04 de dezembro de 2020
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O artista plástico Romero Britto comenta sua carreira em entrevista

Romero Britto, 42, iniciou sua carreira nas artes plásticas aos 8 anos, no Recife. De vendedor de quadros de rua a nome badalado no cenário internacional, Britto acumulou alguns milhares de dólares e um bocado de críticos em seu próprio país.

Quais são suas principais influências?

Romero Britto - Sempre gostei, e ainda gosto, de um artista do Brasil que se chama Francisco Brennand. Depois de pesquisar mais e aprender mais, vi artistas como Picasso, Matisse. Nos EUA, comecei a me interessar muito pela pop art e por artistas como Andy Warhol, Keith Haring, Kenny Scharf e Roy Lichenstein.

Como desenvolveu seu estilo?

Britto - Sempre tinha um elemento na minha arte e esse elemento sempre se repetia. A pop art é uma arte de repetição, é uma arte voltada para uma grande audiência. Mas o desenvolvimento do meu estilo foi bastante espontâneo, acho que tem sido uma evolução que ainda acontece. Tenho trabalhado meu vocabulário artístico, não foi de uma hora para outra. Às vezes eu me surpreendo ao ver pessoas falando coisas sobre a minha arte que são novidade para mim. Acho que essas surpresas vão continuar, porque eu continuo a pintar todo dia.

Você costuma falar que sua arte celebra coisas simples, bonitas e felizes. Já pensou em pintar algo lúgubre?

Britto - Não é o que eu quero fazer para minha arte. Não quero celebrar o "dark", o mórbido ou o que não seja muito positivo. Não está no meu vocabulário artístico celebrar o que a mídia e a imprensa celebram a todo momento.

Há quem veja seu trabalho como uma retomada da pop art. O que acha?

Britto - Acho legal que as pessoas façam esses comentários, porque são positivos. Mas seria demais para mim dizer "estou fazendo isso". Eu deixo para que as considerem. O que posso fazer é pintar e transformar minha arte em instrumento para as pessoas poderem levar para onde quiserem, ou sentirem onde quiserem e na intensidade que quiserem. Mas agradeço a referência. Por favor, podem falar em mim (risos).

Na pop art há um elogio ao simples. Mas também uma crítica à cultura de massas. Você compartilha dessa ironia?

Britto - Acredito que os artistas nos EUA que se inspiraram nesse movimento pop inglês não tinham necessariamente uma crítica. Era mais uma celebração das coisas que estavam sendo produzidas em grande quantidade. Aquela coisa do padrão de vida americano, em que todo mundo pode ter um fogão, cadeira, aspirador de pó. Eu acho que é uma coisa legal, porque o comportamento social muda. A violência é menor se temos as coisas básicas, quando o padrão de vida é elevado. Eu acho que é mais essa celebração dos produtos produzidos em massa. E quanto ao meu trabalho, o ângulo tem a ver com a pop art, mas de uma maneira mais atualizada. Mais voltada a inspirar gente jovem.

Em São Paulo, muitos pintores de rua fazem réplicas de seus quadros. O que acha?

Britto - É verdade? Copiado? (risos). Eu acho super legal as pessoas se inspirarem em mim. Vai saber, às vezes é o meio de vida, a pessoa pode ganhar dinheiro para poder viver desse jeito. Tem um lado bom e outro ruim. O bom é você inspirar as pessoas. O ruim é que se a pessoa tem o talento de copiar, ela também tem o talento de criar. Às vezes, elas acham mais fácil copiar do que fazer uma coisa nova. Elas acabam se bitolando, não se abrindo. Elas poderiam criar sua própria linguagem.

Apesar de ser copiado e ter reconhecimento fora do país, ainda há uma barreira entre seu trabalho e os críticos de arte...

Britto - Algumas poucas pessoas que já criticaram meu trabalho, elas não tiveram tempo de ver o que eu estou fazendo, conversar comigo, vir na galeria, conversar com o colecionador de artes. Elas acabam falando coisas sem fundamento, pois nunca fizeram uma pesquisa ou me entrevistaram. Sei lá, poderiam ligar para a Ellein Gughueiheim nos EUA e perguntar.

Também falam que sua arte é comercial demais...

Britto - A arte já é vendida há muito tempo atrás. Os artistas pintavam para o Vaticano e vendiam. Neste caso de ser vendida, por que não? Não me preocupo. Quando eu pinto, não estou me preocupando em vender. Eu vendo porque as pessoas querem comprar. Isso [críticas] é das pessoas que não vendem. Possivelmente isso vem de uma galeria de arte que não vende nada, só um trabalho por ano. Pessoas que fazem exposição em museu, mas não vendem trabalho. Tem muita inveja também. Existe muito artista que se diz conhecido em todo lugar do mundo, mas não é. Diz que é vendido em todo lugar do mundo, mas não é. Gosto de saber que do primeiro ministro da Inglaterra até uma pessoa mais simples do Brasil podem ter um trabalho meu. Isso incomoda muitas pessoas. Mas não passo muito tempo pensando nisso.

Você pensa em se apropriar de novas linguagens, como a digital?

Britto - Quero fazer, sim! Tenho alguns projetos em que vou usar materiais diferentes. Por exemplo, no ano passado, no Grammy, quando o (guitarrista) Carlos Santana estava se apresentando, todos os painéis no fundo eram minha arte digitalizada. Ao mesmo tempo em que ele se apresentava a vibração se envolvia com as linhas e as bolas do meu trabalho. Atualmente, busco um material digitalizado em que a pessoa possa por na bolsa, enrolar, e depois que possa estender na parede sem nenhum problema. Ainda estou buscando superfícies diferentes. Mas são projetos mais caros, mais complicados. Tenho planos de fazer trabalhos com telas plasmas também, em que as imagens possam ser enviadas através de cabos.

Qual foi a encomenda que mais mexeu com seu ego?

Britto - Um dos admiradores do meu trabalho que eu também admiro bastante é o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Acho que ele serve de inspiração para as pessoas, no sentido das pessoas olharem para ele falar "nossa, se ele conseguiu, eu também vou conseguir." Ele apoia muito meu trabalho, e eu gosto muito disso.

Todo seu trabalho é encomendado hoje?

Britto - 90% sim, por galerias e clientes. Tem gente que espera dois, dois anos e meio. Teve um colecionador que esperou oito anos por um escultura que eu fiz.

O que acha de suas criações estarem bastante ligadas a venda de produtos?

Britto - Quero mesmo que minhas imagens façam parte do dia-a-dia de muitas pessoas. Que minhas imagens participem da melhor parte da vida delas. Não importa se for uma escultura ou um cartão postal. Mas hoje eu gosto mais da escultura, porque a pintura muitas vezes fica mais restrita a um ambiente fechado, restrito. E a escultura é mais democrática, por isso estou botando mais ênfase.

Agência UOL