15 de janeiro de 2021
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"Erros de Aécio e PSDB levam à vitória de Dilma no 1º turno", diz César Maia

O ex-deputado federal e ex-prefeito do Rio César Maia (DEM) faz duras críticas à forma como o principal partido de oposição conduz a campanha do seu pré-candidato a presidente, Aécio Neves. Para o político fluminense, os "erros" do tucano e a até agora baixa competitividade de Eduardo Campos (PSB) podem levar a uma vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno da disputa pelo Planalto em outubro

Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do "UOL", Maia faz um diagnóstico bem negativo de como vem sendo a atuação de Aécio Neves –a quem recebeu em sua residência, no Rio, no último domingo (22.mar.2014). O tucano está "priorizando a conversa com as elites. É um erro". A crítica também é dirigida a Eduardo Campos, pré-candidato a presidente pelo PSB.

"Você vê fotografia deles em vários lugares. Não vê em nenhuma favela, por exemplo. Por que não? A gente não vê essa marca de nenhum deles. A gente vê com a Fiesp, com a Firjan, com a associação dos bancos, com o agronegócio", reclama Maia. Para ele, o PSDB está "patinando ali naquela centro-elite brasileira, do Sudeste –a sudestina".

No encontro que teve com Aécio, uma parte dessas críticas foram apresentadas de maneira direta. "Faça também essas reuniões [com a elite], mas não só elas. Aí a [colunista da Folha] Mônica Bergamo faz uma matéria dizendo quem estava presente na reunião, que foi servido salgadinho. Isso não dá em nada. Dá para a coluna dela, prestígio. Para o candidato, não dá um voto".

Estrategista político, Maia diz ver um ruído no ressurgimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na linha de frente da campanha eleitoral dos tucanos. "Eles tinham que ter coragem de fazer uma pesquisa para saber se a impopularidade de Fernando Henrique continua a mesma. Se ele dá voto ou se ele tira. Tem que saber. Para saber se o Aécio tem que ter um mentor guardado, oculto, ou se tem que ter um mentor na linha de frente".

Estudioso de novos meios de comunicação, Maia reclama da forma como os partidos atuam na internet. "O site do PSDB... O que que traz o site? O que o blog do PSDB agrega? Eu recebo mensagens. Estou no cadastro deles. Eu me mobilizaria em função daquelas informações que eu recebo? Zero, nada".

Se continuar atuando como fez até agora, Aécio não ganha a eleição? "Ah, não. Não tem maioria", responde. "Eu tenho 68 anos. Não tenho mais idade de entrar numa eleição achando que algumas coisas estão erradas e ficar calado".

O ex-prefeito do Rio acha que ainda dá tempo para a oposição se reposicionar. Uma das estratégias defendidas por Maia é aumentar o nível de críticas ao governo de Dilma Rousseff, algo que ele já diz enxergar um pouco nos últimos dias. "O Eduardo Campos acelerou o discurso. Intensificou a marca. Ainda não tenho convicção de que ele tenha fôlego para crescer. Se eu tiver razão –posso não ter, né?–, eu acho que aí favorece Dilma vencer no primeiro turno".

Um fenômeno que pode prejudicar a oposição neste ano é o desencanto com a política por parte do eleitorado. "Há uma probabilidade de o 'não voto' crescer nesta eleição. Chamo de 'não voto' o seguinte: abstenção, branco, nulo, não sabe, não respondeu. Há uma probabilidade de esse não voto se aproximar de 40%. Quem perde? A Dilma não perde –tem o voto do Nordeste, do interior, que tem uma máquina grande. Isso pode gerar um primeiro turno. Se essa massa de 'não voto' crescer, ela pode ganhar no primeiro turno com 40%", especula.

Sobre a estratégia tucana de contratar 9.000 militantes digitais, como revelou a coluna "Painel", da Folha, Maia classifica essa iniciativa de "antirrede social". Para ele, "essa forçação de agências, de marketing de guerrilha e internet é um fracasso completo".

O DEM é o principal possível aliado do PSDB na disputa presidencial e esperança dos tucanos de ter um pouco mais de tempo na propaganda de TV e rádio. Embora os demistas tenham ensaiado desistir da aliança no final do ano passado, Maia acha que esse é hoje um cenário remoto.

