05 de dezembro de 2020
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ENTREVISTA

Estado com menos mortes, MS não afrouxará isolamento social

Azambuja pede fim de excessos de 'todos os lados' e diz que não concederá reajuste a funcionalismo

Com 642 casos confirmados e 16 mortes, menor incidência entre todos os Estados do país na pandemia, Mato Grosso do Sul descarta afrouxar a política de isolamento social diante dos bons resultados. As aulas na rede escolar tiveram retorno adiado desta semana para 30 de junho e o funcionalismo ainda não tem data para voltar do regime de teletrabalho.

“A economia nós conseguimos recuperar. Vidas perdidas, não”, diz o governador Reinaldo Azambuja (PSDB). Dos 296 leitos de UTI disponíveis para o tratamento da doença, oito estão ocupados. Um hospital de campanha ficou pronto, mas não teve necessidade de inauguração. Com a autoridade de quem ostenta esses indicadores, o tucano afirma que não é hora de flexibilizar protocolos e defende “unidade” no combate à covid-19.

Por unidade, ele entende que é preciso conter o “radicalismo” e que “chega de apontar o certo e o errado”, em referência ao presidente Jair Bolsonaro, mas também a outros governadores. “Meu finado pai ensinava: vamos desarmar os espíritos”, disse o governador, que está no segundo mandato, em entrevista telefônica ao Valor.

Valor: Mato Grosso do Sul tem o menor número de casos e de mortes no país. A que o sr. atribui isso?

Reinaldo Azambuja: O mais importante foi termos montado um centro de operações em 31 de janeiro. Conseguimos frear muito a disseminação do vírus por causa do isolamento desde março. Antevíamos o risco de um problema grande e colocamos várias secretarias para trabalhar em conjunto na questão sanitária. Ampliamos em 43% a disponibilidade de UTIs, implantamos teletrabalho no funcionalismo, suspendemos aulas presenciais, criamos uma plataforma digital para oferecer 70 serviços aos cidadãos. Também instalamos 17 barreiras sanitárias nas divisas do Estado e fechamos fronteiras com Bolívia e Paraguai, além da suspensão de visitas aos presídios.

Valor: Como estão os indicadores de ocupação das UTIs?

Azambuja: Estamos com 613 casos confirmados - há 25 pessoas internadas - e 16 óbitos. Temos 296 leitos de UTI disponíveis na rede pública e na rede privada que contratamos. Desses, oito estão ocupados hoje. Ainda é uma situação relativamente confortável, mas com trajetória ascendente. Há um total de 800 leitos clínicos. Temos um hospital de campanha pronto em Campo Grande, ao lado do hospital regional de referência, mas só vamos colocá-lo em funcionamento quando atingirmos 70% de ocupação.

Valor: O sr. considera a situação sob controle no Estado?

Azambuja: Mato Grosso do Sul tem uma extensão territorial ampla e densidade demográfica baixa, com exceção de Campo Grande. Há cidades do interior que nos preocupam hoje mais do que a capital. Em Guia Lopes da Laguna, tivemos o maior volume de contaminados devido à contaminação em um frigorífico local. De uma população de 10 mil habitantes, 92 foram infectados. Muitos se contaminaram compartilhando tereré [espécie de chimarrão gelado típico da região]. Agora há “lockdown” e um controle muito restrito. Não proibimos atividades produtivas. Conseguimos montar protocolos de segurança no setor industrial e na agroindústria. Houve diminuição, mas não paralisia.

Valor: Com esses resultados, não seria viável afrouxar o isolamento?

Azambuja: Hoje mesmo [segunda-feira] tive reunião com o centro de operações especiais e nossa posição é de redobrar a cautela. A volta às aulas estava prevista para 18 de maio e acabamos de prorrogar para 30 de junho. Vamos manter a vigilância e o isolamento, especialmente por causa dos idosos. Se olharmos o mapa de óbitos em Mato Grosso do Sul, só temos duas pessoas abaixo de 60 anos - ambas com doenças pré-existentes.

Valor: Então não seria o caso de adotar um isolamento vertical?

