28 de novembro de 2020
Campo Grande 36º 23º

Zeca do PT critica Leilão da Resistência e afirma que reforma agrária com sustentabilidade é a saída

O ex-governador e vereador Zeca do PT concedeu ao MS Notícias uma entrevista exclusiva em que abordou temas sociais e políticos que fazem parte de sua trajetória e de seu trabalho como vereador. Além de antecipar o projeto de governo que irá defender na disputa eleitoral em 2014, Zeca, que será candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, fez uma análise sobre a atual situação política e social em que se encontram índios e produtores rurais em Mato Grosso do Sul devido aos conflitos por terras. Para o petista, a iminência da criação de uma milícia no campo é um ato perigoso que fere o estado democrático de direito dos índios.

Zeca do PT, natural de Porto Murinho, relembrou um pouco de sua história de como se evolveu com a política. “Nasci em uma charqueada, e sai de casa com 27 anos. Em 1972, o Banco do Brasil abriu concurso para uma agência em Murtinho, eu prestei e passei, mas como em seis meses não havia sido chamado, prestei concurso para sargento e acabei indo morar no Rio de Janeiro”, relembra Zeca.

O então sargento, em plena ditadura militar, decidiu retornar ao Mato Grosso do Sul em 1973, quando foi chamado para ocupar sua vaga no Banco do Brasil. Quatro anos depois, Zeca vai morar em Assis, interior de São Paulo, e é justamente nesta cidade em que ele se depara pela primeira vez com a figura do então sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula. “Quando conheci o Lula me identifiquei no mesmo momento. O que me chamou atenção foi a luta em defesa dos mais pobres, a ideologia do PT, por isso quando vim para Campo Grande em 1979 e sou que o Lula estava iniciando o movimento Pró PT aqui, mergulhei de cabeça”, conta.

Zeca se candidatou a deputado estadual pelo PT pela primeira vez em 1982. Em 1986, Zeca assume a vice-presidência do Sindicato dos Bancários e, dois anos mais tarde, ele se orna o vereador mais eleito em Campo Grande, mas como o PT não conseguiu formar legenda não assume o mandato. Em 1990, Zeca se elege deputado estadual e se reelege em 1994. Quatro anos depois, ele disputa eleição para governador do Estado e sai vitorioso, e cumpre dois mandatos como governador. Depois de uma pausa, o petista decide ser candidato a vereador em 2012  e hoje compõe a Casa de Leis da Capital.

 

MS Notícias - Começando por 2014, o senhor confirma sua candidatura a deputado federal?

Zeca do PT - Sempre resisti  a duas coisas. Primeiro em ser profissional da política. Nunca admiti permanecer por mais de dois mandatos. Em segundo lugar,  sempre relutei em ir para Brasília, mas agora sinto que devo assumir esse desafio. Vou para Brasília para defender os sem-terra, os sem teto, os índios. Esse é o meu papel. Admito que  aceitei,  internamente no PT, a ideia de ser pré-candidato do partido a deputado federal.

MS Notícias – O senhor pretende ser candidato ao Senado?

Zeca do PT – Sim, dependendo do resultado das eleições de 2014, pretendo em 2018 sair candidato ao Senado.

MS Notícias – Em relação aos conflitos entre índios e produtores rurais. Na semana passado o senhor acompanhado de diversas lideranças sindicais esteve no MPF (Ministério Público Federal) para solicitar o cancelamento do Leilão da Resistência, organizado pelos produtores para angariar recursos para garantir a segurança das propriedades. Qual sua maior preocupação caso o leilão se concretize?

Zeca do PT – A situação vai tensionar e cada vez mais é iminente o risco de uma chacina dos índios. Acho uma extravagância da fazendeirada se achar no direito de sobre a lei montar uma milícia particular, porque o que está por trás disso é uma milícia. Espero que o MPF não permita isso e encaminhe no sentido de proibir o leilão.

MS Notícias – Qual seria a melhor forma de solucionar o conflito?

Zeca do PT – Acredito que a indenização seja a melhor solução. Aliás, a ideia não é da fazendeirada nem da Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul) nem de ninguém. Quem levou, há dez anos pela primeira vez  a ideia ao então presidente Lula, fui eu,  dizendo olha podemos criar um novo conceito. A constituição veda que no caso de terra demarcada se indenize pela terra nula, porque parte do pressuposto de que se ela é demarcada é indígena, mas aí tem equívoco, pois existem dois casos. O grileiro que tomou a terra e é fácil de verificar e, neste caso, não se indeniza e tem a grande maioria que tem título de boa fé. Essas pessoas, os Ricardo Bacha da vida compraram suas terras do Estado, portanto o bandido da história não é o fazendeiro muito menos os índios. O bandido é o Estado brasileiro e os estados federados que venderam uma terra que não era deles e sim dos índios. Por isso, acho legítimo que se encontre um  mecanismo jurídico que permita indenizar pela terra e benfeitoria. Todos estamos juntos nisso, o que não concordo e vou me colocar à disposição dos que dependem do estado de direito é que cada um que se sinta prejudicado monte sua milícia particular, porque aí vai virar uma guerrilha.

MS Notícias - É possível alterar a constituição para resolver o problema?

