13 de agosto de 2022
Campo Grande 30º 15º

IMIGRANTES | BRASIL

Fugindo da violência doméstica e da fome, Joycar e as 3 filhas buscam ajuda para 'cessar sofrimento'

Vivendo em MS, mulher busca principalmente, uma oportunidade de emprego

A- A+

Desde os 15 anos, Joycar Andreina Hernandez Ordaz, hoje com 31 anos, só conhece o sofrimento e a violência. “Fome, dor e violência doméstica. Tudo o que passei lá é tão ruim que não sei ao certo como é viver sem sofrer. Eu vim para cá acreditando que iria enfim parar de sofrer, mas ainda não deu... Eu estou pedindo, preciso de um trabalho, para ter e dar o mínimo às minhas meninas”, relatou a venezuelana que vive em Campo Grande (MS) há 3 anos. 

Nascida em El Tigre, no estado de Anzoátegui, Joycar foi morar com esposo logo após engravidar e mesmo estando gestante começaram as sessões de violência. “Eu engravidei quando tinha de 15 para 16 anos e minha família mandou eu ir morar com ele. Quando eu cheguei para viver num lar com ele, aí que minha vida se transformou num terror. Ele me batia mesmo eu estando grávida e sua mãe não falava nada”, revelou.  

A violência doméstica na sua natureza mais aterrorizante era parte do cotidiano de Joycar. “Aí [eu] era estuprada cada vez que ele queria... Ele me machucava, batia. Passei anos levando pancada, ele mijando em mim, me batendo. Ele não me deixava ir para onde estava minha família, não podia trabalhar, era monitorada. Fui engravidando essas 3 vezes”, lembrou. 

Essa é Joycar, em entrevista ao MS Notícias. Foto: Tero QueirozEssa é Joycar, em entrevista ao MS Notícias. Foto: Tero Queiroz

“A maior dor ao longo dos 12 anos que vivi com ele, é que além de me espancar e violentar sexualmente, ele espancava as minhas crianças”, disse. 

"A vida que eu tinha lá não era vida na realidade. Se eu não saísse de lá, eu iria terminal ruim. Porque o pai das minhas filhas só tinha uma meta, que era acabar comigo. Eu vim para o Brasil para viver, isso foi o principal! E queria achar uma vida melhor para mim e para minhas filhas", justificou. 

Ela nos contou sua história no lado externo da casa, pois, lá dentro não haviam móveis que pudéssemos sentar. Foto: Tero QueirozEla nos contou sua história no lado externo da casa alugada, pois, lá dentro não haviam móveis que pudéssemos sentar. Foto: Tero Queiroz

Joycar disse à reportagem do MS Notícias que chegou ao Brasil no final de 2017 de carona, após a Venezuela afundar numa agressiva crise econômica. “Na época lá não tinha nada, até quem tinha dinheiro não conseguia comprar o que comer, isso era terrível. A minha sogra tinha uma chácara e o pouco de comida para vivermos vinha de lá, mas isso também era limitado e começou a acabar. Me lembro que eu dormia nas portas dos mercados para comprar comida, porque às vezes se chegasse em um horário comum já não tinha mais nada, tudo estava desvalorizado”, reviveu. 

“Foi em 2017 que consegui me livrar. Porque ele conseguiu um emprego em uma mineradora longe e aí eu consegui fugir. Vim para o Brasil sozinha e passei 4 meses morando na rua”, narrou.

Joycar conta sua história de vida ao MS Notícias. Foto: Tero QueirozJoycar conta sua história de vida ao MS Notícias. Foto: Tero Queiroz

Passado o período como moradora em condição de rua, ela conseguiu apoio para imigração com a Organização das Nações Unidas (ONU). “Ficamos em Roraima durante um ano e lá me deram um curso de atendente e foi aí que consegui meu primeiro emprego sendo direcionada aqui para Campo Grande após o curso. Antes disso, fui de carona até a Venezuela durante 10 dias para buscar minhas filhas, que estavam vivendo com a avó (por parte de pai), lá na Argentina. Eu consegui pegar elas e trazer elas para a imigração em Boa Vista. Foi quando viemos para Campo Grande”, explicou.

Quando chegou na Capital sul-mato-grossense, Joycar tinha emprego e àquela altura acreditava de verdade que sua vida seria diferente dali em diante.

“Eles fizeram um projeto com as mulheres refugiadas que foram vítimas de violência doméstica. Aí eu trabalhei no Shopping Campo Grande aqui no Mato Grosso do Sul, aqui nessas lojas Renner. Trabalhei na área de reposição de estoque. Ali eu trabalhei por 2 anos, aí já faz 5 meses que eu fui desligada”, contou.