Azambuja: Não é o caso de afrouxar os protocolos. Temos bons resultados. Ainda há lugares com crescimento exponencial [de casos]. Agora é hora de manter a vigilância e o isolamento.

Valor: Não é prolongar desnecessariamente o dano à economia?

Azambuja: O impacto para a economia é no mundo todo. Nenhum setor está saindo ileso. Talvez o agronegócio, com a alta do dólar e a busca por proteína, devido ao bom desempenho exportador. A economia nós conseguimos recuperar. Vidas perdidas, não. Meu foco é na saúde das pessoas.

Valor: Qual é o impacto fiscal da pandemia no Estado?

Azambuja: Vivemos à base de ICMS, que corresponde a 90% das receitas, com transferências muito pequenas do FPE (Fundo de Participação dos Estados). Restringimos contratos, diárias, progressões no funcionalismo para segurar a despesa. Em maio, devemos perder mais de R$ 100 milhões na comparação igual período do ano passado. Para 2020, no decreto de calamidade, projetamos R$ 900 milhões em perda de arrecadação.

Valor: O pacote do governo federal para socorrer Estados previa congelamento dos salários de servidores até o fim de 2021, mas o Congresso incluiu várias categorias como exceções. O presidente deve vetar isso, como pede Paulo Guedes?

Azambuja: É impossível, em um momento de todos darem sua cota de sacrifício, fazermos qualquer tipo de reajuste. Independentemente da sanção ou veto do presidente. Na maioria dos Estados, a despesa com pessoal já chega a 70%, o teto da Lei de Responsabilidade Fiscal. É impraticável ampliar gasto com queda de receitas.

Valor: O sr. está disposto a bancar o desgaste, em termos de popularidade, de não dar reajustes salariais ao funcionalismo, incluindo Polícia Militar e Bombeiros?

Azambuja: Não é questão de popularidade, é uma questão de consciência. Não tem outro jeito.

Valor: Como tem avaliado a atuação do presidente, que demite ministros e acirra conflitos políticos no meio do combate à pandemia?

Azambuja: É o momento de dialogar com todo mundo e buscar soluções comuns. Quanto menos conflito, mais assertividade nas ações de saúde. Se ficarmos na discussão sobre relaxar o isolamento, tem que isso ou tem que aquilo... Vamos seguir a orientação da ciência e nos pautarmos pelo pessoal de saúde. É preciso despolitizar. Tem excessos de todos os lados.

Valor: Isso inclui os governadores, incluindo João Doria, que aumentou as críticas a Bolsonaro?

Azambuja: Sou da teoria de que agora devemos ter unidade. Meu finado pai ensinava: vamos desarmar os espíritos. Não é hora de conflito. Chega de apontar o certo e o errado. Menos política e mais ação coordenada. Os Estados não têm capacidade de emitir moeda e precisam de apoio da União, que é quem pode aumentar o endividamento e socorrer o setor produtivo. O mais errado é antecipar o calendário eleitoral. Quando se estica demais a corda, acaba arrebentando e a população sai prejudicada.

Valor: Adianta um só lado pregar moderação? Todo domingo há manifestações radicais em Brasília, com participação do presidente...

Azambuja: Esse radicalismo só atrapalha. Não constrói nada. Temos mais de 16 mil mortos, uma curva ascendente, colapso chegando a entes federados. Precisamos de pacificação. Teremos uma videoconferência [quinta-feira] com o próprio Bolsonaro. Se andarmos numa pauta comum ao país, com Estados e municípios, vamos avançar juntos. Claro, isso depende de gesto do presidente.

Valor: O ex-ministro Mandetta, com a visibilidade que alcançou, poderia ter apoio do PSDB para sua sucessão no Mato Grosso do Sul?

Azambuja: Ele foi um bom secretário municipal em Campo Grande, um parceiro como deputado e ajudou na organização do nosso sistema de saúde como ministro. O DEM é um partido aliado na Assembleia e no governo. Tem o vice-governador, que é secretário de Infraestrutura, mas essa construção não passa só por mim. Política você faz com o grupo. O Mandetta dialoga bem com o nosso grupo.

Fonte: Valor Econômico