
Há 50 anos o “país do futebol” era unânime, o Brasil foi considerado uma joia do futebol. Entretanto, a presença do futebol no imaginário e no vocabulário remete algo que penetrou na cultura através de um processo de décadas, mas não diz sobre a importância disso hoje. Este texto busca refletir sobre o presente do futebol no brasil a partir de uma análise econômica e social.
O FUTEBOL, UMA MERA LEMBRANÇA?
1970, segundo o site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é o ano em que a seleção ao conquistar o tricampeonato mundial assume a “hegemonia do futebol”, com um time cercado de ídolos que logo depois transformam-se em heróis nacionais. Os clubes, por outro lado, não ficavam de fora, com jogadores renomados internacionalmente e times competitivos em torneios como o mundial de clubes.
Atualmente, portanto, o futebol, enquanto símbolo, é um patrimônio e paixão nacional, símbolo de identidade e atrelada à ascensão social de jovens periféricos. Um alento em um país desigual economicamente e um laser capaz de unir as classes sociais.
Contudo, depois do feito inédito do Corinthians Futebol Clube em 2012 contra o Chelsea no Mundial de Clubes, nenhum outro clube brasileiro conseguiu o feito de vencer um campeonato mundial. Pelo contrário, alguns até foram eliminados por clubes de campeonatos menores em fases anteriores, como o Internacional, o primeiro clube brasileiro eliminado em uma semifinal de mundial. Ser goleado na final também virou rotina, Santos e Fluminense estão aí de prova. No formato atual do Mundial, fomos bem na estreia, mas os argumentos para explicar o nosso bom desempenho, vinham de um ponto da paixão e da vontade, e não da tática e do planejamento.
De maneira geral, o termo “modernizar” aparece em destaque com os comentaristas esportivos: “Precisamos modernizar o futebol”. A impressão é que algo aconteceu nos últimos anos que não conseguimos entender e, quando nos demos conta, já não ganhávamos copas, não tínhamos mais ídolos e quando a seleção joga já não é um evento tão importante.

GLOBALIZAÇÃO E MUDANÇAS ECONÔMICAS
Vamos começar pelo cenário nacional. Segundo a Pluri Consultoria, o ingresso mais barato para um time da Série A, custa em torno de R$ 72,05. O mesmo estudo mostra que, somados ingresso e camisa oficial, uma pessoa gasta, em média, R$ 355,49 – parte substancial de um salário mínimo. Isso ajuda a explicar por que, segundo um estudo do NEXUS de 2025 – encomendado pela CBF -, apenas 19% frequentam estádios atualmente. Se considerarmos que 43% das famílias brasileiras, segundo o IBGE, vivem com até dois salários mínimos, será fácil entender como o futebol deixou de ser um esporte popular e se tornou um “produto premium”.
Segundo a mesma pesquisa, 73% acompanham as partidas em algum meio, e 47% assistem a pelo menos uma partida por semana. Isso reforça a ideia que o futebol deixou de ser de “arquibancada” e migrou para as telas, o que afeta a relação cultural que era estabelecida com o esporte. Os streamings estão ocupando o lugar das arquibancadas, embora também apresentem seu grau de dificuldade, na medida em que os campeonatos estão diluídos em plataformas ou assinaturas diferentes, encarecendo o acesso.
Do lado da seleção, a figura que representa simbolicamente o futebol brasileiro, há mais de 20 anos sem um campeonato mundial, vimos nossos principais ídolos irem para a aposentadoria – e novos ídolos e líderes não se formarem -; vimos fracassos consecutivos, ora em campeonatos regionais, como a Copa América, ora em performances vergonhosas, com destaque para 2014.
Segundo o Datafolha, o interesse pela seleção é o menor já registrado desde o início da série histórica. Há uma sensação que a seleção brasileira está em profunda decadência, sem grandes expectativas de que algo tenda a melhorar em um futuro próximo. Ainda, o Instituto Datafolha mostrou que apenas 33% dos brasileiros acreditam que o Brasil pode ser campeão em 2026, o menor índice desde 1994. No mínimo vivemos uma crise na identificação com a seleção brasileira. Para reforçar o distanciamento, uma pesquisa do Globo/Ipec mostrou que 32,04% da população brasileira não tem nenhum interesse na seleção.
