25 de setembro de 2021
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Ignorando efeitos do 'kit covid', vice-prefeito compra 120 mil comprimidos de ivermectina em MS

Uso do chamado kit covid, que reúne a ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia contra a doença, continua sendo prescrito por alguns médicos e propagandeado por Jair Bolsonaro

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O vice-Prefeito Réus Antônio Sabedotti Fornari (DEM), disse em coletiva na Câmara Municipal ontem (25.mar), que já na segunda-feira (29.mar), a Prefeitura Municipal de Rio Verde (MS), irá distribuir 120 mil comprimidos de invermectina para a população, dizendo se tratar da prevenção da Covid-19. A iniciativa do político ocorre em um momento que denúncias levam a crer que o vermífugo tem na verdade causado hepatite entre efeitos destrutivos à órgãos dos pacientes. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os remédios como ivermectina e a cloroquina, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro ((sem-partido), não possuem nenhuma eficácia contra o coironavírus.   

Para justificar a compra da grande quantia de comprimidos de ivermectina, Réus levou à coletiva o Clínico Geral Luiz Eugênio Engleitner – porém, ao defender a distribuição o médico citou uma informação falsa, dizendo que devido ao comprimido ser ministrado no continente africano lá, os casos são menores. “Olha, a minha experiência como clínico, e vários clínicos do país inteiro é de que o tratamento preventivo funciona... é que nem a gente tenta explicar, porque que na África o número de casos é bem mais baixo, lá eles usam ivermectina pelo menos duas vezes por ano para quase toda a população é, é... para tratamento de uma patologia que agora me fugiu o nome. Mas assim, possivelmente isso é o que ajuda a reduzir o número de casos e reduzir o número de casos graves”, disse. 

Em atualização nesta sexta-feira (26.mar), a Costa do Marfim relatou nesta semana seu maior número de novas infecções por Covid-19 desde o início da pandemia: 750. Ocorreram 42.074 infecções e 229 mortes relacionadas ao coronavírus registradas no país desde o início da pandemia. A grande ferramenta usada pelos países do continente não foi ivermectina como aponta o médico e sim a adoção sistemática do isolamento social.

Ainda assim, os principais países da África, são duramente afetados pelo vírus, como em Etiópia, que em última atualização hoje (às 12h50 – de 26.mar) apresentou 1.807 novas infecções relatadas. Isso é 99% do pico — a maior média diária relatada desde 23 de março. Já ocorreram 194.524 infecções e 2.741 mortes relacionadas ao coronavírus registradas no país desde o início da pandemia.

A África do Sul relatou 1.085 novas infecções dia, 6% do pico — a maior média diária relatada foi relatada em 10 de janeiro. Ocorreram 1.541.563 infecções e 52.535 mortes relacionadas ao coronavírus registradas no país desde o início da pandemia.

Segundo o médico rio-verdense, todos os seus funcionários e seus parentes foram submetidos ao uso do que ele classificou como “quimioprofilaxia”. “É uma iniciativa que era já para ter sido feito”, defendeu. 

Perguntado se vale a pena arriscar com uso do medicamentem o médico foi incisivo. “Ah, com certeza! A gente está tentando ajudar... estamos tentando diminuir o número de casos, várias cidades do Brasil estão fazendo isso e os resultados são muitos bons”, finalizou. 

O uso do chamado kit covid, que reúne a ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia contra a doença, continua sendo prescrito por alguns médicos e propagandeado por Jair Bolsonaro.

De acordo com o Estadão, o medicamente é apontado como prejudicial e levou cinco pacientes à fila do transplante de fígado em São Paulo e está sendo apontado como causa de ao menos três mortes por hepatite causada por remédios. 

A principal preocupação pelo uso da droga é que ela pode não ter efeitos negativos em 80% da população, mas de 15% a 20% vão desenvolver efeitos colaterais ao medicamento e podem prejudicar o tratamento no hospital e contribuir para a morte de pacientes. “Hoje pela tarde a gente fez uma reunião e vamos concluir uma programação para que a gente possa atingir o maior número de pessoas em menor tempo possível”, disse o vice.

Réus explicou ainda que cada posto de saúde vai ter um médico que irá distribuir gratuitamente e que não será obrigatório. “O grande objetivo disso tem sido comprovado não só no Brasil, como no mundo inteiro, que a ivermectina diminuiu a gravidade do vírus, é isso que nós estamos acreditando, e é isso que vamos fazer”, finalizou o vice. 

O Prefeito Municipal de Rio Verde, é José de Oliveira Santos (MDB), mas desde a posse em 1º de janeiro de 2021, a população de Rio Verde assiste o vice-prefeito mandando em tudo. 

O secretário de Saúde de Rio Verde de MT, Roberto Martins, também esteve na coletiva e disse que o município já vinha comprando o vermífugo de forma regular, mas turbinou o estoque com agravamento de casos, já que a Ivermectina estava sendo ministrada a pacientes de covid-19, principalmente na fase aguda, já em internação.

No mês passado a farmacêutica Merck Sharp & Dohme, responsável pela fabricação da ivermectina, afirmou que não existem evidências sobre a eficácia do medicamento contra a doença e que não há nenhuma base científica que aponte efeitos positivos em pacientes.