Neste ano, o PSDB tem considerado lançar uma chapa pura, só com tucanos. Um possível candidato a vice-presidente com Aécio deve ser o senador Aloysio Nunes Ferreira, de São Paulo. "Estão completamente errados", afirma Maia. Para ele, o nome ideal para a vaga de vice seria o do senador José Agripino (DEM-RN), para dar diversidade geográfica ao projeto.

Na campanha presidencial em São Paulo, o PSDB teria de se fiar na força do próprio partido e de seus quadros. Mas e se José Serra não se engajar na campanha? Responde Maia: "O Serra é um poço de mágoa". O tucano paulista estaria agora dando "o troco" para Aécio, de quem não teria recebido o apoio na campanha pelo Planalto em 2010.

Para minimizar o fato de o DEM não indicar o candidato a vice-presidente na chapa do PSDB, Maia sugere uma compensação pragmática. Por exemplo, exigir que os tucanos ajudem demistas a se elegerem deputados federais em alguns Estados. A meta do partido é tentar chegar neste ano ao mesmo número de representantes eleitos em 2010 –foram 43, mas agora só restam 26, pois a sigla foi canibalizada por novas legendas.

A seguir, trechos da entrevista realizada no último dia 27, em Brasília:

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Folha/UOL - O seu partido, PFL e hoje Democratas, elegeu 105 deputados em 1998. Em 2002, 84 deputados; em 2006, 65 deputados; em 2010, última eleição, já como Democratas, 43 deputados. A curva é descendente. O que aconteceu? Cesar Maia - É igual à curva do PSDB. Só que o PSDB foi para 50 e nós fomos para 43 deputados. O que aconteceu é que há uma exaustão do ciclo do pensamento de centro-direita. O governo Fernando Henrique foi um governo basicamente de centro-direita. Esse espaço político perdeu estímulo do eleitor. Ele buscou uma mudança, uma alteração. Foi para o outro lado.

Mas há uma distinção entre o PSDB e o Democratas. Por conta da criação de novos partidos, foi no Democratas que essas novas siglas foram beliscar alguns deputados... Qual a perspectiva de bancada para o Democratas na eleição de outubro? Em janeiro de 2013, o Democratas fez em Salvador uma reunião com todo mundo. Teve uma discussão a respeito de duas linhas. Eu propus um grupo de crise. O José Agripino, nosso presidente, achava que a gente tinha que ser pragmático, tratar de eleger deputados. O ACM Neto [prefeito de Salvador] concordou com essa linha. E dali se fez uma espécie de levantamento Estado por Estado que indicou que o Democratas estaria apto a eleger de 36 a 48 deputados. Eu diria que a perspectiva do Democratas é quase repetir a bancada que elegeu em 2010: 43 deputados. O nosso objetivo é repetir a nossa bancada. Nós tivemos uma perda muito grande na Bahia. Agora, com a popularidade do prefeito ACM Neto, teremos uma recuperação. No Rio, estamos com dificuldades. Nossa perspectiva é eleger 1 ou 2 deputados federais. Quando eu fui candidato a governador, em 1988, elegemos 9 deputados federais.

Por que o Democratas não se profissionalizou enquanto esteve no poder central e com mais de 100 deputados? Nenhum partido.

Por que isso não aconteceu? No Brasil só há partidos parlamentares.

Mas não poderia ter feito algo? Poderia. Neste momento é outro tempo. Antes estávamos em um num ciclo no qual o PT cresceu muito, com a força dos movimentos sociais, sindicatos, associações, ONGs. Hoje, estamos em um mundo da democracia direta eletrônica que esvaziou essa representação associativa. O grande perdedor das redes são os sindicatos, as associações e os partidos parlamentares, que é o nosso caso e o de todos os outros partidos. Se soubermos trabalhar adequadamente essa nova democracia direta e combiná-la com a democracia representativa, podemos recuperar representação. Isso é possível. Tem que trabalhar bem. Eu vi no "Painel" daFolha que o Aécio está contratando 9.000 militantes. Aquilo ali é antirrede social...

