19 de junho de 2024
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DEZ ANOS DEPOIS...

"Lava Jato foi projeto político de poder", diz o renomado criminalista Kakay

Kakay disse que Sérgio Moro usou o judiciário para obter ganhos políticos e viabilizou a instalação do fascismo no Brasil

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A Comissão de Fiscalização Financeira e Controle (CFFC) da Câmara dos Deputados realizou nesta 3ª.feira (21.mai.24), uma audiência pública para debater os dez anos desde a deflagração da Operação Lava Jato. Com objetivo de promover um diálogo que permita compreender os resultados da investigação, a sessão contou com a presença do criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay e do ex-procurador e ex-deputado federal cassado Deltan Dallagnol.

A operação conviveu com críticas de ilegalidades processuais nas conduções coercitivas e nas colaborações premiadas. Em 2019, o jornal digital Intercept divulgou uma série de conversas via Telegram entre o chefe da força tarefa do Ministério Público responsável pelas investigações, Deltan Dallagnol, e o juiz Sérgio Moro, que julgava o caso. Advogado que atuou na defesa de vários acusados, Antônio Carlos de Almeida Castro lembrou desse episódio, conhecido como “vaza jato”, para acusar a Operação Lava Jato de instrumentalizar o Judiciário e manter pessoas presas para forçar delação. 

"Ele [Moro] foi o responsável, inclusive, pela instalação do fascismo no Brasil. Ele foi o grande cabo eleitoral de Bolsonaro, ao prender o Lula, que era o único à frente de Bolsonaro nas pesquisas naquele momento, manteve o Lula preso 580 dias e, depois, aceitou, ainda com a toga nos ombros, ser Ministro da Justiça daquele que ele tinha conseguido eleger. Isso é um escândalo, um escárnio", opinou Kakay.

Na ocasião, Kakay que também é advogado, tendo atuado na defesa das empreiteiras Andrade Gutierrez, Odebrecht e de mais de 20 investigados pela Lava Jato, disse que a operação foi um “projeto de poder” comandado pelo ex-juiz e atual senador Sérgio Moro (União-PR), com apoio dos “seus procuradores adestrados”. "A operação Lava Jato foi um projeto de poder, nada mais do que isso. Claro que houve corrupção e é importante que se faça o enfrentamento, mas ninguém pode combater a corrupção fazendo corrupção. Ninguém pode enfrentar a corrupção rasgando a Constituição da República", declarou o renomado jurista.

Kakay classificou a operação como o maior escândalo judicial da nossa história. "Por que o caso do sítio de São Paulo foi julgado em Curitiba? Por uma questão política. Por que o triplex do Lula foi julgado em Curitiba? Por uma questão política. Aquilo que interessava ao senhor Sérgio Moro e aos seus procuradores adestrados, eles levavam para lá".

O advogado afirmou que os presos pela Lava Jato foram detidos injustamente, devido a uma perseguição política. "A Lava Jato nada mais foi que um projeto político de poder, coordenado por um juiz que comandava procuradores da República e que, juntos, instrumentalizaram o Poder Judiciário, o Ministério Público", reforçou.

Por outro lado, o bolsonarista e extremista de direita Deltan Dallagnol defendeu o Operação Lava Jato - extinta por Jair Bolsonaro -  dizendo que a mesma não foi um instrumento político. Deltan chegou a comparar, delirantemente, a Lava Jato com as prisões flagranciais do 8 de Janeiro. Para isso, atacou as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), em especial do ministro Alexandre de Moraes. "A Lava Jato, ao contrário do que acontece no STF, os processos todos eram recheados de provas, bilhões de reais foram devolvidos, as condenações eram mantidas em sucessivos recursos e diversas instâncias, quando no Supremo a gente tem acusações do 8 de Janeiro sem individualização de conduta, sem individualização de provas. No caso das prisões preventivas, na Lava Jato não teve uma prisão que tenha passado de 35 dias sem uma acusação formal, enquanto nós vimos várias agora no STF que foram presos por meses sem uma acusação formalizada”, argumentou Dallagnol.

Deltan esqueceu-se de mencionar que os bilhões movimentados pela Lava Jato iriam para uma conta criada por um grupo especial de procuradores, como mostramos aqui.  

O ex-procurador rebateu diretamente as acusações feitas por Kakay. Dallagnol se disse “muito surpreso” com as alegações de instrumentalização da Justiça e disse que o advogado atua na defesa de “corruptos de estimação” da esquerda. “Nós vemos hoje uma advocacia que acaba silenciando, fechando os olhos para as traves que existem em seus próprios olhos, que existem nas decisões dos processos que tramitam no Supremo. Uma conivência, muitas vezes, ligada a interesses a processos que tramitam no Supremo, a uma subserviência ao poder ou mesmo a uma predileção por corruptos da esquerda”, continuou o extremista de direita. 

Professor de Estudos Brasileiros da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, Fábio de Sá e Silva apresentou o estudo “Lava Jato: Direito e Democracia”, no qual avaliou as postagens de líderes da operação nas redes sociais entre 2017 e 2019. Fábio reforçou as críticas a Dallagnol e à Lava Jato.

“Quem liderava o engajamento na internet era justamente o ex-chefe da força tarefa. E aí eu achei duas coisas: primeiro, um processo de glorificação e autoglorificação; e o segundo, um chamado à sociedade para participar da luta contra a corrupção, mas que, com o passar do tempo, se converte em uma plataforma para ataque às próprias instituições e que culmina nos ataques de 8 de janeiro”, concluiu o professor.

FONTE: CÂMARA DOS DEPUTADOS