Vale pensar na formação cultural a longo prazo. O jovem, por exemplo, tem acesso fácil às novas tecnologias, o que facilitará o interesse em e-sports (esportes eletrônicos), por exemplo. De acordo com a pesquisa Game Brasil, de 2024, 74% dos brasileiros jogam videogames, e 80% deles conhecem e acompanham e-sports. Esses dados corroboram que essa modalidade adquiriu um status cultural relevante e que, embora sem um estudo estatístico factual para afirmar, pode-se presumir que, a longo prazo, o interesse do público irá migrar do futebol para os esportes eletrônicos – e há estimativas que até 2028 essa indústria global deve ultrapassar os US$ 4 bilhões.
Atualmente, há muitos influencers de e-sports, o que facilita a identificação, através da mesma fala ou de faixa etária semelhante. Campeonatos de Jogos online são transmitidos ao vivo via Youtube ou outras plataformas, com narradores profissionais e investimento de grandes marcas. Portanto, o jovem, representado outrora por aquele garoto que sonhava em ser jogador de futebol, agora participa de algum e-sport.

Na dinâmica das mudanças internacionais, vale ressaltar dois fatores importantes: a chegada da NBA e de outros esportes e o crescimento do interesse por campeonatos internacionais.
Segundo a revista Forbes, o interesse pela NBA cresceu significativamente, de modo que o Brasil se tornou uma prioridade para a liga. Já a ESPN registrou um aumento de 15% na audiência total dos jogos na NBA de 2025 comparada ao ano passado, de modo que o Brasil já é o terceiro maior mercado da NBA fora do EUA. E, embora ainda não seja possível concretizar dados claros, parece haver um crescente interesse também na Liga de Futebol Americano (NFL), demarcado pela escolha da NFL de trazer um jogo para o Brasil no início deste ano. O ponto aqui é a diluição do público, antes focado em um único esporte (o futebol), para outras modalidades esportivas, além destas estarem deixando de ser algo nichado para atender o público de massa.
Por último, vale mencionar o futebol internacional. A final entre PSG e Inter de Milão pela Champions League de 2025 levou mais de 39 mil pessoas às salas de cinema, enquanto a média do Brasileirão, na 11° rodada foi de um pouco mais de 31 mil pessoas, segundo a Comscore. Embora o número sozinho não diga muita coisa, a Champions Legue representa um interesse que vem crescendo nos últimos anos.
Segundo a Opnion Box, 58% dos seus entrevistados assistem o campeonato e, quando perguntados sobre o porquê de assistirem a campeonatos internacionais, 48% disseram que os campeonatos são melhores, seguidos da competitividade e da qualidade dos atletas. E, quando comparados aos campeonatos nacionais, 61% dos entrevistados julgaram os internacionais de “melhor qualidade na sua estrutura de campeonato”.
Há aqui um apelo claro à técnica e ao profissionalismo, algo que é criticado por comentaristas de maneira geral, considerando que o futebol brasileiro ainda carece desses fatores. O brasileiro não está apenas trocando de campeonato, está buscando outro tipo de espetáculo. De maneira simbólica, parece que o “o melhor futebol do mundo” atravessou o Atlântico e está posicionado bem longe do Brasil.
Nesse sentido, os dados apresentados nos levam a pensar que há um processo de globalização no interesse do público, uma “globalização emocional”, que reflete um processo cultural de interesse e de perda de interesse. Ao mesmo tempo, há uma migração do público que antes estava presente majoritariamente no futebol e que agora se apresenta em outros esportes e no futebol internacional.
Portanto, ao mesmo tempo em que o interesse público pelo futebol diminui, o brasileiro ainda se identifica com o esporte. Simbolicamente, o esporte ainda é uma paixão nacional mas, culturalmente, há uma transição para outros setores, uma reconfiguração social. Esse texto, porém, é apenas o começo de um debate mais amplo, envolvendo cultura, economia, sociedade e o futuro do “país do futebol”. Será necessário analisar as SAF’S (Sociedade Anônima do Futebol), o fim do “futebol de rua” e outros temas possíveis. O futebol está na nossa vida diária, e estudá-lo é uma maneira de conservá-lo como patrimônio nacional.