Por quê? Porque as redes sociais são horizontais. Desierarquizadas. Cada indivíduo se sente empoderado. Cada vez que na rede social você tenta dizer "aquele cara é um líder de uma ideia", esvazia. As organizações não têm força. Tem até a rejeição das redes sociais. As redes sociais são de indivíduos anônimos. Quando você tem um grupo grande de indivíduos anônimos que pensa como você, você cresce por sinergia na opinião pública. Você está dizendo uma coisa que está sendo dita nas redes e vocês se encontram nas ruas, na eleição. Essa forçação de agências, de marketing de guerrilha e internet... Isso é um fracasso completo.

Aécio Neves erra se entrar nessa área? Totalmente, totalmente. O que ele tinha que fazer é, já nesses últimos anos, um levantamento dos militantes, simpatizantes que já estão na rede. Colocar turista na rede não leva a lugar nenhum. Quem está na rede? Você quer vir aqui? Vamos conversar? Vamos trocar ideias?

Mas esse é o slogan, "Vamos conversar?", que Aécio vem usando... Então, conversar não é o que ele está fazendo com 9.000 militantes que vão se encontrar em 300 reuniões setoriais. Essa não é a lógica das redes. Se ele identifica 500, não 9.000, que estão nas redes, que têm presença, que são sistemáticos, que estão nos cotidianos das redes e vai com esse cadastro empurrando ideias, sugestões para que eles espontaneamente multipliquem essas ideias –aí está certo– contra Dilma e a favor de suas ideias. Se coloca o nome e cola o nome aí já perdeu credibilidade. As redes são multiplicadoras de ideias e não de personagens –na área política, não na área de entretenimento.

Contratar militantes profissionais para entrarem nas redes e tentar promover determinado candidato é um erro completo? Não funciona. Se as ideias que as redes vão multiplicando coincidirem com as ideias que dão marca a você, isso gera uma sinergia de opinião pública. Mas não é dizendo "vote no fulano de tal". Aí é razão da ironia, da brincadeira, do "não multiplicador". Espero que eles não se equivoquem.

O sr. sempre formulou a respeito desses temas. Por que então o Democratas, e antes como PFL, não adotou esse tipo de estratégia já que ela parece tão clara para o sr.? Olha, porque entrou tarde. O Democratas fez sua primeira reunião em matéria de redes há um ano.

Por que demorou tanto? Por quê? Muito simples. Não sei se o número é esse, mas se não for esse é parecido: 95% dos parlamentares pensam que estão nas redes e não estão nas redes. Eles pegam a mala direta deles antiga e de 15 em 15 dias disparam uma newsletter para esse cadastro. A lógica da internet é interativa. Eles não têm paciência para receber um e-mail ou mensagem no Facebook de um cidadão para o qual eles não dão tanto valor assim. Nem para responder. Acham que não é importante. Fogem da lógica da internet. Fizemos [Democratas] uma reunião um ano atrás e não tivemos ali nenhum deputado presente. Tinham os gabinetes. Estamos fazendo reunião agora, tivemos na primeira metade da reunião, um [deputado] presente.

Essa é notícia que o sr. relata é ruim para o seu partido... Só para o meu partido? É geral. O deputado usa internet para tornar a mala direta barata mandando diretamente para o seu eleitor. Ele não vive a internet. Não vive a interação. Não gostam de receber xingamentos e não respondem a eles. A lógica da internet é essa: pulverização.

De volta ao encolhimento de alguns partidos. Há diferenças entre o seu partido e o PSDB. O PSDB manteve governos estaduais importantes e continuou a aspirar ao poder central, com candidato próprio a presidente. O Democratas encolheu porque se resignou à posição de satélite do PSDB? Concordo.

Isso aconteceu? Aconteceu. Na prática foi isso. A política majoritária em grandes Estados, na Presidência da República, é uma campanha de personagens. O Democratas não conseguiu construir esse personagem. O PSDB construiu.

Sobre o seu partido, o Democratas: é correta a interpretação de que ao se tornar um satélite do PSDB nas eleições... Total. Agora mesmo nós estamos vivendo isso.

E por que mantendo essa estratégia o seu partido vai recuperar terreno, como o sr. diz? Eu também tenho dúvidas. Nem sei se essa estratégia agora ela vai ser bem-sucedida.

Por quê? Porque uma coisa é você ter o Marco Maciel como vice-presidente do Fernando Henrique. Ter a Procuradoria da República indicada, a Receita Federal indicada, a presidência da Caixa Econômica. Enfim, o DEM era forte. Tinha Minas e Energia. Era forte dentro do governo Fernando Henrique Cardoso. Outra coisa é você...

