19 de junho de 2024
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DELAÇÃO

Veja o que Ronnie Lessa disse em delação do caso Marielle

Apontados como mandantes do assassinato da vereadora, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão e o delegado Rivaldo Barbosa foram presos em março

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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta sexta-feira (7) a transferência de Ronnie Lessa da penitenciária federal de Campo Grande para o presídio de Tremembé, em São Paulo. Além disso, o ministro tirou o sigilo da delação do ex-policial em que ele diz que se encontrou três vezes com os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão para tratar do assassinado da ex-vereadora Marielle Franco. Segundo Lessa, as reuniões duravam cerca de uma hora.

O último encontro foi em abril, depois do assassinato, antes de o ex-PM ser baleado. Os suspeitos estavam preocupados com a repercussão do caso. Lessa diz que eles foram tranquilizados pelos irmãos Brazão que afirmaram que podiam contar com a atuação de Rivaldo Barbosa, delegado que à época do crime chefiava a Polícia Civil do Rio de Janeiro.

“Nesse encontro nosso, foi assim, uma coisa já mais tensa, a coisa já estava tensa e já tinha saído do controle, a divulgação estratosférica, ninguém esperava aquilo. A situação [da última reunião] era saber qual o procedimento, o que se faz agora, pois todo mundo ficou tenso. Então eles [irmãos Brazão] tranquilizaram a gente o tempo todo, falaram o tempo todo que o Rivaldo estava vendo, que já está redirecionando e virando o canhão para outro lado, que ele teria, de qualquer forma, que resolver isso, porque já tinha recebido para isso no ano anterior. [...] Deu para ficar bem explícito que ele [Rivaldo] recebeu antes do crime para traçar essas diretrizes”, destacou Lessa.

A citação de Chiquinho Brazão foi o que motivou o deslocamento do caso do STJ (Superior Tribunal de Justiça) para o Supremo Tribunal Federal, visto que o parlamentar tem direito a foro privilegiado.

Irmãos Brazão presos

Apontados como mandantes do assassinato da vereadora, os irmãos Brazão e o delegado Rivaldo Barbosa foram presos em março em uma operação da Polícia Federal, com participação da Procuradoria-Geral da República e do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Lessa disse ainda que Marielle era uma “pedra no caminho” dos irmãos Brazão. “Foi feita a proposta, a Marielle foi colocada como uma pedra no caminho. O Domingos, por exemplo, não tem ‘papas na língua’”, afirmou Lessa aos investigadores. Além disso, de acordo com o policial, estavam tentando encontrar a vereadora Marielle Franco desde setembro de 2017. Ela foi assassinada em 14 de março de 2018 juntamente com o motorista, Anderson Gomes.

Também na delação, Lessa afirmou que o endereço da vereadora era em uma área de difícil acesso com policiais andando na calçada. “Era um lugar difícil de monitorar; e o prédio em si, é um prédio que não dispõe de estacionamento, ou seja, a pessoa que mora naquele prédio não tem como guardar o carro ali, ou ela tem um carro guardado em uma garagem ou estacionamento qualquer longe dali, ou não tem carro; então isso acabou tornando a coisa um pouco difícil; se tornou difícil porque não dava para parar, o único lugar que poderia parar tinha um policial parado de serviço; era um lugar que não tinha como monitorar para saber se o carro dela estava dentro porque não tem garagem e também não sabia se ela tinha carro”, disse.

“O Domingos falava mais e o Chiquinho concorda. É uma dupla, um fala mais e o outro só concorda”, destacou. Os irmãos estão presos desde março por suspeita de envolvimento no assassinato da vereadora.

Terrenos em áreas de milícias

“O que deu pra entender é o seguinte: a Marielle vai atrapalhar e nós vamos seguir isso aí, e, para isso, ela tem que sair do caminho”, destacou Lessa. Marielle e Chiquinho Brazão, que à época do crime também era vereador, discordavam em relação a um projeto de lei que regularia terrenos em áreas de milícias. A intenção dos irmãos era lucrar com a venda de dois loteamentos. Uma parcela seria de Chiquinho e Domingos e a outra metade seria de Lessa, como pagamento pelo crime.

“O que eu posso dizer é que eu ouvi da boca do próprio Domingos e acordado com o próprio irmão [...] ele deixou bem claro que o loteamento ia seguir. Era muito dinheiro envolvido, na época ele falou em R$ 100 milhões, R$ 150 milhões. Realmente, as contas batem: R$ 100 milhões o lucro dos dois loteamentos, são quinhentos lotes de cada lado, é uma coisa grande, são ruas, na verdade, é um mini bairro, é uma coisa gigantesca. Então a gente tá falando de muita grana”, afirmou o ex-PM aos investigadores. Se Lessa receberia metade dos loteamentos, o lucro do suspeito ficaria na casa de R$ 50 milhões.

“A questão é, a princípio, terrenos, a questão que ela [Marielle] disse que combateria seriam terrenos em loteamentos ilegais, e de alguma forma ele [Domingos] deixou transparecer que, principalmente, se fosse os deles”, completou.

Morte de Anderson Gomes não estava nos planos

Lessa disse que matar o motorista da vereadora Marielle Franco, Anderson Gomes, não era a finalidade. “Um garçom mostrou as fotos pra gente, aí que descobrimos que tinha mais uma pessoa morta; até então não se sabia, falou que mataram duas pessoas... aí na verdade a ficha nem caiu direito; eu falei onde, ele disse no centro... duas pessoas? Aí vi nas fotos que o motorista estava morto; não era a finalidade também; então; ali nós ficamos sabendo que tinha duas pessoas mortas, e a coisa ficou mais tensa ainda; começamos a beber mais um pouquinho, o jogo acabou e as pessoas se dispersaram”, disse.

Ronnie Lessa disse ainda que o plano era matar a vereadora no local onde ela estava, antes de entrar no carro. Entretanto, ele lembrou que a rua era na esquina da Polícia Civil. “Então aqui não, de jeito nenhum, e preferimos deixar no caminho, para onde tivesse oportunidade”.

‘Rivaldo é nosso’

Em uma das reuniões anteriores ao assassinato de Marielle, Domingos afirmou que “Rivaldo é nosso”, conforme a delação premiada do ex-PM. “Ele [Domingos Brazão] disse que a DH [Delegacia de Homicídios] ‘tava na mão’, que a DH estaria já acertada. Nessa ocasião, o Macalé [que dirigia o carro quando Lessa supostamente efetuou os disparos que mataram Marielle] falou ‘pô, padrinho, se eu soubesse que o senhor tinha esse contato eu não teria nem sido preso’. Em 2014, 2015, ele foi acusado de um homicídio. A resposta do Domingos: ‘pô, você não se comunica, o Rivaldo é nosso’. Então ele [Rivaldo] é a ‘carta branca’, sem ele ninguém faz nada. Ele [Domingos] deixou bem claro que, quando ele falava que a Polícia Civil estava na mão, ele falava de Rivaldo Barbosa, ele não falava de outro delegado, nem de inspetor, nem de ninguém, ele falava exclusivamente de Rivaldo Barbosa”, completou Lessa.