De acordo com a mais recente pesquisa do Instituto Ranking Brasil Inteligência, Rose Modesto (União Brasil) lidera as intenções de voto em Campo Grande. Com a desistência do ex-prefeito e ex-governador André Puccinelli (MDB), ela assumiu isoladamente a ponta das preferências dos eleitores. Antes desta pesquisa, duas candidaturas corriam para encostar na liderança: a prefeita Adriane Lopes (PP) e o deputado federal Beto Pereira (PSDB). A deputada federal Camila Jara (PT) vem logo em seguida, com a expectativa de conquistar eleitores que estão no vácuo da concorrência.
A adesão de Puccinelli e o acordo surpreendente com o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro deram de presente a Beto o impulso necessário para avançar e ultrapassar Adriane. Sem o ex-presidente no seu palanque, a prefeita fica com uma única celebridade como "cabo eleitoral", a senadora Tereza Cristina (PP). Assim, o quadro desenhado pela pesquisa confirmou duas mulheres no trio que comanda as três principais posições da tabela das intenções de voto. Trata-se de um fato relevante, a ser explorado positiva ou negativamente, dependendo do olhar e da direção estratégica de cada campanha.
ROSE À VONTADE
Beto, o divisor de gêneros no páreo sucessório, Rose e Adriane terão contextos diferentes para argumentar. A pré-candidata do União Brasil não tem tanta necessidade de posicionar-se ideologicamente como esquerda ou direita. É reconhecidamente uma ativista de centro, mas nesta fase de pré-campanha conseguiu situar-se taticamente e equidistante da polarização entre Bolsonaro e Lula. Integrou o escalão superior do presidente petista como titular da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), sem fazer juras de amor ao atual chefe da Nação.
Rose ficou à vontade para desobrigar-se de explicações incômodas e isto lhe assegurou, inclusive, melhorar e ampliar o trânsito entre os diversos públicos. Resistiu até a apelos que a queriam arrastar para compromissos à direita ou à esquerda. Fortaleceu e estendeu a capilaridade que abastece as taxas majoritárias de preferência nas amostragens pré-eleitorais. Tem ainda a seu favor um currículo de bons carimbos públicos: foi vereadora, vice-governadora, secretária de Estado, deputada federal e superintendente de um dos órgãos mais importantes para a economia nacional.
REELEIÇÃO
Adriane Lopes tem na balança de seu projeto um peso e um aparente contrapeso. É favorável o panorama aberto pelos esforços que desenvolve para recompor a gestão de uma cidade que há anos vem sofrendo duros e sucessivos impactos nas finanças. Assumiu mais problemas que soluções e está indo além dos limites para encontrar boas respostas, como as que está dando em áreas complexas como educação e infraestrutura urbana.
A prefeita ocupa-se das demais prioridades com igual zelo. A saúde, o transporte e as finanças começam a sair do imenso vão em que estavam, conforme sinaliza o anúncio de obras como o primeiro hospital municipal e os investimentos na modernização das estruturas de apoio aos passageiros de ônibus urbano, sobretudo os novos pontos de embarque, a pavimentação dos corredores de circulação e outras melhorias.
Estas providências estão reoxigenando Adriane administrativamente. No entanto, há outros elementos que podem potencializar retorno político e eleitoral em favor de sua candidatura. Em princípio, o maior desafio neste aspecto será superar o leve desgaste que sofreu com a surpreendente atitude de Bolsonaro ao bandear-se para o ninho do tucano Beto Pereira. O apoio e a firmeza da senadora Tereza Cristina ao proclamar que continuará em seu palanque podem acrescentar doses consideráveis de compensação. E elas ainda têm um discurso encaixado, caso queiram tirar proveito da onda das políticas afirmativas e propagar que o PL - ou o bolsonarismo - praticou contra a prefeita uma grosseira discriminação de gênero
ENGENHARIA TUCANA
Não resta dúvida, nem para o próprio Beto Pereira, que o voo da pré-candidatura tucana para o segundo lugar na pesquisa Ranking Brasil deve-se à soma de três fatores determinantes: suas incursões sistemáticas nos ambientes de reverberação pelas redes sociais e todo tipo de eventos, sobretudo nos bairros; a conquista de Puccinelli com seu MDB; e a chegada do PL de Jair Bolsonaro.
É justo reconhecer que tais adesões se devem, basicamente, à astúcia e à percepção estratégica do ex-governador e presidente estadual do PSDB, Reinaldo Azambuja, com o reforço do governador Eduardo Riedel. Estaria, desta forma, completa a receita de sucesso para Beto fazer da chegada no segundo turno um fato consumado, mesmo em fase pré-eleitoral. A questão que impede esta projeção é prática e tem lógica irrebatível: o tucano está no enfrentamento contra três rivais femininas: Rose, Adriane e Camila. Terá de se socorrer com um discurso que o imunize contra a infecção de um vírus impertinente, o da misoginia.
Se a pré-candidatura de Adriane, patrocinada por Tereza Cristina, foi atacada de surpresa por uma revoada-surpresa de Bolsonaro, podem ficar no imaginário popular o desenho sintomático de duas mulheres traídas por compromissos previamente anunciados pelos protagonistas de uma aliança que só iria existir no discurso e nas versões da mídia. No real, o que Jair Bolsonaro fez foi vitaminar o candidato homem e tirar o pão que prometera servir à mesa da mulher. Pode ser que para este jogo de versões Beto venha com seu maior recurso, neste momento: a vaga de vice em sua chapa será ocupada por um nome feminino, o da coronel PM Nedy Centurião, do PL.