Apoiar só eleitoralmente sem perspectiva de vitória... ...E com uma dúvida: se entra o vice ou não entra o vice. Se você perguntar qual vai ser a decisão do Aécio... Na eleição de 2010, quando José Serra indicou Índio [da Costa] para ser o candidato a vice-presidente foi um desrespeito ao partido. Não pelo Índio, que é um bom quadro, mas porque o marqueteiro achou que ele tinha sido relator do projeto da Lei da Ficha Limpa e que aquilo o descolava do PFL –que tinha uma marca negativa. Um desrespeito completo. E aceitou-se esse desrespeito. Agora, o nome do senador José Agripino [DEM-RN] não é favorito na escolha do Aécio para quem será o vice-presidente. Espero que seja ele, mas não é favorito. Eles estão pensando em São Paulo.

Eles estão certos ou errados? Eles quem?

O PSDB. Estão errados. Completamente errados.

Por quê? Eles têm que contar com a força do PSDB em São Paulo. Com um governador como o [Geraldo] Alckmin, que é imbatível no interior. O PSDB vai levar a candidatura do Aécio e permitir a ele fazer um cruzamento regional para agregar mais votos do que colocando alguém de São Paulo como vice. Enfim, o senador Aloysio Nunes Ferreira [PSDB-SP]: o que vai agregar em São Paulo?

Talvez seja uma tentativa de trazer os votos serristas para o candidato Aécio Neves? O Serra é um poço de mágoa. Em 2010 o Aécio colocou-se como candidato. O Serra acha que essa candidatura retardou o processo de amadurecimento da candidatura dele. O Aécio só saiu em dezembro [de 2009]. Ele [Serra] também só saiu em dezembro, para dar o troco. Acho que não contribui. Acho que ele devia entrar. Entender que o partido dele no poder contribuiria muito mais na maneira de eles pensarem o Brasil

Tudo indica que deve ser escolhido algum tucano para ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Aécio Neves. Nesse caso, o Democratas aceitará de maneira bovina essa decisão e dará seu tempo de TV para o PSDB? Eu não participo dessas articulações.

Mas o sr. é um quadro do partido. Não participo dessas negociações de bastidores. Agora, no mínimo, uma decisão dessa, para ser tomada, gera algum tipo de compensação na eleição de deputado.

Por exemplo? Chegar em um Estado e dizer: "Eu quero nesse Estado ter uma coligação que me garanta eleger dois deputados federais" ou "eu quero ter recurso para fazer a campanha nesse Estado para deputado". Enfim, tem maneiras de gerar uma compensação que te eleja mais três deputados federais, ou quatro ou dois, e que você abra mão de um direito que seria natural de ser o maior partido que apoia o Aécio Neves.

Dado que é incerta a eleição de Aécio Neves, entregar a candidatura de vice-presidente para o PSDB e fazer acordo para eleger deputados é mais vantajoso para o Democratas? Depende do segmento do Democratas.

Como assim? Tem um segmento no Democratas que ainda insiste na candidatura presidencial do [deputado federal] Ronaldo Caiado [DEM-GO], dizendo: "Vamos entrar pela direita, não tem esse vetor representado na política brasileira. Nós partimos de uma representação forte do agronegócio. Entramos com valores conservadores, valores cristãos, conservadores. Isso daí nos eleva para 9%, 10% do eleitorado". Há esse vetor. E há outro vetor que é o de que o partido é o mais forte que apoia o Aécio e leva tempo de televisão e que a gente deve ter a Vice-Presidência com a presença do José Agripino. E tem a tese do completo pragmatismo.

O sr. abraça qual dessas três correntes? A de que o partido devia ter candidato próprio.

Ronaldo Caiado? Isso ficou muito forte em dezembro e janeiro. Hoje essa tese se tornou pouco viável. O Democratas tem dois candidatos a governador. Eu, que sou um candidato a governador com 10% das intenções de voto. A minha presença como candidato a governador parte do fortalecimento de bancadas. Existe uma vinculação entre o candidato majoritário e legenda para deputado estatual e deputado federal. Temos também candidato a governador Paulo Souto, que é favorito na Bahia. João Alves, em Sergipe, seria favorito em pesquisa, mas está reticente em querer ser candidato a governador Esse é um quadro difícil. É um quadro em que se tem que trabalhar olhando para o fortalecimento do ponto de vista parlamentar.

Ronaldo Caiado seria a pessoa ideal para ser candidato a presidente pelo Democratas? Acho que seria ideal. Carismático, grande orador. Um grande quadro nosso.

Mas a chance de o Democratas marchar para essa solução de ter candidato próprio a presidente é diminuta? Eu diria que se formou uma maioria em dezembro. Hoje, já não se tem mais essa maioria. Porque você se aproxima da eleição e as pessoas, com essa taxa de rotatividade do parlamento brasileiro, vão tratar do seu quintal e da sua eleição.

Resumindo: na sua opinião o melhor seria o Democratas ter candidato próprio a presidente, Ronaldo Caiado, mas isso é muito difícil. Então o partido vai acabar tendo que se conformar e ficar sem candidato a presidente nem a vice, e apenas apoiando os tucanos? É isso. Foi um círculo que foi superado, infelizmente. Agora mesmo, domingo [23.mar.2014], o senador Aécio Neves esteve na minha residência para discutir o quadro...

O sr. falou tudo isso para ele? O que eu disse é que, em função da Copa do Mundo no Brasil, nós não vamos ter pré-campanha. Isso volta na segunda quinzena de julho. Então, como é que eles vão crescer? Os dois, Aécio Neves e Eduardo Campos, em um quadro desses? Eles têm que esperar o mês de agosto. O único caminho que se tem para começar a produzir segundo turno é a Dilma cair. Não adianta querer imaginar que vai crescer o Aécio, que vai crescer o Eduardo Campos. Pense bem: o Aécio foi um bom governador de Minas e teve uma marca que foi o "choque de gestão". O que passou de imagem para os outros Estados? Nada, só em Minas Gerais. Qual é a marca do Eduardo Campos no país todo? Nenhuma. Tirando ali Pernambuco e as adjacências. Eles vão ter que trabalhar a queda da Dilma para poder começar...

Como trabalham isso? Estão trabalhando. As declarações de Eduardo Campos têm sido fortes em relação à Dilma. Nesse caso da Petrobras, Aécio entrou também forte. Conseguiram mobilizar. Nós temos 20% do Congresso, mas conseguiram mobilizar uma CPI. A CPI, por mais que se queira que tenha um caráter técnico, será mais a crítica à corrupção, à gestão. A crítica à corrupção combina com o que o eleitor entende desse momento. Isso pode produzir ou deve produzir uma queda de pontos de Dilma. E a perda de pontos para quê? Para dar segundo turno. Dilma tem hoje 50% de chance de ganhar no primeiro turno, mas se ela for pro segundo turno, ela tem 50% de chance de perder o segundo turno. Ela não é favoritíssima no segundo turno, independentemente de pesquisas. Quando você faz o cruzamento e o corte daqueles que não votariam nela e que se opõe ao governo que está aí, é uma eleição sem favorito.

Dos dois candidatos de oposição, quem demonstra ter mais discurso para eventualmente derrotar uma presidente da República que disputa a reeleição no cargo? Certamente o Aécio. Teve um esfriamento do nome da Marina Silva. Aqueles marcavam Marina queriam vê-la em cima do pódio. Na medida que ela veio para baixo do pódio, há uma perda de entusiasmo. Essa queda da Marina fere muito a candidatura do Eduardo Campos, que contava muito com ela como vice como elemento alavancador da candidatura dele. Parece que não vai ocorrer isso da forma que ele imaginava.

Então o sr. acredita, na hipótese de haver segundo, que a disputa seja entre Dilma e Aécio? E ela vai com uma chance enorme de perder eleição. O Aécio tem essa consciência. Um segundo turno muda completamente o patamar dele, o patamar do voto contra a Dilma. Quero lembrar que o Geraldo Alckmin perdeu para o Lula em 2006 por uns 12 ou 13 pontos. O José Serra perdeu para a Dilma em 2010 por quanto? Oito pontos? Isso em uma eleição com a economia crescendo 7,5%. O Lula, se fosse para o Vaticano, era capaz de assumir o papado. Enfim, com todas as condições favoráveis. Essa foi a diferença. A chance de que em um segundo turno a Dilma perca a eleição no Brasil é muito grande. Agora, o problema é ter segundo turno. Essa deveria, no meu ponto de vista, ser a estratégia dos dois [Aécio e Eduardo Campos]: produzir segundo turno.