Zeca do PT- O que começamos a conversar quando levei a questão para Lula e Márcio Tomas Bastos, então ministro justiça, é que se encontrasse um mecanismo legal através de transporte de recursos para fundo em convênio com Estado para que o mesmo compre a terra e a Funai (Fundação Nacional do Índio) indenize pela benfeitoria. O que falta é vontade política. Faltou no governo do Sarney, no do Itamar, no Lula e falta agora. Falta é vontade de agilizar esse drama e todos sabemos de que lado essa história vai arrebentar. E isso não significa bala de borracha que de vez em quando era ateada contra filinho do papai que protestava quebrando banco em estabelecimento privado. Aqui é bala de verdade, um mês atrás fui visitar a esposa e os pais do Oziel que até choram a morte prematura de seu filho. Quem matou Oziel? Cadê a reposta para esta indagação?

MS Notícias – Houve, na sua opinião, omissão por parte do governo do Estado e da União?

Zeca do PT – Com certeza, existe um documento, um termo de protocolo entre União e Estado que poderia ter evitado a morte do Oziel. Esse termo garante que o secretário estadual de segurança púbica, o Jacini nem o André não encaminharam para resguardar o direito de propriedade e eles não fizeram.

MS Notícias – É por essas e outras que os petistas resistem a uma aliança com PMDB?

Zeca do PT  - Não são apenas os petistas.  Vi uma pesquisa, que mostra 60% do povo de Mato Grosso do Sul abomina, rejeita e nega aliança com PMDB , e o Delcídio sabe que se fizer aliança perde eleição.

MS Notícias – O povo espera mudanças em 2014? O senador Delcídio vem com essa proposta?

Zeca do PT – O povo cansou desse autoritarismo dessa arrogância de políticos, dessa prepotência de alguém que acha que pode tudo e ninguém pode nada. Eu sou o Estado, o titio que resolve tudo e vocês são bobos. O Delcídio expressa essa mudança pelo jeito tranquilo sereno dele. Tenho minhas diferenças políticas e ideológicas com ele, mas Delcídio é o nome do momento. Ele é equilibrado, tem grande experiência administrativa e está cacifado para ser o governador que vai reestabelecer o governo de diálogo democrático, capaz de ter tempo e serenidade p ouvi, pensar no desenvolvimento econômico, na sustentabilidade, mas também com inclusão social. Isso é crescer com industrialização. Precisamos fugir do binômio boi e soja. O Estado precisa ser generoso para acudir os mais pobres e recuperar a auto estima para que todos possam ser felizes.

MS Notícias - O que é preciso para concretizar a reforma agrária?

Zeca do PT - Precisamos reestruturar o Incra.  Aqui, temos um senhor do superintendente, mas não resolve. O Celso Cestari tem uma equipe que envelheceu, se desmotivou por falta de política salarial. O Incra precisa ter gente, e não é só o Incra, a mesma  coisa acontece com a Funai, a crítica da Funai é infundada, quem tem direito a criticá-la são os índios. A Sesai, por exemplo, que deveria cuidar da saúde,não faz nada. A primeira mudança é aumentar a participação dos índios. Esse final de semana estava em Amambai  na aldeia Limão Verde e os índios me levaram a cesta que a Funai entrega a eles. Um nojo um acinte, uma agressão. Um  pacotinho de arroz e um de macarrão, e uma lata de óleo furada. Eu  vou azucrinar isso aí. Vou  cuidar dos índios, dos sem terra e dos assentados.

MS Notícias – Sua postura voltada para o social assim como a do PT enfrenta muitas críticas. Como senhor responde a isso?

Zeca do PT - O Lula respondeu a isso na Fiems e quando olhei para trás, tinha 300 empresários batendo palma em pé. E eles sabem, o PSDB sabe que esse é o circulo virtuoso da economia. As pessoas recebem mais,  se qualificam com geração de mais empregos. São contra, os reacionários que acordam cedo, tomam café da manhã, almoçam, jantam e estão de pança cheia.  Estão sonolentos e barrigudos e acham que índios e fazendeiros não tem direto de nada.

MS Notícias – Em relação a seu trabalho como vereador, como está o andamento do projeto do Portal da Habitação?

Zeca do PT - O projeto foi sancionado e tem 90 dais para ser implantado. Pedi uma reunião com a EMHA e com Semy para trabalhar implantação e vou cobrar isso. O portal irá resolver  o drama da desconfiança de quem recebe casa. Todo mundo sabe quem recebe. São os cupinchas. O Ministério Público sabe do esquema, mas não faz nada. No Caiobá tem casa sendo vendida , gente que pegou casa e não precisa com duas ou três casas, , por outro lado, famílias com  mais de 18 anos de inscrição. O portal vai permitir o controle social sobre a distribuição de casa. É uma coisa moderna e o projeto é colocar terminais de consulta nos terminais de ônibus urbanos.

MS Notícias – Por último, e o Bernal?

Zeca do PT – O Bernal está demonstrando uma capacidade enorme de resistir. Depois da vitória que teve, ele poderia calçar a sandalinha da humildade e  redirecionar seu governo. O Bernal precisa fazer o conselho político, reestruturar sua equipe administrativa com gente mais preparada e fazer governo de coalizão, se não, ele não entende de política. Ele tem que pactuar com a Câmara que, tirando os mais raivosos do PMDB, estão todos à disposição de colaborar.

Heloísa Lazarini

Assista ao vídeo da entrevista na íntegra