25 de novembro de 2020
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COMPORTAMENTO

Crianças: o uso da TV é positivo durante a quarentena?

A TV é uma aliada no entretenimento das crianças durante a quarentena, mas há ressalvas.

Há poucos meses atrás, quando o mundo não passava por uma pandemia e a vida seguia sem a necessidade de distanciamento, máscaras e álcool em gel, o cabeleireiro Marcelo Ataide, de 26 anos, mantinha rotina completamente diferente com a filhinha, Morgana de apenas três anos. “A gente brincava bastante, desenhava, eu contava história pra ela e nos finais de semana a gente gostava muito de sair pra brincar em locais livres, como no parque ou sair pra comer”, disse Marcelo, explicando que viu sua rotina mudar após o início do isolamento social.

“O jeito mais fácil agora é deixar ela segura, ela fica com a minha avó que realmente está em isolamento e não sai pra nada. Eu trabalho, então só vejo elas quando faço compras de alimentos e de outras coisas que elas precisam”, introduziu. Para distrair a pequena, Marcelo contou que avó (que é bisavó da criança), sempre usa a TV, por meio de desenhos. Que isso ficou mais acessível agora, quando algumas TVs por assinatura abriram seus canais infantis.   

Marcelo brincando com a filha antes da pandemia. Foto: Arquivo Pessoal

O relato de Marcelo representa a realidade de milhões de brasileiros que sem ter condições de cumprir com o isolamento social, são obrigados a deixar os filhos com alguém, em sua grande maioria, segundo observou a reportagem em Campo Grande, Capital do Mato Grosso do Sul, os pais deixam os filhos com os avós, que para entreter os pequenos recorrem à televisão.

A arte educadora, Alyadna Freitas, explicou que o ideal é que as crianças sejam estimuladas, com atividades que permitam contatos com diferentes objetos e experiências, que auxiliam ao desenvolvimentos das crianças. “Sei que nem todo mundo tem tempo ou condições de estar estimulando seus filhos dessa forma, então a TV pode ser uma boa saída, desde que os pais saibam selecionar os programas mais adequados”, ressaltou. 

Segundo a educadora, existem muitos programas educativos de boa qualidade na TV. Alyadna conta que operadoras de TV por assinatura, tem deixado parte de seus canais infantis com sinal aberto durante o período de pandemia e muitos pais tem comemorado a ação.

Porém, o Mestre em psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFScar) - [crp 14/00281-8], Jaume Ferran Aran Cebria, ressalta que não estimular as crianças com idades de 0 a 5 anos, pode afetar o desenvolvimento de competências muito importantes ao desenvolvimento dos pequenos. “Situações de isolamento social que alteram de forma severa o ambiente em que a criança está crescendo provavelmente tem efeitos negativos sobre o comportamento das crianças. Entre as alterações negativas podemos encontrar comportamentos ansiosos principalmente no caso em que pais ou adultos responsáveis pelas crianças manifestem ou passem para elas a impressão de incerteza”, alertou.

Conforme o psicólogo, a TV, elemento presente em nossa cultura, pode ser negativa caso haja a superexposição das crianças à ela. “Isso não significa que o uso da TV deva ser proibido, mas seria bom que não ficassem apenas assistindo de forma passiva. Nesse sentido, existindo a possibilidade, seria positivo que algum adulto criasse um momento de diálogo sobre o que a criança assistiu, questionar acerca dos personagens que apareceram na TV, que a criança tivesse que explicar o enredo do que assistiu. Resumindo, usar o que foi assistido como ocasião para que a criança exercite suas habilidades memorísticas, imaginativas perceptuais, e cognitivas de forma geral”, disse.

Marília brincando com sua neném, Alice. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

A designer de moda Marília Freitas de 23 anos, moradora de Valentim Gentil no interior de São Paulo, mãe da Alice de 2 anos, disse que para ela é muito importante brincar com a filha. A mãe conta que mesmo passando o dia no trabalho, tenta brincar e ensinar a filha sempre que pode, evitando a superexposição da criança a televisão. “Ela quase não assiste TV, pede bastante Peppa Pig [desenho infantil] mas evitamos ao máximo. Claro que a gente deixa ela assistir sim, mas não muito”.

Marcelo também compreende a importancia do contatato com a filha. Seja por meio do celular, ou pessoalmente, observando as regras de isolamento também para proteger a avó. “Quando eu vou lá eu não tenho contato físico com ela [Morgana], no máximo passo a mão na cabeça dela, faço carinho, mas abraçar eu não abraço. Eu higienizo todo o meu braço com muito álcool, entende?”, finalizou o pai, que argumentou que a distração da criança na casa da avó também passa pelo uso da TV como meio interativo, mas que isso é algo regulado. 

O psicólogo deu dicas de como criar interação com os pequenos nesse momento de quarentena. “Caso os pais disponham de tempo é possível criar na casa brincadeiras que não envolvam a TV. Por exemplo, dá para organizar uma caça ao tesouro, brincar com os pets da casa, e outras atividades que podem ser pesquisadas na internet”, orientou. 

De acordo com pesquisa feita pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) à partir de dados da Kantar Ibope Media, houve aumento de 9% na audiência de canais infantis desde o dia 25 de fevereiro, início de períodos de isolamento no País. Se comparada a queda de audiência que vinha sofrendo nos últimos anos, o aumento é significativo, apontou o levantamento.