25 de junho de 2021
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Governo Dilma é derrotado na Câmara e MS deverá perder investimentos

A matemática é simples e irretorquível: para reverter a derrota que sofreu na Câmara Federal, o governo Dilma terá que comprar apoios a varejo, desviando seus parcos recursos

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A bancada de Mato Grosso do Sul tem apenas oito deputados, sendo que, supostamente, três votaram com a oposição e outros cinco mantiveram-se fiéis à determinação do Executivo. Assim, muito pouco da escassa verba deverá ser destinada ao Estado via emendas parlamentares. A conta é simples, ao menos 121 deputados que faltaram para permitir a maioria simples ao candidato imposto pelo Executivo ao Legislativo deverão ser “convencidos” a retornarem ao bloco do vou contigo. O Mato Grosso do Sul representa 1,56% dos parlamentares e, se contabilizados que três deles são efetivamente oposição e cinco são definitivamente da base governista, as verbas de convencimento não passarão pelas nossas terras.

Se o cobertor é curto para cobrir uma economia que caminhava capenga, supondo-se uma ilha de felicidade em meio à crise econômica mundial, alguns deputados mais conhecedores dos expedientes do poder aproveitaram a boa intenção dos que pretendem, ou entendem como necessária a independência dos Poderes, como reza nossa Constituição, para jogar o conhecido jogo da chantagem. Em época de farinha pouco, mais de uma centena deles preferiu beneficiar seu próprio pirão.

Explicando

O movimento desencadeado por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conquistou corações e bolsos dos deputados. São algumas de suas propostas: equiparação dos salários dos deputados com o de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF); garantia de pagamento de emendas parlamentares a deputados novatos (que tomaram posse no dia 1 de fevereiro. São 200 novos deputados que não seriam beneficiados com recursos para seus redutos eleitorais, uma vez que a apresentação das emendas encerrou em dezembro de 2014.); colocar imediatamente em pauta a votação da PEC do Orçamento Impositivo, que obriga de forma permanente o governo a pagar as emendas individuais dos deputados; viabilizar a cobertura das atividades dos deputados em seus estados pela TV e Rádio Câmara, veículos de comunicação pagos com o orçamento da Casa.

Se as medidas econômicas do segundo governo de Dilma Rousseff, conforme anunciadas pelo seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, demonstravam um aperto financeiro que assustou e colocou em risco a farra das emendas parlamentares, a campanha de Eduardo Cunha lhes apresentava um caminho para o céu.

Mas, afinal, quem é Eduardo Cunha?

Eduardo Cosentino da Cunha é carioca, formado em economia. Estreou na política no PDS e, em 1989, foi tesoureiro do comitê de campanha de Fernando Collor no Rio de Janeiro, atuando junto com PC Farias. Assumiu a presidência da Telerj no Rio durante o governo Collor. Foi réu no processo de investigação de PC Farias, tornou-se operador da Bolsa de Valores e prestou consultoria a empresas. Aproximou-se do então governador Anthony Garotinho em 1999, conquistando apoio evangélico para a carreira política. Operou como lobista das teles e atuou contra o Marco Civil da Internet. Filiado a diversos partidos em sua trajetória política, se estabeleceu no PMDB em 2003 e, em dez anos depois se tornou líder do partido, como demonstrou em seu blog o jornalista e economista Pedro Zambarda de Araújo.

MS penalizado

Se havia risco na relação republicana entre o governo petista de Dilma Rousseff e o governo de Mato Grosso do Sul, comandado por Reinaldo Azambuja (PSDB) que conquistou o governo após derrotar dois candidatos representantes da base aliada (o senador Delcídio do Amaral, do PT, e o ex-prefeito de Campo Grande, Nelsinho Trad, do PMDB), a partir da derrota sofrida na Câmara, que vai exigir uma reengenharia político-econômica na relação com a base aliada, os parcos recursos em caixa, conforme anunciado pelo ministro da Fazenda, teoricamente serão utilizados mais para o convencimento dos desgarrados do blocão pró Dilma, do que para contemplar as necessidades de um Estado necessitado de socorrer sua infraestrutura quase inexistente.

Ainda que se contemple os cinco deputados fiéis escudeiros sul-mato-grossenses, isso representa apenas 1% dos restos de caixa que serão destinados à Câmara Federal. Quase nada, se levarmos em conta que as propostas de Eduardo Cunha, se colocadas em prática, significarão aumento de gastos.

E pode ficar pior para Mato Grosso do Sul, caso a proposta de equiparação de salários entre deputados e ministros do STF se concretizar. Isso vai significar um efeito em cascata que eleva os salários também dos deputados estaduais e, na esteira, dos vereadores. É esperar para ver.