01 de outubro de 2020
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HÁ 10 ANOS

Revista britânica questiona: "Brasil 'decolava'; o que aconteceu desde então?"

Em 2009 revista The Economist previa um Brasil com economia potente e em crescimento

De economia promissora à economia em colapso. Matéria relembrada pelo G1 nessa manhã, trata o destaque econômico ocupado pelo Brasil há pouco mais de 10 anos atrás, época em que ganhou espaço no “The Economist”, revista britânica que previa um país com economia potente e em crescimento. 

Falando de modo aéreo, são dois páreos, em 2009 a revista noticiou “Brasil decola”, um pouquinho depois a palavra “promissora” foi substituída pelas palavras “estragou tudo” em 2013, e “traição” em 2016.

No final dos anos 2000, até meados da década seguinte, foram os anos dourados da economia brasileira. Os indicadores econômicos registravam sucessivos resultados positivos. No entanto, logo após a divisão ‘extrema-direita e extrema-esquerda’, o Brasil começou a perder, acumulando uma sequência de recordes negativos.

Segundo o professor macroeconomista, Gino Olivares, em resposta ao G1, disse que a mesma política que salvou o Brasil na crise mundial de 2009, levou-o para o colapso nos anos seguintes. “Como havia coisas que tinham sido bem-feitas, quando veio a crise mundial em 2009 o Brasil se saiu bem. E por quê? Porque conseguiu responder baixando os juros e afrouxando a política fiscal. Só que isso passou a ser um estímulo permanente, com políticas monetárias e fiscais expansionistas além do que era necessário”, explicou o professor. 

Se, em 2009, o Brasil conseguiu convencer o mundo do que era capaz de enfrentar uma recessão internacional “sofrendo pouco” (algo inédito), nos anos seguintes o que se revelou foi que “a política de estímulos que funcionou no auge da crise deveria ter sido descontinuada a partir do momento em que a economia começou a se recuperar (algo que não aconteceu) ”, afirmou Armando Castelar,  coordenador da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Ainda conforme a reportagem, assinada pelas jornalistas Karina Trevizan e Luísa Melo, do G1, a capa da revista “The Economist” de 2009, amparava a imagem de um Cristo Redentor em um foguete, em alusão ao crescimento, a montagem com a referência da imagem símbolo do Brasil no mundo. Com o título “Brazil Takes Off” (“O Brasil Decola”, em tradução livre), o artigo destacava que o país como “a maior história de sucesso da América Latina”, apontando ainda que o crescimento estava em vias de aumentar seu ritmo. “Em resumo, o Brasil de repente parece ter feito uma entrada no palco mundial”, lembrou o G1. 

A situação a qual mais preocupa o lugar em que o Brasil está agora, se deve em sua aliança com o principal afetado àquela época, os Estados Unidos das Américas, isso porquê até mesmo a frente dos americanos o Brasil estava, o que não foi visto com bons olhos pelos chamados “líderes da economia mundial”. 

Os dados disponibilizados pelo Banco Mundial, mostram um Produto Interno Bruto (PIB), brasileiro, com recuo de 0,1%, isso é, quase intacto pela crise que assolava os restos dos países do planeta. Naquele ano, o recuo nos EUA foi de -2,7%, e em países do Euro, o recuo foi de -4,5%. Nos anos de 2010 e 2011 o PIB brasileiro cresceu, a frente das comparações anteriores.

Alimentos, petróleo e minério eram os fatores de crescimento apontados pela revista naquele ano. Além de estímulo ao consumo interno e políticas sociais de erradicação da pobreza, esses foram as principais ações políticas que alancaram o crescimento. “Quando se trata de política social inteligente e de aumentar o consumo em casa, o mundo em desenvolvimento tem muito mais a aprender do Brasil do que da China”, dizia o texto da “The Economist”.

Logo após a eclosão da crise internacional, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a declaração que seria lembrada pelos anos seguintes: “Lá (nos EUA), ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar”.

Mas a “The Economist”, assim como analistas, já dizia à época que as políticas que visavam ao crescimento poderiam ter como efeito a fragilização das contas públicas. Naquele ano, as desonerações tributárias foram responsáveis por uma parcela significativa, de 49%, da queda na arrecadação dos principais tributos federais no primeiro semestre de 2009, de acordo com um relatório publicado naquele ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Quatro anos depois da publicação do Cristo Redentor “decolando”, a “The Economist” voltaria a comparar o Brasil com um foguete, mas dessa vez, em queda. O título questionava: “Has Brazil blown it?” (“O Brasil estragou tudo? ”).

O texto veio em meio a uma desaceleração do crescimento econômico logo após o pico de crescimento em 2010. No artigo, a revista apontava que, desde a publicação do artigo de 2009, o país havia “voltado à terra com um solavanco”.

Uma das explicações para o desaquecimento é que outras economias emergentes também desaceleraram. No entanto, o tombo do Brasil foi maior, segundo dados do Banco Mundial.

Redução do crescimento de 2010 a 2012 (pontos percentuais):

China: 2,8
Índia: 4,8
Rússia: 1
África do Sul: 1
Brasil: 5,6

Segundo disse a revista à época, o Brasil fez “muito pouco para reformar seu governo nos anos de boom”. Além disso, pressionou pela redução da taxa de juros nos anos anteriores, o que fez com que a inflação passasse a registrar altos patamares. Como resultado, a taxa de juros passou a subir a níveis considerados elevados. O governo ainda ampliou a oferta de crédito público subsidiado.

“O governo decidiu continuar com essas políticas (adotadas antes para conter a crise de 2008) já visando a eleição. Dali por diante, houve uma série de erros primários, grosseiros, rudimentares, que conseguiram aprofundar o problema ainda mais”, apontou Olivares, em referência à política econômica do governo Dilma Rousseff.

“Primeiro, a decisão de baixar os juros na marra, inclusive com a inflação subindo. Aí então se decide fazer coisas como segurar a inflação pelo preço dos combustíveis”, citou o professor. “Era uma questão de tempo para uma grande crise aparecer. ”

“2010 era ano de eleições e o governo colocou o pé no acelerador mais do que devia. Olhando para o retrovisor, agora a gente vê isso”, complementa Castelar, do Ibre/FGV.

A CAPA DA ‘TRAIÇÃO’

Em 2016, a “The Economist” publicou nova montagem, desta vez com o Cristo Redentor segurando uma placa com a inscrição “SOS”, acompanhada ainda do título “The Betrayal of Brazil” (“a traição do Brasil”). O texto apontou que o país estava enfrentando uma das maiores recessões econômicas de sua história, destacando a crise política como pano de fundo.

O momento era também de forte contração do PIB, iniciada no segundo trimestre de 2014. E outros indicadores apontavam que o Brasil passava por um contexto de forte fragilidade econômica. Por exemplo:

Entre 2015 e 2016, a taxa de desemprego se sustentou no maior patamar desde 2012, quando começa a série histórica do indicador pelo IBGE – situação que permaneceria a mesma na entrada do ano seguinte.
A taxa de inflação fechou 2015 no maior patamar em 13 anos, e iniciou 2016 ainda em patamares elevados.
A taxa de juros estava em seu maior nível em cerca de 10 anos, com a Selic em 14,25% ao ano.

*Com informações do G1.