“Mas agora, nessa situação, apesar de ter para comprar está tudo muito caro e não estou conseguindo emprego. E como se eu começasse a reviver tudo aquilo, tirando a agressão. Tem dias que passamos só com café aqui em casa. Eu não consigo pegar nenhum benefício de governo e eu já me inscrevi, mas não veio nenhuma resposta. Funtrab eu já fui e nada, só me deram uma carta e disseram que se achassem algo iriam me ligar, mas nada até agora”, apontou. 

IMIGRANTE NO BRASIL

Joycar tem familiares no Brasil e na Colômbia, apesar disso, são distantes.  “Minha mãe mora em Santa Catarina, mas não temos contato, porque ela, quando eu era pequena, ela me deixou com a minha vó e com meu vô, que foram as pessoas que me criou. Eu tenho 2 irmãos em Santa Catarina e um na Colômbia (sic)”, esclareceu. 

Segundo ela, ao vim para a Capital ela se deparou com a xenofobia. “Quando trabalhava na Renner. Eles não gostavam de mim, só pegaram mesmo por causa do programa. Mas lá dentro eu não tinha valor de ser humano, era excluída, maltratada e humilhada. Chegou ao ponto de eu arrumar um monte de roupas nas prateleiras e os colegas vinham e derrubavam tudo. Tudo de propósito. Eu não sabia o porquê estavam me fazendo isso. Me deixavam excluída de tudo e com isso eu acabei ficando com ansiedade. Até que precisei pedir para sair, se não iria ficar extremamente doente do juízo”, revelou. 

A imigrante disse que sua principal aflição agora é quanto a comida e vestimenta. “Porque nós já até nos acostumamos a viver com pouco, veja ali dentro, não temos nada, desde que tenhamos comida e um casaquinho para minhas filhas, já está bom... agora, já acabou o seguro da empresa e eu não estou conseguindo um outro emprego de jeito nenhum, porque meu português é limitado. Eu faço de tudo, tudo mesmo, mas estão me pedindo experiência aqui no Brasil com carteira. Só a que tenho é a Renner... Tem umas empresas que já me indicaram, lá na saída da cidade, acho que chama JBS, mas eu não estou tendo condição de sair, porque eu não tenho dinheiro para passe, nada. Aí, procurei vocês para ver se alguém pode me ajudar a conseguir um emprego de alguma forma”, comentou.

A nossa reportagem pediu para Joycar nos mostrar a casa alugada que ela vive com as filhas num bairro de periferia campo-grandense. Ela nos convidou a entrar no imóvel e registrar em vídeo (abaixo) toda a situação. “Nós não temos cama, nem guarda-roupa, nenhuma dessas coisas, mas precisamos principalmente do alimento, que está muito difícil de comprar. Porque, quando eu cheguei aqui no Brasil, com R$ 200 eu fazia mercado e fazia um mercado bom, mas agora com R$ 200 não dá para comprar mais nada. Só vale um gás", comparou.  

"Já cortaram minha água duas vezes, cortaram minha luz... Eu fui pedir o programa do Energia Social no Cras [Centro de Referência da Assistência Social], mas lá eles me falaram que não era fácil conseguir o programa, que eu não estava na situação que se adequava, que tinha que ter filho doente para pedir... aí nem insisti", apontou.  

"A única que o Cras daqui me ajudou foi eu procurando outras pessoas, mas até para trazer uma cesta-básica aqui, de uma doação de outras pessoas, eles traziam de mal grado. Dificultam tudo, para fazer atualização vieram aqui só para dizer que eu deveria ir até uma unidade do Cras, não gostam de me atender, talves pela minha condição de imigrante?", questiou. 

Joycar e suas filhas moram na periferia campo-grandense. Foto: Tero QueirozJoycar e suas filhas moram na periferia campo-grandense. Foto: Tero Queiroz

No imóvel pequeno, com 1 quarto, 1 sala, uma cozinha e uma varanda, Joycar vive com outra imigrante venuzelana e suas três filhas: Guillerlin Alexandra Gonzalez, de 15 anos, Dayerlin Sofia Gonzalez, de 14 anos e Joerlyn Camila Gonzalez, de 9 anos. Veja o vídeo: 

MORADIA E MEDO

Além da condição de pobreza extrema a que está submetida, Joycar e as filhas estão aflitas com uma novidade amarga que acaba de chegar. “Agora fiquei sabendo que meu marido desembarcou no Brasil, em Roraima, me ligaram aqui para avisar. Eu tenho medo de ele vir atrás de mim e das minhas filhas. Eu vou ver se vou aqui, que sei que tem a Delegacia de Mulher, porque ele não pode me achar”, desabafou, Joycar.

Diante disso, como medida de segurança, a reportagem optou por não divulgar o endereço dela, no entanto, por meio de um contato de telefone: 67 9 8115-1328, as pessoas podem contatar Joycar, se identificando, caso queira contribuir para com ela de alguma maneira.