25 de janeiro de 2022
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NACIONAL | CUIABÁ (MT)

Fome: moradores formam fila enorme nos fundos de açougue para pegar ossos doados

Dezenas de famílias que estavam no local contaram que estão passando por dificuldades financeiras

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Moradores de Cuiabá formaram uma enorme nos fundos de um açougue do Bairro CPA 2, para pegar ossos doados pelo estabelecimento. Dezenas de famílias que estavam no local contaram que estão passando por dificuldades financeiras.

Alguns deles disse em entrevista à TV Centro América que o dinheiro que ganham no fim do mês não tem sido suficiente.

Mara Siqueira Castro, mãe de 7 filhos. Que trabalha como autônoma, diz que não tem conseguido manter as despesas da família. “Eu recebo só o benefício do governo e nós estamos vivendo de doações”, disse.

A gente está vindo por necessidade mesmo. Não tenho vergonha de falar que preciso. Ainda tem pessoas boas nesse mundo”, pontuou a aposentada Zilda Pereira.

A doutora em sociologia política, Silvana Maria Bitencourt, afirma que não é de hoje que a desigualdade social assombra as famílias brasileiras. Para ela, cada região do país tem a sua realidade.

Silvana reforça que correntes de solidariedade são extremamente importantes, mas isso também envolve políticas públicas. “Não podemos tirar a responsabilidade do estado. É preciso olhar para essa população”, pontuou.

Comerciantes das bancas da Central de Abastecimento e Distribuição de Cuiabá doam alimentos que não são comercializados nas feiras. As pessoas se cadastram e, uma vez na semana, passam pelas bancas em busca vegetais, legumes ou frutas.

Atualmente, são 420 pessoas e 40 entidades cadastradas para receber os alimentos.

Segundo o auxiliar administrativo da Central, Pedro Viginoli Neto, todos os dias tem gente pedindo ajuda pra alimentar a família ou ajudar os vizinhos.

De acordo com a presidente da Associação dos Permissionários da Central de Abastecimento a intenção é atender mais famílias.

A pescadora Margarida de Souza saiu de Santo Antonio de Leverger, a 35 km da capital, para buscar alimentos na Central. O que ela pega nas bancas vai parar na mesa dela e de outros vizinhos também.

A dona de casa Luciane Aparecida da Silva aproveita os alimentos descartados para desenvolver um projeto social no bairro onde mora. Ela prepara refeições e distribui para famílias carentes.

FOME

O principal levantamento sobre a fome no mundo aponta que no período de 2018 a 2020 a insegurança alimentar grave atingiu 7,5 milhões de brasileiros, quase o dobro dos 3,9 milhões registrados entre 2014 e 2016. O estudo igualmente confiável aponta que em 2021 o Brasil conta 19,3 milhões de pessoas vivendo em pobreza extrema.

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro são 49,6 milhões de pessoas subnutridas no Brasil. Em 2014 eram 37,5 milhões. O rico de passar fome aflige hoje quase 50 milhões de brasileiros.

No Brasil, como em boa parte do mundo, a pandemia de Covid-19 agravou a situação alimentar, que já era dramática. Ou, como dizem os chefes das agências da ONU responsáveis pelo relatório, “infelizmente, a pandemia continua a expor fraquezas em nossos sistemas alimentares, que ameaçam a vida e a subsistência de pessoas ao redor do mundo.”

Com os benefícios e auxílios reduzidos neste em 2021, 61,1 milhões de pessoas vivendo na pobreza, e 19,3 milhões na extrema pobreza, de acordo com o Centro Brasileiro de Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (MADE-USP).

“Essa vexatória e dolorosa contradição pode ser ‘política’ – falta de políticas públicas adequadas, desemprego elevado e desigualdade crônica agravada pela pandemia –, porém a sua face mais real e dramática é profundamente desumana. Portanto, não podemos encará-la como meros expectadores, como se não tivéssemos nada a ver com isso”, diz Iran Coelho das Neves, Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul.