04 de outubro de 2026
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ELEIÇÕES 2026

Há 23 anos na política, Flávio Bolsonaro diz ser a "novidade"

Atolado no caso Master, filho de presidiário tenta vender imagem de renovação no 2º turno

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Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 tentando apresentar ao eleitor uma velha carreira política com uma nova embalagem.

Em seu primeiro discurso após o resultado deste domingo (4.out.26), o senador pediu um “voto de confiança” e buscou se colocar como uma alternativa de renovação para o país.

O problema é que o candidato que agora pede para ser visto como “o novo” está na política eleitoral há mais de duas décadas.

E não chega ao segundo turno apenas carregando o sobrenome Bolsonaro. Flávio também chega sob investigação da Polícia Federal relacionada ao caso Banco Master e ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração autorizada pelo Supremo Tribunal Federal envolve suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos.

NA POLÍTICA DESDE 2002

Flávio Bolsonaro foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro em 2002 e assumiu o primeiro mandato em 2003.

Permaneceu na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro durante quatro mandatos consecutivos. Em 2018, deixou a política estadual para disputar o Senado, onde foi eleito e permanece desde 2019.

Também tentou chegar à Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016.

Em outras palavras, a candidatura presidencial de 2026 não marca sua entrada na política.

Marca sua tentativa de chegar ao cargo mais alto da República.

São mais de 20 anos entre eleições, mandatos, articulações partidárias e exposição pública.

O discurso de renovação, portanto, precisa conviver com um currículo que está longe de ser estreante.

Flávio não é outsider.

Não é um empresário que decidiu abandonar os negócios para entrar na vida pública.

Não é um desconhecido que apareceu agora nas urnas.

É um político profissional que passou boa parte da vida adulta ocupando cargos eletivos e tem relações finas com figuras da milícia como Adriano da Nóbrega, e ligação direta com Daniel Vorcaro, que roubou os aposentados no caso Master. 

PESO DO CASO MASTER

É nesse cenário que entra o Banco Master.

Flávio tornou-se formalmente investigado, desde julho, no inquérito que apura o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Segundo documentos tornados públicos pelo STF, a Polícia Federal apura possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados.

A investigação envolve recursos associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A PF também encontrou mensagens nas quais Flávio aparece cobrando recursos de Vorcaro para a produção do filme.

Flávio nega ter cometido irregularidades.

A existência da investigação, entretanto, é um fato público e passou a integrar o cenário eleitoral do segundo turno.

É justamente por isso que o discurso de renovação ganha outra camada.

O candidato que pede confiança chega à fase final da eleição carregando não apenas duas décadas de carreira política, mas também uma investigação que alcança relações financeiras ligadas à produção de uma obra sobre seu próprio pai.

O BANQUEIRO QUE FLÁVIO CHAMOU DE ESCÂNDALO

A situação ganhou contornos ainda mais curiosos ao longo da campanha.

Em julho, Flávio escreveu ao governo dos Estados Unidos sobre o Banco Master e classificou o episódio como um dos maiores escândalos bancários da história.

Na manifestação, criticou relações políticas envolvendo o banco, mas não mencionou sua própria relação com Daniel Vorcaro, incluindo conversas nas quais teria pedido recursos para financiar Dark Horse.

Posteriormente, documentos do caso tornaram pública a investigação envolvendo o senador.

O episódio colocou Flávio em uma posição politicamente desconfortável: denunciar o escândalo do Master enquanto seu próprio nome aparece dentro de uma investigação relacionada ao empresário que comandava o banco.

Não se trata de condenação.

A investigação ainda precisa produzir suas conclusões e Flávio nega qualquer irregularidade.

Mas também não se trata de algo que possa simplesmente desaparecer do currículo eleitoral do candidato.

FILHO DE JAIR BOLSONARO

A tentativa de vender renovação também esbarra em outro detalhe pouco discreto: Flávio é filho de Jair Bolsonaro.

Seu ingresso na política ocorreu dentro da família que se transformaria em uma das principais forças da direita brasileira.

Durante anos, Flávio ocupou mandato parlamentar enquanto o pai consolidava sua carreira nacional.

Agora, depois de Jair Bolsonaro ter sido preso em decorrência da condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado, Flávio foi escolhido para representar eleitoralmente o grupo político do pai na corrida presidencial.

Ou seja: a candidatura que pede renovação nasce justamente como continuidade de um projeto político familiar.

O candidato não rompeu com o sobrenome.

Não abandonou o grupo.

Não construiu sua candidatura contra o bolsonarismo.

Ele é o candidato que o bolsonarismo encontrou para ocupar o espaço deixado pelo pai.

O HERDEIRO QUE QUER PARECER ESTREANTE

Há uma ironia política evidente na construção eleitoral.

Flávio tenta se apresentar como alternativa para o futuro enquanto carrega um passado político que começou ainda no início dos anos 2000.

É filho de um ex-presidente que se tornou inelegível e posteriormente foi preso.

É senador da República.

Foi deputado estadual durante quatro mandatos.

Já disputou eleição majoritária.

E agora chega ao segundo turno da eleição presidencial.

A novidade está na cadeira que pretende ocupar.

O caminho percorrido até ela, definitivamente, não é novo.

“VOTO DE CONFIANÇA” DEPOIS DE 23 ANOS

O pedido de confiança feito neste domingo poderia ser comum em qualquer campanha.

Mas o currículo do candidato muda o peso da frase.

Flávio não pede ao eleitor confiança depois de uma vida fora da política.

Pede depois de mais de 20 anos dentro dela.

Não chega ao segundo turno para experimentar a vida pública.

Chega depois de passar por dois níveis do Legislativo.

Não apresenta um sobrenome desconhecido.

Carrega um dos sobrenomes mais conhecidos da política brasileira.

E não chega livre de questionamentos.

Chega enquanto é investigado no caso Master.

A campanha pode chamar isso de experiência, continuidade ou preparação.

Pode também apresentar a candidatura como uma mudança de governo.

O que os fatos não permitem é transformar a trajetória política de Flávio Bolsonaro em uma estreia.

DA ASSEMBLEIA AO PALÁCIO DO PLANALTO

Em 2002, Flávio disputava uma vaga de deputado estadual.

Em 2003, começava seu primeiro mandato.

Em 2018, chegava ao Senado.

Em 2026, chega ao segundo turno da eleição presidencial.

O salto é grande.

A trajetória, porém, é contínua.

Não houve um intervalo entre a vida política e a candidatura presidencial.

Houve uma longa sequência de mandatos que desembocou na disputa pelo Planalto.

Por isso, a pergunta que fica para o segundo turno não é exatamente quem é o “novo” Flávio Bolsonaro.

É outra:

o que, concretamente, mudaria caso um político que está há mais de duas décadas no poder passe a ocupar o principal cargo do país?

Essa é uma questão que o discurso eleitoral pode tentar responder.

O currículo, por sua vez, já está escrito.

E ele começa muito antes de 2026.