Uma pesquisa do Ibope realizada em março indica que a aprovação do governo de Dilma Rousseff é de 36%, com 7 pontos de queda de dezembro para cá. Esse deslize na popularidade é algo orgânico e vai continuar ou foi um soluço? Depende da ação da oposição. Agora, é uma chance. O primeiro número que eu tive é que a diferença daqueles segmentos de renda maior, de maior instrução, aumentou. A segunda informação que tive é sobre os jovens. Quando a gente fala em jovens, fala em três coisas. Primeiro, no voto evangélico. Os evangélicos cresceram excepcionalmente entre os jovens. Segundo, redes sociais. O terceiro elemento é essa antipolítica, a reação, a rejeição à corrupção, que também marca muito o jovem e combina um pouquinho com redes sociais. Há uma razão, uma lógica. Todo esse noticiário de Petrobras é compreendido absolutamente por aqueles que leem jornal todos os dias –20% das pessoas leem jornal. Isso pega no segmento. Tira de Dilma esse segmento que ela vinha perdendo.

Aécio Neves e Eduardo Campos estão parados nas pesquisas há vários meses. Por quê? Eles estão priorizando a conversa com as elites. É um erro. Você vê fotografia deles em vários lugares. Não vê em nenhuma favela, por exemplo. Por que não? Aécio é um senador da República, Eduardo Campos é governador do Estado de Pernambuco. Não podem subir uma favela e verificar o que está acontecendo com esse descontrole de segurança pública no Rio? Uma situação gravíssima. Os números estão mostrando. Então, vai lá. Quer ter uma posição? Vai lá na [favela da] Maré. O Exército vai entrar, não tem risco nenhum. Que política é essa das UPPs? Eu quero conhecer, quero ver de perto, quero conversar com as pessoas, entrar em um barraco. A gente não vê essa marca de nenhum deles. A gente vê com a Fiesp, com a Firjan, com a Associação dos Bancos, com o agronegócio.

Ou seja, mais povo e menos elite? É. E vamos ser pragmáticos. Esse tipo de reunião os obriga a fazer afirmações que tiram voto em campanha. Na nossa América Latina, o pensamento liberal tira voto. O pensamento conservador dá voto. O PSDB fica com uma calça justa porque quer ser socialdemocrata. Essa franja está ocupada. Essa franja o PT ocupou bem, não apenas trazendo teses, como trazendo o populismo e o social-liberalismo por meio de sindicatos e multinacionais. Por onde que entra o PSDB aí? Para onde ele vai? Caminha para a direita. Por que não afirma esse caminho onde tem voto, que é o eleitor conservador? É por aí que tem que caminhar. Se deixar o eleitor conservador solto, ele vai caminhar para o voto do populismo evangélico.

O sr. disse tudo isso para Aécio Neves? Não disse tudo isso...

Mas, por exemplo, "você precisa aparecer mais em favelas e menos na Fiesp", alguma coisa assim? Não disse isso. Mas disse que essas reuniões são prazerosas, são bem servidas, geram para o candidato uma alegria muito grande. Mas precisa ter a marca em outras áreas. Precisa ir lá. Lembro-me quando o [Geraldo] Alckmin, na campanha eleitoral de 2006, teve uma série de dois ou três programas indo à fronteira do Brasil, mostrando que não havia militares, não havia policiamento. Vai lá, vai lá e mostra. Por que tem tanta droga no Brasil? Por onde que entra essa cocaína? Vai lá e faz uma imagem. A imprensa não vai acompanhar? Claro. E tem também a internet. O site do PSDB é um site que... O que que traz o site? O que o blog do PSDB agrega? Eu recebo mensagens. Estou no cadastro deles. Eu me mobilizaria em função daquelas informações que eu recebo? Zero, nada. E o partido que tem governador de Minas, do Paraná, de São Paulo, que tem grandes quadros, que tem presença nacional, como é que pode ficar confortável, patinando ali naquela centro-elite brasileira, do Sudeste –a sudestina?

