostra pessoas revirando o lixo em busca de comida — uma imagem que é produto da desigualdade econômica brasileira, que de fato existe, mas a cena partilhada por Flávio foi capturada durante o governo de Jair Bolsonaro, no auge de uma combinação explosiva de desemprego, inflação e desmonte de políticas sociais. Ao reaproveitar essas imagens como se fossem atuais, Flávio tentou colar no presente uma brutalidade que carrega a assinatura política da sua própria família.

É uma tentativa de reescrever a história em tempo real.

A estratégia não para aí. Ao citar reportagens recentes sobre a pobreza, o senador mistura fatos, distorce dados e usa imagens antigas, criando uma narrativa conveniente: a de que a fome é um fenômeno exclusivo do presente. O truque é velho — descontextualizar para confundir —, mas continua funcionando para quem prefere a versão confortável dos fatos.

Só que o MS Notícias apresenta aqui os dados reais. Entenda o que é mentira nas declarações de Flávio sobre a fome no país:

No vídeo, Flávio cita que há mais de 80 milhões de pessoas com "nome sujo" no Brasil.

Entretanto, os dados de 2026 da CNDL e do SPC Brasil mostram que o número de brasileiros com restrição efetiva de crédito (negativados) é de 73, 5 milhões. A cifra de 81 milhões, usada pela oposição, refere-se ao endividamento total apurado pela Serasa, que inclui parcelamentos em dia, como financiamentos imobiliários, e não apenas contas em atraso. Portanto, essa é uma mentira do extremista de direita.

Diferente da mentira disparada por Flávio, de que o povo brasileiro padece com "panelas vazias", o relatório oficial da FAO (ONU) de 2025, confirmou que em apenas dois anos o governo do presidente Lula conseguiu tirar o Brasil do Mapa da Fome.

Dados do IBGE (PNAD Contínua) indicam que a insegurança alimentar grave caiu para menos de 3% da população, impulsionada pela estabilização do IPCA de alimentos, que em 2025 subiu menos que a inflação geral pela primeira vez em três anos. Portanto, essa é uma mentira do extremista de direita.

Também distante do que afirma Flávio, a responsabilidade direta do governo sobre os juros é limitada pela Lei Complementar nº 179/2021 (aprovada pelo governo de Jair Bolsonaro), que estabelece a autonomia do Banco Central. A Selic é definida pelo Copom com base em metas técnicas de inflação, e não por vontade do Executivo. Relatórios do Banco Central de 2025 mostram que a manutenção da taxa em patamares altos deve-se, em parte, à resistência da inflação de serviços e às taxas de juros americanas, e não apenas ao gasto público. Portanto, essa é uma mentira do extremista de direita.

Diferente do alegado por Flávio, o governo Lula não legalizou as apostas. Elas foram autorizadas pela Lei nº 13.756, de 2018, sancionada pelo então presidente Michel Temer. O setor operou sem qualquer regra ou imposto durante quatro anos. A Lei nº 14.790/2023, citada pelo senador, foi o instrumento criado para regulamentar e tributar as empresas, estabelecendo travas de segurança e fiscalização que não existiam no vácuo jurídico anterior. Portanto, essa é uma mentira do extremista de direita.

Dados do Ministério de Minas e Energia e da Aneel mostram que a inadimplência em contas de luz em 2026 segue a média histórica do setor, de aproximadamente 3,5% do faturamento das distribuidoras.

Não há registro oficial que corrobore com o dado compartilhado por Flávio, de que 20% da população total sem capacidade de pagar água e luz; esse percentual refere-se apenas a uma fatia específica dentro do volume de dívidas de quem já está negativado. Portanto, essa é uma mentira do extremista de direita. Portanto, essa é uma mentira do extremista de direita.

IMAGENS DA FOME DA GESTÃO BOLSONARO

Além de ser dono da imagem de pessoas revirando o caminhão de lixo em busca de comida em Salvador, os Bolsonaros também detém a autoria da chamada “fila do osso”, por exemplo, que não é invenção de adversários. A filha do osso ganhou repercussão nacional em 2021, em Cuiabá, no açougue Atacadão da Carne, no bairro CPA 2. Famílias inteiras aguardavam doações de ossos com restos de carne, três vezes por semana, porque simplesmente não conseguiam comprar alimento básico. Aquilo virou símbolo de um país que havia voltado ao mapa da fome.

Açougue tem fila para doação de ossos em Cuiabá Foto: TV Centro América

E não foi um caso isolado. Cenas semelhantes se espalharam pelo Brasil, inclusive com episódios no Rio de Janeiro, onde caminhões de descarte viraram ponto de disputa por comida.

Tudo isso aconteceu durante o governo que Flávio agora tenta limpar.

Um governo que não só ficou marcado pela piora nas condições de vida, mas também por uma condução desastrosa da pandemia de COVID-19. Enquanto o vírus avançava, Jair Bolsonaro minimizava a crise, questionava vacinas e estimulava comportamentos de risco. O resultado é conhecido: mais de 700 mil mortos no país.

Reaproveitar imagens desse período para atacar adversários políticos não é apenas desonestidade intelectual — é cinismo histórico.

Mas esse é, sem dúvidas, o único meio dos Bolsonaros ganhar votos: mentir, mentir e mentir. É esperado que a máquina de mentira de Flávio Bolsonaro entre em cena a poucos meses da corrida eleitoral. 

O QUE DISSE FLÁVIO BOLSONARO NO VÍDEO?

