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“Liberdade de expressão é indiscutível”, diz cartunista Ique Woitschach

19/01/2015 às 07:44
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O cartunista campo-grandense Victor Henrique Woitschach, o Ique, 52, um dos mais premiados e respeitados do jornalismo brasileiro, opina que o atentado terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo deve servir para renovar e fortalecer na sociedade o compromisso com a liberdade de expressão. Fã da publicação e do seu quadro de jornalistas, entre os quais o cartunista Georges Wolinski, ele não gostou da brincadeira do Papa Francisco – que promete dar um soco em quem insultar sua mãe –, reiterou que a liberdade não pode ser parcial e as consequências precisam acontecer em vias civilizadas.

Ique começou sua carreira em jornais de Campo Grande, onde publicava suas charges. Também dedicava-se à escultura, mas sem alarde. Incentivado por mestres do cartum, entre os quais Ziraldo, foi para o Rio de Janeiro. Aos 22 anos já pertencia aos quadros do Jornal do Brasil. Ficou 25 anos no JB. Suas charges conquistaram o País e granjearam interesse dos principais veículos da mídia nacional.

Assinou colaborações e trabalhos em dezenas de outras publicações como “O Estadão”, “O Dia”, “Lance”, “Playboy”, “Veja”, “Mad” e "Courrier International". É o único cartunista brasileiro a ser contemplado com o Prêmio Esso de Jornalismo – e foram dois, em 1990 e 1991. Desenvolveu então outros talentos. O de escultor, consagrou-o com oito esculturas de bronze no Rio de Janeiro reproduzindo celebridades como Martinho da Vila e Michael Jackson. Escreveu dois livros sobre charges e ano passado destacou-se na Copa do Mundo com uma de suas criações inéditas, o Messi animatronic, um boneco-robô que ele mesmo construiu, com tecnologia de animação eletrônica  adotada nos estúdios de Hollywood. Ique é ainda autor roteirista e diretor de TV, responsável por textos e desenhos do humorístico Zorra Total, da Globo

O MS Notícias publica hoje a primeira parte da entrevista realizada na última sexta-feira por telefone.

Por Edson Moraes

MS Notícias - O que aconteceu em Paris mobiliza o mundo na defesa da liberdade de expressão e contra o terror. Deve haver limites para certas formas de expressão, como charges ridicularizando credos ou disseminando preconceitos?

Ique– O limite é estabelecido pela ética de cada um, pelo contexto, pela história. Ridicularizar não seria a palavra adequada. As pessoas esquecem ou ignoram que existem duas formas de humor. Uma é a do comediante, da pessoa que vai ao palco, que faz graça, que é só ser engraçada. Para ser só engraçado, o comediante teria limites muito maiores, como no caso de ridicularizar uma mulher, um credo, um morto. Não porque não possa fazer isso. Pode tudo. Mas não condiz. A mesma coisa com relação a Paris. Se você não gosta do humor deles não compre o jornal deles. Os chargistas do jornal passavam dificuldades há muito tempo. Vi uma entrevista que o Wolinski (um dos cartunistas mortos no atentado) deu ao Ziraldo, no Pasquim, e eles havia 40 anos já estavam em dificuldades. O humor deles, de muito conteúdo e muito coerente, é assim faz 40 anos. Confundir as coisas é muito perigoso. Liberdade de expressão é liberdade, é uma conquista democrática e tem que ser total, integral. Se vai atingir credos ou incomodar alguém, quem fez vai sofrer as consequências, mas pelas vias civilizadas. A charge é um humor mais elaborado, mais engajado na responsabilidade social.

MS Notícias– Então o humor do humorista esgota-se em si mesmo e a charge como crítica tem um alcance mais amplo, um impacto maior?

Ique – São formas de expressão que possuem suas singularidades. Se o humorista de palco fizer humor com religião, o fiel dessa religião que se levante e saia. O que não pode é sacar uma arma e dar um tiro nele. É intolerância total, radicalismo, estupidez. O que limita a liberdade de um é o direito do outro. É esta convivência que se espera numa sociedade civilizada. O humor na charge tem outra conotação. O Wolinski dizia que nem era humorista, era jornalista. O humor da charge é essencialmente crítico porque tem função jornalística, social e política muito importante, como todas as instituições que podem fazer da sociedade um ambiente de convivência harmoniosa. Os jornalistas e cartunistas do Charlie Hebdo eram coerentes. Diziam que eles exageravam. É claro! Como é que se combate o radicalismo? Eram radicais do traço mesmo. Sabiam que a morte podia ser consequência do trabalho deles, porque o ouro lado é intolerante. Eles sabiam, tinham total consciência do risco. E a questão não era desenhar o Maomé em situação ridícula. Bastava um simples desenho do Maomé para que a intolerância e o ódio se manifestassem. Mas há algo fundamental: eles, no exercício do jornalismo, tinham direito de fazer o que faziam. Isso se chama liberdade de expressão, o que considero indiscutível.

MS Notícias – O Papa Francisco diz ser aberração matar alguém em nome de Deus, mas daria um soco em quem insultar sua mãe.

Ique– Pois é...e ele vinha vindo tão bem, acaba dizendo uma coisa dessas. Se o Papa diz isso, está pregando a intolerância. Porque ele não processa quem insultou?

MS Notícias – Você se sente atingido ou ameaçado depois desse atentado?

Ique– Nem um pouco.

MS Notícias– Alguma vez você sofreu censura ou reações mais exageradas por causa de suas publicações?

Ique – Lógico. Se me propus a ser chargista, eu saberia que iria contra uma série de situações que alimentam a intolerância. O poder não gosta de ser criticado.

MS Notícias– Você já foi censurado?

Ique – Muitas vezes. Mas, aprendi na carreira. Comecei aos 22 anos no JB. Era uma ilha deserta de liberdade, onde raramente fui censurado. As poucas vezes consegui reverter. Era censura interna, na redação. Ameaças, os poderosos ligavam pedindo pra me demitir. Mas eu sabia da e o pessoal também da importância do meu trabalho. Eu era muito jovem, mas sempre tive muita dedicação, tinha foco no que fazia e no que queria. Eu achava que podia mudar o mundo, que com meu trabalho poderia ajudar a mudar o país.

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