16 de agosto de 2022
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Travessias Cotidianas

A travessia da velhice

A travessia da velhice

De repente o bebê vai para faculdade e o espelho te indaga sobre o tempo. Esse é aquele instante em que o percurso faz trilha no rosto, nas curvas do corpo e nos fios luminosos do cabelo. É o tempo que cantou Caetano, o “compositor de destinos, tambor de todos os ritmos” que chega para todo aquele que não morrer antes. Anuncia: a vida é fugaz. 

É a velhice, essa coisa  a que Arnaldo Antunes chamou de mais moderna dessa vida. Ele a canta como quem encanta: “não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer, eu quero é viver pra ver qual é, e dizer venha pra o que vai acontecer.” Faz isso como se andasse na contramão de uma via de mão única em que todos estamos nela, menos o Benjamin Button, que viveu de trás pra frente.  

Então por que há tanto mal-estar em envelhecer na nossa cultura? Há tantas formas de esconder as trilhas como se o destino fosse o passado?

A filósofa Simone de Beauvoir, provocou a sociedade com a frase “velho é sempre o outro”. A negação da velhice se repete como a negação da morte. Envelhecer é aproximar-se da finitude. Saramago faz pilhéria com a morte, colocando-a em greve. Morrer não é o contrário da vida, mas a borda. Precisamos de borda para ficarmos atentos ao instante e ao espelho. Envelhecer é estar na cadeia do tempo a qual estamos todos, mas o outro é reflexo.  

Ainda na música de Arnaldo, ele afronta o medo de envelhecer, quando diz que está tudo bem o “cabelo cair para a cabeça aparecer [...] pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé/Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer/Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender/Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr” . 

Como Arnaldo, Eliane Brum, em seu artigo me chamem de velha vai afrontar a palavra para trazer para si o direito pela força: “Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.” Isso porque idoso ou melhor idade são formas de amenizar a palavra, como se ser velho precisasse de diminutivos. Ela escreve: “Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está.” (Eliane Brum, Me chamem de velha)

Na velhice, enfrentamos as condições de um corpo que passou tempo nessa terra. As fragilidades estão marcadas, mas é também um corpo social. Porque a velhice está representada na nossa sociedade que a lança aos aposentos da invalidez e muito do que se diz sobre ela é tomado como o germe do sofrimento. Envelhecer e ser sem valor se associam como um mito. Evitar envelhecer é evitar o destino inexorável de quem está vivo. 

Essa ideia se acentuou na pandemia, quando a demora da vacina levou embora muitos dos nossos velhinhos e velhinhas.

Mas por que não mudamos nossa visão da velhice, já que é destino e há um reverso desse lado? Por que não afrontamos o medo de envelhecer como Arnaldo? 

Reconhecer que esse é também um tempo de algumas liberdades muito interessantes como a de não estar preso no relógio, a de demasiado tempo ter passado e ser possível olhar para frente com a vivência do que se é sem as amarras das incertezas, a de não estar apegado a forma e desbravar os conteúdos. A de poder viver a intensidade dos afetos, dos lugares, do sexo. Ser livre para ser o que se é, entendendo aquilo que disse Clarice que “o futuro é para frente e para trás e para os lados”. 

E por falar em liberdades, Avós da razão vem quebrando mitos da velhice na internet. São três mulheres falando sobre a velhice. Talvez seja de mais vozes e rostos com demasiado tempo e histórias que precisamos para sermos mais generosos com a velhice e nosso próprio envelhecimento. Para enxergarmos a beleza no horizonte. 

Então, como trilhar por essa fase da melhor maneira? A chave pode estar no caminho: em todos os afetos, projetos e cuidados que construímos nessa travessia. 

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (Guimarães Rosa - Grandes Sertões Veredas)

Me. Rebeca Moreira
 

 

Referências e outras indicações

Musical

Oração ao Tempo - Caetano Veloso (1979)

Envelhecer - Arnaldo Antunes (2009)

Filme

Elsa e Fred (2014)

O curioso caso de Benjamin Button (2008)

A incrível história de Adaline (2015)

O outro lado da rua (2004) 

Minhas tarde com Margueritte (2010)

Amour (2012)

Meu pai (2020)

Eu, Daniel Blake (2016)

Livro

Intermitências da morte - José Saramago

A velhice - Simone de Beauvoir

Grandes Sertões Veredas - Guimarães Rosa

Canal Youtube

Avós da razão

Texto - Artigo

Me chamem de velha. Eliane Brum.

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