01 de julho de 2022
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SAIU PELA CULATRA

Cantores bolsonaristas arrastam sertanejos para mira de operações

Em MS, artistas do sertanejo faturaram R$ 703 mil em poucas horas de show

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A tag #CPIdoSertanejo ficou entre os assuntos mais comentados nas redes sociais nesta quinta (26.mai.22) e junto dela, nomes como os dos cantores Gusttavo Lima e Sérgio Reis.

Os usuários pedem que se abra uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para que se investigue o uso de dinheiro público para a contratação de shows dos artistas do sertanejo por prefeituras do interior. 

O assunto ganhou notoriedade após Zé Neto, da dupla Zé Neto e Cristiano, atacar artistas que se usam da Lei Rouanet: mecanismo legal que abate impostos de empresários que financiarem apresentações artisticas. 

De maneira direta, a Lei Rouanet funciona assim: ao invés de o empresário pagar "todo valor que deve em impostos para a União", ele pode destinar uma porcentagem para ações culturais. Isso é, uma verba usada para uma promoção cultural às pessoas (movimentação clara e Constitucional).

Para conseguir o apoio via Lei Rouanet, o artista solicita ao Secretaria Especial de Cultura uma Carta, documento esse, que permitirá ao artista procurar empresários interessados em "patrociná-lo", esse trabalho de campo é por conta dos artistas interessados.  

Diferente da Lei Rouanet, no caso dos pagamentos feitos às duplas sertanejas, o dinheiro está saindo dos cofres públicos em contratações diretas. Os municípios se valem da chamada 'nexigibilidade' de licitação - (por se tratar de algo único, exclusivo). Desse modo, a indústria sertaneja tem sangrado os cofres da Cultura ao longo dos anos, o que ganhou maior força nos últimos 4 anos, quando a maioria das cidades de pequeno porte do País passaram a fazer contratações diretas, pois, nesses lugares, se chama menos a atenção de órgãos de investigação.  

As atenções foram voltadas para esse "modus operandi" da indústria do sertanejo, após o cantor bolsonarista Zé Neto, da dupla com Cristiano, iniciar ataques e críticas aos artistas que já fizeram ou fazem uso da Lei Rouanet. Em vídeos na internet, Zé Neto, se vangloriou por não ter necessidade de usar tal Lei, dando alfinetadas na estrela mundial do Pop Anitta. Na compreensão de Zé Neto, quem paga seus shows são "o povo". E de fato é, mas não por meio de ingressos, como ele vinha sustentando.

Após os ataques, Zé Neto desencadearam revelações de cachês milionários pagos a cantores sertanejos por prefeituras de cidades pequenas. O cantor bolsonarista que atacou colegas da música apenas com sua opinião, não apresentando nenhuma evidência, acabou sendo rebatido com cópias de extratos em diários oficiais que contabilizam repasses milionários aos sertanejos em ano de eleição. (Veja as cifras no final do texto)

SERTANEJOS EM MS 

Mas não precisa ir longe para encontrar as cifras milionárias sendo entregues para artista da música sertaneja. A cidade de Jateí (MS), por exemplo, contratou o cantor sertanejo Michel Teló com inexigibilidade de licitação, por R$ 250 mil para um show. O aviso foi publicado no Diário Oficial da União na sexta-feira (20.mai.22), disponível para consulta. Teló vai se apresentar no dia 1º de julho, em uma sexta-feira, durante a realização da 45ª Festa da Fogueira, conforme documento assinado pelo prefeito Eraldo Jorge Leite. (A ÍNTEGRA)

Antes de ir para Jateí, Teló foi contratado para um show no Festival América do Sul Pantanal, que aconteceu ontem (26.mai). Para ocasião, o artista ganhou mais R$ 213.000,00 (duzentos e treze mil reais) correspondente ao preço de 1h30 de show musical. (A ÍNTEGRA). Dessa vez, pago pelo cofre de Cultura do estado.  

No mesmo Festival que Teló se apresentou, tocará às 22h deste desta sexta-feira, 27 de maio, a banda Atitude 67, representados pela A Atitude 67 Produções Artísticas LTDA. Mesmo sendo uma banda, formada por 6 integrantes, apenas por ser do gênero 'Pop' o cachê da banda nacional é de e R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais), para também tocar 1h30 no Fasp. (A ÍNTEGRA).

A dupla Jads e Jadson foi outra contratada de maneira direta pela FCMS que faturou R$ 240 mil em dois shows em MS. (A ÍNTEGRA). No mesmo mês, "Jads e Jadson" levou mais R$ 120 mil para realizar um show na Expocam, em Camapuã (MS). (A ÍNTEGRA). Se considerar apenas as apresentações de Jads e Jadson e Michel Teló, foram gastos R$ 703 mil dos cofres da Cultura com shows sertanejos em um mesmo mês.  

ZÉ NETO E GUSTTAVO LIMA 

Com a reprecussão da tag #CPIdoSertanejo, descobriu-se que Gusttavo Lima recebeu R$ 800 mil da prefeitura de São Luiz (RR), cidade com pouco mais de 8 mil habitantes. Na web, usuários revelaram que a cidade só conta com 2 hotéis e moradores sofrem para alugar casas, de tão pequeno que é o município;  

De acordo com a Promotoria de Justiça da Comarca de São Luiz, em Roraima, um ofício foi encaminhado para que a prefeitura envie informações a respeito da “contratação, de como os recursos foram arrecadados e também se haverá retorno para a Municipalidade”. O Ministério Público de Roraima instaurou um procedimento para averiguar o caso.

Na quinta-feira (26.mai), o jornal Estado de Minas revelou ainda um contrato de R$ 1,2 milhão pela prefeitura de Conceição do Mato Dentro (MG) a Gusttavo Lima. O município tem 17 mil habitantes e o show será realizado em 20 de junho.

O cantor afirmou que não seria obrigação dos artistas averiguar a origem do cachê que recebem. O sertanejo Sérgio Reis, que também foi um dos assuntos mais comentados, negou que o cachê pago pelos governos municipais seja dinheiro público. Ele, porém, não disse que os prefeitos pagaram com recursos dos próprios bolsos.  

Na cidade de Sorriso (MT) outro Show de Zé Neto e Cristiano custou R$400 mil, segundo o Diário Oficial do Município. A investigação, feita pelo jornalista do UOL, Demétrio Vecchioli, também apontou contratos com outras prefeituras, como Extrema (MG), no valor de R$550 mil; Sebastianópolis do Sul (SP), com R$403 mil e Aruana (GO), na cifra de R$320 mil. Somando, o valor totaliza aproximadamente R$ 3 milhões.

Após a polêmica envolvendo dinheiro público, o cantor Ze Neto decidiu doar um valor para um hospital. A unidade escolhida foi o Hospital de Base de São José do Rio Preto, em São Paulo.

A renda doada foi arrecadada no rodeio de Mirassol, que aconteceu no dia 23 de abril. O valor da doação foi de R$ 498 mil.

"Vocês tratam tanta gente da nossa família com tanto carinho lá, tantas pessoas que precisaram durante a pandemia. O que deu de bilheteria, eu não quero um centavo, quero que tudo que for para o Zé Neto e Cristiano seja revertido para o Hospital de Base", disse ele em comunicado. Além dessa ação, outras manifestações "positivas" foram feitas pela dupla, diante da má repercussão das investidas de Zé Neto.