22 de junho de 2021
Campo Grande 28º 16º

Demora de Dilma deixa PT inquieto e às escuras

A- A+

Fechada em copas, ainda, a respeito dos nomes que pretende escalar para o ministério no seu segundo mandato, a presidente reeleita Dilma Rousseff (PT) começa a enfrentar um efeito colateral em sua estratégia de mistério e ganho de tempo. O PT, na expressão de senadores e deputados federais, está às escuras. Não há certeza sobre quem sai, quem fica, quem entra e quem vai sobrar. Essa indefinição tem pressionado o comando do partido a pedir mais pressa à presidente que, no entanto, já avisou que seria preciso esperar pela segunda quinzena de novembro.

A vaga mais importante, de ministro da Fazenda, permanece completamente aberta, o que paralisa a definição de praticamente todas as outras. O nome que Dilma escolher para o comando da economia vai definir o perfil de sua equipe, se mais ao centro ou com viés mais acentuado à esquerda, como preferem muitos setores petistas. O próprio ex-presidente Lula tem defendido junto a Dilma uma aceleração no processo de escolhas, mas, até agora, não tem tido sucesso nesse intento.

A presidente tem seus motivos para aguardar e não abrir opções. Ela está conversando com os partidos aliados, mas não obtém segurança ainda sobre quem vai compor e qual será o tamanho de sua base no Congresso. Além disso, Dilma sabe que até as águas do Lago Sul, em Brasília, não guardam segredos. Por isso reduziu ao máximo seu número de confidentes. O que se mostra positivo para ela, para o PT vai significando um limite de jornada no ambiente de mínima nitidez. Três semanas depois do resultado das eleições, a palavra que mais se escuta entre os petistas ainda é 'mistério'.

Não era bem isso o que o partido esperava. Os políticos que conseguiram se eleger ou reeleger vão cobrando, pelas bordas, definições da presidente para cargos estratégicos, como a presidência da Petrobras, o ministério das Cidades, a área de Comunicação, a chefia da Infraestrutura, todas com amplas verbas, além de postos de prestígio como a chancelaria, o ministério da Cultura e o Esporte. Para não falar no comando dos bancos públicos, BNDES, Banco do Brasil e Caixa, com amplas condições para alçar qualquer um a uma posição de força e popularidade.

O ponto alto das reclamações dos petistas se deu na quinta-feira 6, em São Paulo, diante do ex-presidente Lula. Entre os senadores do partido, nenhum trombou de frente com a estratégia de Dilma. Mas todos deixaram claro, ao mesmo tempo, que o tempo está correndo contra eles. A presidente avisou que pretende "ser mais Dilma" durante seu segundo mandato. O que se teme, no partido, é que isso signifique uma maior distância da agremiação sobre a administração.

Em entrevista a jornalistas da mídia impressa em Brasília, nesta quinta, Dilma foi levada a dar um passo atrás em relação à legenda.

- Eu não represento o PT. Eu represento a Presidência. A opinião do PT é a opinião do partido, não me influencia. Eu represento o país, não sou presidente do PT, sou presidente dos brasileiros, disse ela.

Naturalmente, Dilma não poderia ter dito nada diferente, o que não significa que o PT ficou feliz com a sinceridade da afirmação. O certo é que o partido está nesse momento com poucas informações de bastidores e começa a não gostar muito disso. As diferenças se intensificam sobre a chefia da Fazenda. Lula ouviu que o PT gostaria de ter o comando na pasta, no sentido de promover "identidade" entre gestão e partido. Trata-se de um dado complicado a mais, uma vez que Dilma só tem deixado transparecer que estuda nome que pouco tem a ver com a legenda, casos do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles e do ex-secretário-executivo da Fazenda Nelson Barbosa.

A julgar pela senha transmitida a Lula, o partido estaria defendendo, sem citar nome, a candidatura do ministro Aloizio Mercadante para a cobiçada posição. As aparências vão sendo mantidas: não há críticas públicas à estratégia de Dilma Rousseff. O presidente da legenda, Rui Falcão, tem preferido mais atuar na retaguarda do que sair em público manifestando qualquer posição de descontentamento. No bastidor, porém, cresce a dificuldade de os petistas entenderem as primeiras mensagens da presidente reeleita. Ela, por sua vez, está deixando para o final uma conversa mais pontual com o partido.

A presidente tem afirmado também que vai controlar custos e inflação, um discurso que assusta os petistas na medida em que isso pode provocar reflexos no aprofundamento das políticas sociais. Não está no DNA do partido a ortodoxia crônica que a presidente parece pregar. Ou seja, mais um elemento de indefinição e, portanto, de irritabilidade para a sigla. No Congresso, o quadro é bastante semelhante. Com receio da candidatura de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à presidência da Câmara, os deputados do PT apresentaram a iniciativa de apresentar seu próprio candidato, mas ainda não houve, por parte da presidente, qualquer manifestação de apoio sobre essa linha de confronto. Também ali, o diálogo Palácio do Planalto-comando partidário não voa em céu de brigadeiro.

Dilma teme ainda que esses nomes vêm a ser desgastados. Por isso, vem protegendo suas próprias bases ao ganhar tempo. Mas essas começam a ficar cada vez mais inquietas. O certo é que o que se passa pela cabeça da presidente neste momento só ela sabe. Lula, que conversou com ela durante seis horas, não convenceu sobre os pontos principais de nomear Meirelles ou Barbosa desde logo. Quanto mais sobre detalhe no preenchimento da grande máquina pública. Não há partido no mundo que não sofra um ataque de nervos em uma situação como essa. O PT até que está se comportando de maneira calma e organizada.

O fim de semana promete ser de muita reflexão e pouca informação.

Karla Machado com Brasil 247