O sr. tem muitas críticas ao PSDB. Nem parece que o seu partido vai apoiar Aécio Neves. Não sou um amigo íntimo, mas me considero amigo do Aécio Neves. Todos nós aqui queremos fazer a campanha. A nossa aflição é que ele ganhe a eleição, porque a gente pode estar errado.

Se ele continuar desse jeito não ganha? Ah, não. Não tem maioria. Mas o tempo vai levando a gente ter razão ou não ter razão. Se a gente não tiver razão, e ele tiver razão e ganhar, nós vamos ser os primeiros a ficar debaixo do palanque, aplaudindo. Nenhuma dificuldade quanto a isso. Agora, a ansiedade... Eu tenho 68 anos. Vou fazer 69. Não tenho mais idade de entrar numa eleição achando que algumas coisas estão erradas e ficar calado, boca calada.

Então liste três erros desta fase de pré-campanha que precisam ser ajustados. O primeiro seriam essas reuniões com a elite? Faça também essas reuniões, mas não só elas. Aí a [colunista da Folha] Mônica Bergamo faz uma matéria dizendo quem esteva presente na reunião, que foi servido salgadinho. Aí o empresário tal falou com não sei quem... Isso não dá em nada. Dá para a coluna dela, prestígio. Para o candidato, não dá um voto.

Então o enfoque da presença do candidato só em reuniões não é bom, nessas reuniões de elite. Não.

E os outros pontos a serem ajustados? Esse segundo eles estão entrando agora. Que é entrar na Dilma, derrubar a Dilma.

Entrar na Dilma é atacar a administração Dilma Rousseff? É. E em terceiro, não se iludir com o PMDB. Não achar que essa dissidência do PMDB é alguma coisa que produz resultado eleitoral para o Aécio ou para quem for. É entender que essa é a natureza do PMDB. Essas dissidências fortalecem o PMDB, que é um partido confederado. O PMDB, no final, fará a campanha que fortaleça o PMDB. Com que condições o Aécio ou o Eduardo Campos podem aumentar a bancada de deputados federais dele, PMDB? Não tem instrumento para isso, só se fosse em Minas.

Se o PSDB e Aécio Neves continuarem insistindo no que o sr. classifica de erros, perdem a eleição? E Dilma ganha talvez no primeiro turno ou outro candidato ocupa o lugar de Aécio Neves e cresce? Acho que neste momento o Eduardo Campos acelerou o discurso. Intensificou a marca. Ainda não tenho convicção de que ele tenha fôlego para crescer. Se eu tiver razão –posso não ter, né?–, eu acho que aí favorece Dilma vencer no primeiro turno.

A Dilma venceria no primeiro turno? Poderia. Inclusive tem que se tomar muito cuidado. Há uma probabilidade de o não voto crescer nessa eleição. Chamo de "não voto" o seguinte: abstenção, branco, nulo, não sabe, não respondeu. Eu somo isso tudo e chamo de não voto. Há uma probabilidade de esse não voto se aproximar de 40%. Quem perde?

A oposição? A Dilma não perde –tem o voto do Nordeste, do interior, que tem uma máquina grande, uma máquina de gente.

Perde a oposição? Claro. [Dilma] perde menos. Isso pode gerar um primeiro turno. Em condições normais de temperatura e pressão, ela precisaria ter 47% para ganhar no primeiro turno. Nas últimas eleições, com 43%, isso produz segundo turno. Se essa massa de "não voto" crescer, ela pode ganhar no primeiro turno com 40%? Pode.

O sr. está com um viés pessimista... Não. Estou com viés construtivo. É muito diferente. Se eu estivesse em setembro, eu diria que estou com viés pessimista. Não estou. Nós estamos no mês de março.

Há tempo para reação? Há, total. Com essas delegações de futebol chegando, você tem que sair do palco e fazer a campanha no contato direto. É o caminho que se tem. É um quadro que exige habilidade estratégica. O presidente Fernando Henrique, que é, vamos dizer, o mentor do Aécio Neves. Eles tinham que ter coragem de fazer uma pesquisa para saber se a impopularidade de Fernando Henrique continua a mesma. Se ele dá voto ou se ele tira. Porque eu nunca vi o Fernando Henrique em uma situação de disposição como hoje. Faz palestra em tudo quanto é lugar.

