25 de maio de 2024
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AÇÃO POPULAR

Alertando sobre ameaças ambientais, comunidade "abraça" Lagoa Itatiaia

Movimento espontâneo surgiu em decorrência de atividades e comportamentos que afetam cartão postal da cidade

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A pesca já deixou de ser considerada opção de lazer para ser vista como uma das ameaças à integridade e à sobrevivência da Lagoa Itatiaia. Este, que é um dos cartões postais de Campo Grande (MS), sofre com problemas naturais, como os períodos prolongados de estiagem, e principalmente pelo comportamento de gente que, conscientemente ou não, interfere de várias formas no equilíbrio eco ambiental do lago, situado no Bairro Tiradentes e ponto de encontro de quem mora numa das áreas populosas e que mais se expandem na cidade.

Para alertar as autoridades ambientais e conscientizar a população sobre a necessidade de proteger esse patrimônio natural único, a própria comunidade da região decidiu organizar um ato de simbolismo neste domingo (13.nov.22), às 14h: um "abraço" na lagoa, com os moradores de mãos dadas em seu entorno. Muita gente, até de outros bairros, cultiva há tempos o hábito de frequentar a Lagoa Itatiaia para atividades físicas e de saúde, como as caminhadas e corridas, lazer esportivo e cultural e até a pesca.

Contudo, são perceptíveis a falta de cuidados básicos e as marcas das agressões que o lago vem sofrendo. Há frequentadores que levam a família para passeios, com as crianças e os animais de estimação aproveitando o amplo espaço para brincar. Entretanto, nem todos levam saquinhos para recolher as fezes dos cães ou utilizam recipientes para despejo de lixo variado, de embalagens de papel e plástico a tocos de cigarro.

ATIVIDADE EXTRATIVA

Na pesca, uma atividade meramente extrativa e sem qualquer reposição, o estrago é ainda maior. Tem pescador que vai com familiares e amigos como se fossem pescar num rio. Montam guarda-sol e cadeiras nas margens, lançam linhadas de molinete ou carretilha e guardam em seus puçás as espécies capturadas. Alguns limpam a sujeira. No entanto, este não é o maior problema. O que faz a diferença, é desfavorável à natureza, é o esgotamento do estoque das espécies, que vivem e se reproduzem num espaço de água muito raso e pequeno. Por várias vezes se tentou proibir a pesca no lugar, mas nenhuma tentativa prosperou. A atividade é consentida e praticada à vista de qualquer fiscalização.

De acordo com o relatório de Batimetria feito em novembro de 2018 por uma equipe de técnicos do Laboratório Heros, da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia da Universidade Federal (UFMS), naquele mês o volume do lago era de 26.378 m³ e sua área de 6,02 hectares. A profundidade variou entre 0 e 1,67m. Fábio Veríssimo, um professor de Engenharia Ambiental da UFMS, explicou que a Lagoa Itatiaia é uma depressão natural do relevo abastecida por infiltração de água pluviométrica. Ou seja: é a água de chuva que mantém o manancial.

Já se foi o tempo em que pescar ali significava necessidade de garantir um alimento. Hoje é mais diversão e entretenimento, mas predatório. O lago concentra 221 diferentes espécies vegetais, das quais 65 nativas, entre plantas terrestres, semi aquáticas e aquáticas. A fauna inclui peixes — entre os quais o cará, a traíra, o lambari e até a tilápia, insetos, moluscos e aves. Além de sapos e rãs, já foram encontrados também jacarés, capivaras e sucuris.

Outras queixas dos moradores apontam a iluminação deficiente, a segurança — embora exista uma unidade da Guarda Civil Metropolitana — e o estacionamento irregular de veículos, que são deixados sobre o passeio público ou o gramado. A prefeitura mantém um serviço regular de limpeza, com serviços de capina e poda. Porém, não se consegue impedir o mau hábito de gente que não se importa em conservar uma área de seu próprio usufruto.

INTERVENÇÕES

Em agosto passado foi publicado no Diário Oficial o resultado da licitação para as obras de revitalização da lagoa, com recursos da Caixa Econômica e contrapartida do Município. Por R$ 1 milhão 259 mil 875,45 a empresa vencedora vai fazer obras e serviços como um calçamento com 62 mil metros quadrados de trilhas, academia ao ar livre para idosos, pista de caminhada, parquinho, espaços com palcos para apresentações artístico-culturais, decks para passeios, áreas de ginástica e jogos, além de banheiros e serviços de apoio, orientação e segurança aos visitantes.