"A crise é grave. Metade da população adulta no Brasil [sic] tá com o nome sujo na praça. Isso não é pouca coisa. É uma âncora, um peso absurdo na vida de mais de 80 milhões de pessoas. É algo que vai muito além de atrapalhar o João e a Maria a financiar um carro, comprar uma geladeira nova ou fazer uma viagem com a família para uma parcela gigante desses 80 milhões de brasileiros.

Isso representa comer menos, significa panela [sic] vazia. E quase 20% desses brasileiros [sic] não tá conseguindo pagar nem as contas de água e luz. Não tem dinheiro [sic] pro básico, [sic] pro mínimo. Tem gente parcelando o arroz, o feijão no cartão de crédito. O governo Lula diz que dá o gás e tira comida.

Como o governo do PT gasta mais do que arrecada e aumenta impostos para arrecadar ainda mais [sic] as custas do suor do trabalhador brasileiro, a taxa de juros no Brasil é uma das maiores [sic] no mundo. E é ela que serve de referência para calcular os juros da sua dívida. Ou seja, os juros no Brasil estão altos por causa do governo Lula e a sua dívida aumenta por causa dele.

É o governo do PT te deixando no vermelho, impedindo você de organizar a sua casa e a sua vida. E sabe o que é pior? É que não para por aí. Além dos juros altos, o governo do PT deu mais uma apunhalada nas costas de milhões de brasileiros.

Um apagar das luzes quando ninguém [sic] quem estava prestando atenção, no dia 29 de dezembro de 2023, quase na virada do ano, o Lula sancionou a lei número 14.790, a chamada Lei das Bets. Ela regulamentou os sites de apostas no Brasil, o resultado [sic] tá aí: um monte de gente se iludindo, achando que vai ganhar dinheiro apostando, gastando até o que não tem e, no final, perde tudo e ainda fica endividado.

Lula criou o problema e fica fazendo discurso vazio sem apontar a solução. Enquanto isso, você paga a conta pela tragédia do governo do PT. Depois de tudo isso que eu te falei, você pode até continuar gostando do Lula, sei lá, né? Mas goste mais de você, goste mais da sua família e [sic] vem com a gente arrumar a casa e recolocar o Brasil no caminho da prosperidade"

O QUE É REAL DE TODA ESSA HISTÓRIA?

Como é de conhecimento público, uma mentira precisa de dados reais para parecer uma verdade.

Vamos aos fatos: o Diário do Nordeste de fato publicou uma matéria [a prova], em 3 de março, em que afirma ter recebido imagens de pessoas recolhendo restos de comida em um caminhão de lixo em março deste ano. De acordo com a reportagem da jornalista Theyse Viana — que atua no portal de notícias do Grupo Edson Queiroz, parte do Sistema Verdes Mares (SVM) —, a cena de pessoas recolhendo alimentos antes da coleta do lixo ocorre no local de descarte de um supermercado de alto padrão no Ceará.

A reportagem de Theyse é séria e traz um dado à baila: mesmo os beneficiários do Bolsa Família acabam usando o recurso para pagar o aluguel, sendo necessário recolher restos no mercado de luxo. Uma das personagens entrevistadas pela jornalista explicou o seguinte:

“Todo dia eles trazem e a gente pega pra comer. Vem pão, verdura, às vezes arroz. Ando aqui faz é tempo”.

E acrescenta:

"Naquele dia, ela levaria para casa, além da ossada, um saco com dezenas de pães carioquinhas, tão grande que dividiria com vizinhos. Segundo a dona de casa, já são 'mais de 20 anos' percorrendo mercantis em busca das sobras para complementar a feira. 'Esse alimento aqui me ajuda e muito, é muito importante. Eu recebo Bolsa Família, mas vai todo pro aluguel', explica a mulher, que afirma não conseguir mais emprego desde que iniciou um tratamento de câncer de colo de útero", narra a reportagem.

A jornalista contextualizou, ainda, que antes a dona de casa trabalhava como auxiliar de cozinha, ofício que a ensinou a aproveitar ao máximo os alimentos. “Essas ‘carnezinhas’ eu boto no feijão, levo pra minha mãe também. E a gente também bota pro cachorro. Não vou mentir: vivo disso aqui. Não tenho vergonha de dizer não. Criei meus cinco filhos sozinha, aproveitando essas comidas”.

Ainda segundo a personagem entrevistada por Theyse, a comunidade conta com uma das cozinhas solidárias do programa Ceará Sem Fome, do Governo do Estado, mas “tem fila grande” e ela “prefere deixar a vaga pra quem precisa mais”.

Algo da reportagem que Flávio Bolsonaro deixou de fora no seu vídeo são os dados reais apresentados por Theyse: apenas em 2024, o governo Lula fez com que quase 150 mil pessoas deixassem de passar fome no Ceará. Apesar disso, cerca de 391 mil pessoas continuam em situação de fome no estado, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em outubro passado.

Outro dado que Flávio omitiu é que seu pai sentenciou mais de meio milhão de pessoas à fome no Ceará. Quando foi eleito, o presidente Lula encontrou um cenário de abandono. Em 2023, a insegurança alimentar grave — nome técnico para “fome” — atingia 540 mil cearenses. Em um ano, o governo Lula conseguiu reduzir esse número em cerca de 28%.

O dado importante da reportagem, convenientemente ignorado por Flávio, é que no Ceará mais de 3 milhões de pessoas convivem com algum dos três níveis de insegurança alimentar.