17 de junho de 2021
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Contra consenso, Semy surge como alternativa na disputa pela presidência do PTMS

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Depois de perder as eleições governamentais em 2014, o PT (Partido dos Trabalhadores) de Mato Grosso do Sul iniciou uma profunda discussão sobre a atual estrutura política e organizacional do partido que levaram a sigla à derrota. Nessa análise, surge como ponto fundamental a presidência do partido, que nos últimos nos tem sido comandada por candidatos escolhidos em consenso de líderes sem disputa interna, sem debates.

Coincidência ou não, o atual presidente do PT, prefeito de Corumbá Paulo Duarte, anunciou que sairá da presidência em fevereiro deste ano para cuidar dos dois últimos anos de seu mandato. Com isso, as correntes do PT e algumas lideranças começaram a articular um consenso e o deputado federal Antonio Carlos Biffi se colocou à disposição para assumir o cargo.

No entanto, líderes importantes como Zeca do PT, deputado federal eleito e ex-governador, já se posicionaram contra consenso e sim a favor da disputa para resgatar a presença da base, da militância do partido no PT, que está distante há muitos anos. Assim como Zeca, o ex-deputado estadual, ex-presidente da Sanesul, ex-secretário de obras de Campo Grande Semy Ferraz também é contra consenso e acredita que o PT precisa voltar a dialogar com a base do partido e se reorganizar para ter bom resultado nas eleições municipais de 2016.

"Acho que primeiro não pode ter conchavo, pois ele joga pro segundo momento a disputa interna. Conchavo não ajuda a construir uma base forte, o que ajuda é debater, aprofundar uma tese e votá-la. Essas eleições de consenso são a pior coisa que tem. Até porque esses consenso nas últimas eleições foram fabricados e não construídos com base do partido. A militância não foi chamada para isso, e a base do PT tem que ser ouvida", avalia Semy.

Semy atua no PT desde tempos do movimento Pró-PT e participou da fundação do PT Nacional assinando a carta de fundação no Colégio Sion em 1980 em São Paulo.

Depois já em Campo Grande, Semy sempre atuou no PT e cumpriu mandato rigorosamente petista quando foi deputado estadual. Por isso, Semy atraiu para si, inclusive, ira do governo, devido às constantes denúncias que fazia e por defender os interesses das classes sociais deixadas de lado pelas gestões, como índios, pequenos produtores, assentados.

Para o petista, a ideia de colocar seu nome à disposição para disputar a presidência do PT surgiu como uma necessidade. Depois de ser procurado por diversas lideranças do partido, que lhe fizeram esse pleito, Semy, que também concorda com necessidade da disputa, decidiu se pôr à disposição. Para ele, o PT tem cometido erros sucessivos desde final de 2006 quando não estruturou projeto forte de manutenção do PT no poder e depois na disputa quando se dividiu e permitiu que o então candidato André Puccinelli (PMDB) vencesse as eleições.

"O PT se dividiu em 2006  e isso ajudou André a virar governador. Em 2010, o Zeca foi um grande vencedor com todas dificuldades, ele teve 43% dos votos válidos. Contra tudo e contra todos. 2014 é fruto desses erros sucessivos de todos do PT, pois não podemos culpar a, b ou c. O PT leva a derrota em função desses erros."

Semy avalia que a presença de diversas correntes dentro do PT é importante para manter o debate de ideias e a representação de diversos interesses em pauta, mas pondera que os interesses de correntes ou de algumas lideranças não podem se sobrepor ao interesse coletivo fruto dos anseios da base do partido. "Correntes são importantes. O pior problema é o conchavo das correntes. Corrente não pode virar partido dentro do partido, e isso foi o que aconteceu e prejudicou muito na campanha do Delcídio por exemplo."

Assim como Zeca, Semy acredita que o PT precisa retomar no Estado sua condição de oposição, de defesa dos interesses sociais, de agente combativo. "Para mim o primeiro erro da campanha do PT para governo foi não se colocar como oposição ao André. A população queria mudança. Tínhamos que ter denunciado as mazelas do Estado. Os problemas na saúde, falta de hospitais, problemas enfrentados pelo pequeno produtor. E isso não aconteceu.

Semy acredita que o PT precisa retomar seu projeto político, que é divergente da maioria dos partidos e é em defesa da população que mais precisa. "Nosso projeto sempre foi esse, sabemos que temos de governar para todos, mas temos que defender os interesses dos que mais precisam. Esse é o PT".

Sem interesse em assumir cargo federal ou se candidatar a alguma cargo político nas próximas eleições, Semy se coloca à disposição para quem sabe assumir presidência do PT e promover o reencontro do partido com sua base para unificá-lo em torno do projeto político de um grupo e não de alguns líderes.  "Acho que o PT precisa voltar a ser um partido forte. Nos últimos anos, ele tem sido fraco, submisso a interesses pessoais. Precisamos construir um partido forte. Sabendo das divergências internas, respeitando as correntes, focando num projeto estratégico que passa pela disputa municipal de 2016."

Outro ponto considerado falho por Semy é a desunião do partido que nos últimos anos enfraqueceu o PT no interior. "O PT precisa se fortalecer nas dez maiores cidades do Estado. Em Corumbá, nas eleições municipais, tivemos convergência, ganhamos. Em Três Lagoas, Dourados, por exemplo, tivemos divergências perdemos. Isso tem que mudar", explica.

O petista avalia que no caso das disputas municipais é fundamental ter o parido unificado em torno de um projeto amplo para eleger prefeitos, primeiramente, e vereadores. "E estratégico em 2016 elegermos prefeitos nas dez maiores cidades do Estado, o que o PT não focou nos últimos dez anos.  Nas últimas eleições municipais, o PT se deixou dominar pelos interesses das correntes e de líderes internos e não conseguiu construir uma unidade partidária, por isso perdemos em cidades importantes. Havia casos de correntes trabalhando para eleger seus vereadores, desfocadas da eleição dos prefeitos", explica.

Por fim, Semy acredita que o partido precisa também apostar em novas lideranças políticas nas próximas eleições. Semy cita como exemplo o presidente da Cassems, Ricardo Ayache, que foi candidato ao Senado pelo partido nas eleições 2014. "O Ayache por exemplo é um belo nome para disputar a prefeitura de Campo Grande, ele fez um trabalho muito bom na campanha mesmo com toda divisão do partido", finaliza.

Heloísa Lazarini