16 de maio de 2022
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Travessias Cotidianas

Angústia: riscos e fissuras

Angústia: riscos e fissuras

Às vezes a angústia é feito dor de crescimento. Aquela que dá no tempo da infância, quando a perna começa a doer, bem atrás do joelho. Aí algum adulto nos explica: é dor de crescimento, logo passa!

O corpo reclama da expansão de si.

Expandir dói, né?

Às vezes parece mais um rasgo, como quando se trata de uma perda.

Quando a angústia é de perda, parece rasgar a carne que somos, como se a falta e o vazio produzissem uma fissura no corpo. Talvez, por isso venha a sensação de que um pedaço foi arrancado ou de que existe uma ferida aberta-viva a se desenhar na pele.

Mas, de alguma forma, essa angústia é um motor que nos põe a trabalhar no mundo. 

Segundo Viviane Mosé “a angústia é um grito de sua alma presa em um modelo psíquico restrito. É um impulso ao rompimento de padrões.” A filósofa avança e nos pede para tirar os calçados apertados e escutar aquilo que pulsa no corpo.  

A angústia pede licença das formas mais diversas! Jacques Lacan a situa como afeto primordial no processo analítico. Enquanto uma espécie de perturbação, ela é afeto que não engana, estando amarrada à verdade do sujeito e seu desejo — ou causa de seu desejo, objeto a

Também já ouvi dizer que ela é o corpo desejando expansão e precisamos ouví-la, deixá-la nos movimentar. Nessa perspeciva espinozista, os afetos tem potencial de expandir ou diminuir a potência de ser, agir e pensar no mundo. Então, quando permitimos a este afeto fazer seu trabalho, a rasgadura é do tipo que amplia, feito a do crescimento. Expande para caber mais mundo, mais existência, mais vida.

Basta ter paciência para conduzir o alargamento das fronteiras de si.

É feito a barriga se alargando para gestar um bebê, sabe? Feito nossos ossos, músculos e pele se esticando conforme crescemos e desenhamos um novo corpo. Corpo-criança, corpo-adolescente, corpo-adulto.

O corpo se redesenha para sustentar mais histórias, potências, vida. Trata-se de uma mudança de forma.

Estamos sempre fazendo o luto das formas passadas... Cheios de riscos e fissuras, incorporamos outro corpo. De repente, aquilo que somos já não cabe na forma de outrora, por isso, algo (trans)borda, escapando às bordas.

Então, a angústia pode ser sintoma de um corpo desejante por expansão! Se a vida é um eterno rasgar-se e remendar-se como a literatura de Guimarães Rosa conta, a angústia vem avisar que é necessário encontrar outros canais de efetuação da vida, desfazer-se dos estratos, desterritorializar e criar outro território existencial possível... Ela interroga a vida que vivemos, desconforta, desconcerta, embaraça.

A angústia diz de um território do não-saber que talvez, queira ser sabido. Podemos fazer dela um enigma, então. Enquanto tentamos sufocar a sensação recalcitrante que invade o estômago, a garganta e o corpo mantemos o desejo aprisionado, silenciado. O corpo angustiado deseja expandir, mas não sabe como…

No presente, o discurso de felicidade permanente não nos ajuda a escutar a angústia. Afinal, na “sociedade da positividade” somos levados a rejeitar desconfortos e exterminar a iminência ao sofrimento a seu primeiro sinal. 

É curioso, mas ao passo em que o individualismo neoliberal se acentua, a desconexão de si consigo e da escuta de si se intensifica. Voltados para si, mas afastados do desejo singular que nos movimenta. 

Para o filósofo Byung-Chul Han, o Ocidente passou da sociedade da disciplina descrita por Michel Foucault para a sociedade do desempenho, organizada pela positividade, ou seja, pelo paradigma do “tudo podemos”. A fantasia de que podemos tudo associada à ideia de liberdade, coloca o sujeito enquanto responsável pelo seu desempenho, felicidade e sucesso. Para além de nos submetermos ao imperativo superegóico da disciplina, agora, projetamos um eu-ideal a ser alcançado. 

Trata-se de uma maquinaria de egotização, produzindo corpos fechados em si, em uma autoentropia onde todas as forças são vetorizadas para dentro da amônada “eu”, a partir de um ideal de eu. Nesse circuito desejante em torno do eu-fechado há um super investimento na individualização das relações, a partir de uma racionalidade neoliberal de “empreender” sobre si.

Para Hang, esse jogo produz um efeito violento sobre o sujeito. Às voltas com as demandas de polivalência, agilidade, produtividade e empreendedorismo, não há espaço para escutar aquilo que escapa ao ideal e nos angustia.

Empreender sobre si não é o mesmo que um trabalho de inflexão e cuidado consigo. Carecemos de nos escutar, ouvir o que se move em nós e embarcar na travessia a diante. Afinal, a angústia é uma convocação.

Júlia Palmiere
Psicóloga - CRP: 14/08263-6

Fotografia: Rebeca Moreira

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