25 de junho de 2021
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AL tenta manter escolha de Mesa Diretora sem as antigas emoções

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Já se foi o tempo em que eleição para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa era uma disputa de bastidores e de plenário, marcada por lances antológicos e episódios que entraram para a história da política de Mato Grosso do Sul, inclusive nos capítulos folclóricos. Nos últimos 25 anos, as chapas de consenso têm driblado qualquer expectativa de confronto aberto. E a tendência é que esse remédio seja mantido para a sucessão do atual presidente, Jerson Domingos (PMDB).

A fórmula da chapa única foi inaugurada com a instalação do Estado, quando a Casa – nos biênios de 1979-81 e 1981-83 – elegeu presidentes, pela ordem, Londres Machado e Valdomiro Gonçalves. A solução evitava o terreno acidentado de uma disputa que poderia, de alguma forma, deslustrar o nascimento da mais nova unidade federativa, já experimentando uma precoce e grave crise político-administrativa que derrubou dois governadores, Harry Amorim e Marcelo Miranda.

Rivalidades

As crises que atingiram o executivo acabaram desembocando no legislativo e aguçaram a rivalidade entre governistas e oposicionistas. Pedro Pedrossian, o terceiro governador nomeado, não abriu mão de “fazer” presidentes da Assembleia os deputados de seu grupo. O primeiro, Valdomiro Gonçalves, saiu de um consenso em 1981, quando o parlamento era constituído de 18 deputados. O segundo e o terceiro, Walter Carneiro (gestão de 1983-85) e Gandi Jamil (1985-86), ambos do extinto PDS (Partido Democrático Social), tiveram que enfrentar o plenário e disputar votos com outras chapas.

Nessas duas disputas entraram para a história fatos e versões, apimentados pela criativa imaginação de quem não acompanhou de perto tudo que aconteceu nos bastidores. Às vésperas de uma dessas eleições, o vale-tudo para garantir os votos incluía providências nada convencionais, como a de “sequestrar” os eleitores indecisos e escondê-los para não ser assediados pelos concorrentes.

Sumiço e sapatada

Conta-se que certa vez levaram um deputado, Arthur Jorge do Amaral, para uma chácara nos arredores da cidade e o deixaram incomunicável até o dia da votação em plenário. Alguém, para dar sua versão sobre o sumiço do parlamentar, espalhou que ele estava trancado num quarto do Motel Bodoquena. Foi o suficiente para que o deputado ganhasse o apelido com o nome da cidade e da serra, embora nunca ninguém tenha provado que aquele tenha sido seu paradeiro.

Em outra tumultuada e arrastada eleição da Mesa Diretora, contava-se como certo o voto do deputado Cecílio de Jesus Gaeta para o candidato de seu partido, o PMDB, Nelson Buainaim, que enfrentaria o candidato indicado pelo governador. Na época, Gaeta já era tratado como “adesista”, por causa de sua simpatia por Pedrossian, mesmo sendo do PMDB, partido de Oposição ao PDS. Quando os votos foram contados e Gaeta citou seu preferido, que não era o peemedebista Buainam, parte da platéia, formada por militantes do PMDB, reagiu com vaias, xingamentos e até um sapato foi atirado em direção ao polêmico parlamentar.

Depois disso, e sobretudo a partir do biênio 89-91, quando Londres Machado (PR) assumiu o comando da Mesa pela segunda vez, as disputas pelo voto em plenário foram deixadas de lado. Londres se reelegeu e ficou até 93, quando sua sucessão quase caiu no plano do confronto por causa do ensaio da formação de duas capas. Prevaleceu o entendimento e, em chapa única, Cícero de Souza conquistou o cargo. Desde então, este tipo de eleição vem sendo resolvido antes da decisão do plenário, onde os novos membros dirigentes são aclamados em chapa única, embora em processo de votação nominal.

Hoje, o deputado estadual Júnior Mochi, do PMDB, é considerado o pretendente de maior e melhor condição para suceder Jerson Domingos. Resta apenas saber até que ponto o governador eleito, Reinaldo Azambuja, do PSDB, está disposto a abrir mão da rotina tradicional que põe a vontade do chefe do Executivo como o fator de definição do processo. A eleição da Mesa Diretora, rezam os costumes, é de foro restrito e controle absoluto dos deputados e do Legislativo. Mas a conjuntura política, a sustentação administrativa e os interesses entrelaçados não permitem que o dono da principal caneta do Parque dos Poderes se contente em posar de mero espectador num processo dessa envergadura.

Edson Moraes