Mas as pesquisas anteriores indicavam que ele não dava voto... Tirava. Agora, como é que está isso hoje? Isso tem que se saber, tem que se colocar. Se votaria num candidato apoiado ostensivamente pelo presidente Fernando Henrique. Tem que saber. Para saber se o Aécio tem que ter um mentor guardado, oculto, ou se tem que ter um mentor na linha de frente.

Aparentemente, pesquisas reservadas, sobretudo de dentro do governo, dizem que Fernando Henrique continua não dando voto. Nesse caso, é um erro a exposição dele junto com Aécio? Total. Tem que botar pesquisa. Votaria em quem? Lula ou Fernando Henrique? Expõe logo, direto. Dilma ou Fernando Henrique? Expõe direto. Para ver o que que significa a contribuição no voto. Contribuição nas ideias não há no Brasil ninguém que possa contribuir mais com Aécio do que Fernando Henrique Cardoso.

Foi bom o PFL trocar de nome para democratas? Péssimo. Isso foi uma ideia do [Antonio] Lavareda. A ideia do Lavareda era "Partido Democrata", copiando o americano. Mas aí refluíram e improvisaram o Democratas. Um erro da maior gravidade. O Democratas não é nada –[só] ver pesquisa. O PFL tinha lá 4%, 5%, [hoje] não tem nada. Um erro grave.

Tem como reverter? Vamos ver. Acho que dentro dessa linha, vamos eleger 43 deputados, como elegemos em 2010.

O sr. proporia voltar ao nome PFL? Não. Aí já era, não dá mais. O [Jorge] Bornhausen foi um excelente presidente do partido, fez o congresso da refundação. Parecia que as coisas estavam bem pensadas para Partido Democrata. Mas nunca para um Democratas genérico. Você tem que botar "o" Democratas, e a pessoa acha que tem um erro.

O sr. é pré-candidato a governador do Estado do Rio de Janeiro. Tem chance de o sr. desistir dessa candidatura? Não, nenhuma chance. Nenhuma chance. Quem está na frente tem 17%, 18%. [Marcelo] Crivella, [Anthony] Garotinho. Quem está lá atrás, que é o [Luiz Fernando] Pezão e o Miro [Teixeira], tem 5%, 4%. Todos sabem, pois todos são profissionais, que quem passar de 15% tem chance de ir para o segundo turno. Eu já fui para o segundo turno em 1992 com 16%. Já fui para o segundo turno em 2000 com 20%. Fôlego para ir para o segundo turno, passando de 15%, eu posso ter. Principalmente porque a situação do Rio de Janeiro é da maior gravidade em matéria de descontrole administrativo e de segurança pública.

Quem é o mais competitivo, na sua opinião, de todos já pré-lançados? Depende. No primeiro turno, o próprio Garotinho ou Crivella. No segundo turno, os dois perdem. Aí ficam todos ansiosos para ver quem vai ao segundo turno com Garotinho ou Crivella, para ganhar a eleição. A grande surpresa que a gente está tendo é essa performance pré-eleitoral do Lindbergh [Farias]. O Lindberg foi eleito senador com uma votação espetacular. Talvez seja o político que melhor faz campanha na rua, vai bem na televisão. Como é que Lindbergh pode estar nesse momento com 11%, 10%, como deu o último Ibope? Como é que pode? O Crivella tem uma explicação. Ele me disse, pessoalmente: "Cesar, o problema é que há uma fatia grande da população que acha que essas manifestações todas passaram do ponto e há um 'bagunção' nisso tudo. E como ele [Lindbergh] tem essa origem, colaram ele nisso. Ele tem que fazer um descolamento". Qual é a expectativa hoje dele [Lindbergh]? É que o Lula venha com a mão salvadora, que ele sente no colo do Lula. Só que como é que o Lula faz isso numa campanha com tantos candidatos no Rio de Janeiro da chamada base aliada? Você sabe que a Dilma não engole o Lindberg. Não engole. Você sabe que o Crivella é o mais confiável de todos eles. Confiável é aquele que faz campanha onde você não tem voto. O Crivella fará isso daí. Então como é que o Lula vai se movimentar numa campanha como essa? A Dilma é muito próxima do Pezão, estabeleceu uma linha de amizade quando era ministra ainda. Então, enfim, é uma situação difícil para eles mexerem.

Folha de São Paulo