03 de abril de 2025
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VERGONHA BRASILEIRA

Escândalos de Bolsonaro já plantam o medo de contaminação negativa

Imprensa mundial perplexa: "casa" do ex-presidente brasileiro está caindo com aliados políticos dentro

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Está mais do que clara a intenção de Jair Bolsonaro e de seus fiéis seguidores tentando frear as investigações de crimes apontados pela Polícia Federal, tendo o ex-presidente como seu principal protagonista. A tentativa é livrar os candidatos bolsonaristas e de direita do questionamento que vão sofrer em consequência dos graves inquéritos e processos, entre os quais o sumiço das joias sauditas, a fraude nos cartões de vacina e o esquema de arapongagem para espionar e acuar seus inimigos, com a utilização de um braço governamental, a Agência Brasileira de Inteligência (ABI).

Bolsonaro já tem uma punição judicial sobre seus ombros. Tornou-se inelegível até 2031 por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na eleição presidencial, ao reunir embaixadores estrangeiros para lançar suspeitas sobre a segurança do processo eleitoral e da precisão das urnas eletrônicas. Não provou suas denúncias, ao contrário da Justiça Eleitoral, que comprovou a ilegalidade no abuso do cargo e a farsa diante de autoridades internacionais.

No entanto, independentemente do desenrolar dos processos e das investigações, os fatos e as provas demonstrados até aqui pelas autoridades policiais já provocaram os primeiros impactos no ano em que o Brasil vai às urnas. Mesmo em fase pré-eleitoral, o impacto não é nada agradável para a direita, sobretudo as correntes bolsonaristas. A disputa pelo apoio do ex-presidente ainda é acirrada e chega a dividir os nichos conservadores, mas o desgaste, ainda um pequeno vírus roedor, começa a incomodar. Ter um cabo eleitoral forte e idolatrado é bom, contudo num período de debates virulentos a ficha corrida de cada um pode servir de contrapeso fatal.

CONTAMINAÇÃO

Em consequência da Operação “Última Milha”, deflagrada pela PF, o escândalo da arapongagem está fazendo suas vítimas. O deputado federal Alexandre Ramagem (PL), ex-chefe da Abin e apadrinhado de Bolsonaro, cai fragorosamente nas intenções de voto como candidato a prefeito do Rio de Janeiro. Até o final da semana, mesmo com a reiterada declaração de apoio do ex-mandatário, sua retirada da disputa passou a ser considerada pelo partido. Ramagem é uma das peças-chave da investigação, inclusive uma de suas conversas apuradas pela PF revela as atividades nada republicanas do órgão de inteligência em serviços paralelos.

Queiram ou não, as chapas bolsonaristas correm o sério risco de ter suas identidades coladas no escândalo que põe Bolsonaro e familiares no olho do furacão. Apesar de ser contemplado com uma cega idolatria em quase todo território nacional, o ex-presidente não está imune ao olhar crítico das pessoas que o seguem porque acreditam em sua honestidade. E isto pesa tanto, a ponto de produzir fenômenos como em Campo Grande, com a prefeita Adriane Lopes (PP). 

Pré-candidata à reeleição, ela chegou a contar com Bolsonaro em seu palanque, todavia ele preferiu ficar com o tucano Beto Pereira. O baque no QG de Adriane foi impactante. Porém, nos dias seguintes, diante das novas revelações da PF, os adrianistas passaram a avaliar que a prefeita pode estar livrando-se de situações desconfortáveis na campanha, como a obrigação de declarar-se bolsonarista ou explicar sua ligação com um líder político condenado por um crime e respondendo por outros ainda mais graves e passíveis de punições mais severas.

Ramagem, do PL-RJ: encurralado, sob pressão para desistir de candidatura | Foto: ReproduçãoRamagem, do PL-RJ: encurralado, sob pressão para desistir de candidatura | Foto: Reprodução

O ESQUEMA CRIMINOSO

O ambiente bolsonarista agora está carregado como nunca. No decorrer das investigações da PF, a quebra do sigilo pelo Supremo Tribunal Federal complicou de vez a situação de gente próxima e do entorno do capitão reformado. São graves as irregularidades. Servidores da Abin formaram uma organização criminosa para monitorar pessoas e autoridades públicas, invadindo celulares e computadores. O esquema é investigado desde 2023. Foram monitoradas autoridades do Judiciário, Legislativo e Executivo, além de jornalistas. 

Polícia Federal deflagrou Operação Última Milha e investiga arapongagem | Foto: ReproduçãoPolícia Federal deflagrou Operação Última Milha e investiga arapongagem | Foto: Reprodução

 MUNDO CONDENA

A imprensa mundial vem dando ampla cobertura ao escândalo da arapongagem bolsonarista. O tradicional jornal britânico The Guardian publicou uma foto do ex-presidente brasileiro para ilustrar uma contundente matéria intitulada "Agência de espionagem do Brasil é acusada de monitorar ilegalmente inimigos de Bolsonaro". E destaca: "A agência de inteligência do Brasil foi ilegalmente utilizada como arma durante o governo de extrema direita de Bolsonaro para monitorar e assediar alguns dos mais importantes políticos, jornalistas, juízes e autoridades ambientais do país, alegou a Polícia Federal". 

A também britânica Reuters ressalta: "Agência de espionagem do Brasil tentou atrapalhar investigação do filho de Bolsonaro, dizem documentos judiciais". A matéria faz um resumo das investigações que pesam contra o ex-presidente e chama atenção para o fato de que o inquérito sobre a 'Abin paralela' pode representar mais um de seus reveses judiciais.  

A ABC News, dos Estados Unidos, reproduz matéria da Associated Press, que diz: "Agência de inteligência do Brasil sob Bolsonaro espionou judiciário e parlamentares". O mexicano La Jornada também destaca a arapongagem: "Nova operação por escândalo de espionagem durante o governo Bolsonaro", diz o título da reportagem.