13 de junho de 2021
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Suspeitas de corrupção e estelionato assombram prefeito Gilmar Olarte

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O máximo de boa vontade do prefeito Gilmar Olarte (PP) não tem sido suficiente para capitalizar da população a segurança compatível com a expectativa que foi criada desde a traumática defenestração de Alcides Bernal. Na quinta-feira, 13, completaram-se oito meses de mandato, um período no qual o vice-prefeito sobra em manifestações de fé cristã, mas não consegue dar à sua gestão a vestimenta de confiança exigida para uma cidade que daqui a 10 ou 15 anos contabilizará seu primeiro milhão de moradores.
Indiscutivelmente, Olarte soube revestir-se de uma aura de confiabilidade ao assumir a Prefeitura embandeirado pelo perfil inatacável do ativismo de um pastor cristão. Mas não conseguiu livrar-se do primeiro e mais incisivo questionamento, aquele que não lhe permitirá dormir sossegado enquanto não for totalmente esclarecido pela Justiça dos homens: a suspeita sobre sua participação no processo que derrubou Bernal.
Frutos de uma quartelada ou consequências lógicas da inépcia gerencial, a cassação do titular eleito pelo povo e a entronização do vice estão sendo apurados em rumorosa investigação que, mesmo protegida por segredo da Justiça, acabou tendo suas motivações escancaradas. Nem mesmo este tipo de segredo dificultaria deduzir quais as causas que levariam o Gaeco a fazer sintomática varredura com mandados de busca, apreensão e detenção, tendo a residência de Olarte entre seus endereços e assessores do prefeito na relação das prisões ordenadas pelo Judiciário.
Como se sabe, o Gaeco é a força-tarefa com integrantes da Polícia, Judiciário e Ministério Público constituída especificamente para atuar contra o crime organizado. A cassação de Bernal estaria nesse arco das atribuições investigativas. Conforme os autos – reforçados por escutas telefônicas, depoimentos e outros indícios igualmente fortes – a arregimentação de vereadores para legalizar a derrubada foi combinada mediante várias formas de compensação, tendo como moeda de troca o generoso ramal de favores nos dutos da máquina pública.
Este, na raiz, teria sido o primeiro grave tropeço do prefeito – por ironia, numa pedra que encontrou antes de tomar posse do cargo e prestar o tradicional juramento à Constituição. Não se pode negar que Olarte tenha demonstrado boas intenções e feito intervenções alentadoras. Sua esposa, Andréia, dona de singular simpatia e capacidade de articulação envolvente, abriu um capítulo diferenciado e contrastante com os demais setores da administração.
COMPROMISSOS - As perspectivas que a população abriu ao eleger Bernal e derrubar mais de 20 anos de hegemonia peemedebista foram assumidas por Olarte como compromisso de ponta. Precisaria comprovar seu tino gerencial e ousadia igual ou maior que a de seus antecessores, cujo prestígio foi conquistado graças a investimentos coerentes com o gigantismo da capital do Estado. Mas o sucessor de Bernal, por conta da herança de um ano de caos e das próprias limitações, não logrou mostrar até agora a que veio.
Com a ameaça de um novo processo de cassação, agora sobre seus ombros, Olarte vem multiplicando os itens de instabilidade em seu governo. Logo ao assumir enfrentou a insatisfação de vereadores e parceiros políticos que cobravam cargos e recompensas pela associação ao processo da cassação de Bernal. Teve que ceder e não descansou a caneta, segundo seus próprios assessores andam a revelar. Na Câmara, a Oposição afirma que a despesa com os milhares de contratados para cargos de comissão está travando a máquina.
SEIS POR MEIA DÚZIA - A falta de investimentos é inexplicada. Olarte demitiu um especialista – o engenheiro Semy Ferraz – da Secretaria de Infraestrutura e nomeou uma neófita na área, Kátia Castilho. O que já andava lentamente, empacou. E em lugar de providenciar uma solução forte, impactante, o prefeito resolve alçar a uma das mais emblemáticas pastas da Prefeitura outro neófito no assunto, Valtemir Brito. Chefe da Secretaria Municipal de Administração, o assessor de Olarte é conhecido como Caco, apelido que o identificou nos tempos em que vendia Bíblias e atuava nas empreitadas políticas, inclusive do PT.
É de supor o tamanho e a intensidade da reação de engenheiros, urbanistas, arquitetos e técnicos gabaritados da área aos critérios que guiam um prefeito para confiar a saúde urbana da cidade - com seus monstruosos desafios de trânsito, de mobilidade e de expansão imobiliária – a quem, certamente bem intencionado, mal irá além de distinguir uma régua de um compasso.
A greve dos professores gerou uma crise cujas proporções poderiam ter sido reduzidas ou mesmo esvaziadas. Faltou o exercício mais lógico e mais prosaico: o do diálogo. Olarte mandou intermediários quando a revolta da categoria chegou ao auge. Evitou o olho no olho. E ainda foi equivocadamente aconselhado a buscar apoio de sua base na Câmara para revogar o dispositivo legal que assegurava ao Grupo Magistério o direito de ser atendido com percentual de recomposição salarial compulsoriamente.
Campo Grande, com tudo isso, chega no final de 2014 com dois anos de atraso ou, quando menos, de paralisia administrativa. O imbróglio combina deslizes políticos e administrativos, com vãos éticos que precisam ser bem esclarecidos. A ponto de gerar na sociedade a mesma inquietação que a acometeu no final de 2013, quando se instalou de vez o contexto que apeou Alcides Bernal do poder, ato consumado em março deste ano.
ESPADA NA CABEÇA - Agora, é a vez de Gilmar Olarte encarar a sua realidade. A espada de Dâmocles sobre sua cabeça é tão afiada quanto a que decapitou o mandato de Bernal. Seu gume mais cortante hoje tem o número 02-2014, identificação do Procedimento Investigatório Criminal solicitado pela Procuradoria-Geral de Justiça.
O pedido já chegou ao Tribunal de Justiça (TJ-MS) e propõe o enquadramento de Olarte nos crimes de corrupção passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, estelionato, coação e ameaça à testemunhas, que implicam afastamento, perda do cargo e até prisão. Quem recebeu a demanda é o desembargador Ruy Celso Barbosa Florence, o mesmo que determinou o mandato de busca e apreensão na residência do progressista durante a operação do Gaeco.
Enquanto responde ao processo e tenta provar nenhuma participação nos fatos a ele atribuídos pelo Ministério Público, o prefeito precisa correr – e o tempo se esgota – para salvar o que pode na extensa planilha de deveres e obrigações não cumpridos. Dezembro chega e com ele os encargos duplicados da folha do funcionalismo, o ajuste das contas e a revitalização urbana, ainda que seja uma simples maquiagem. Retomar os grandes investimentos, nem pensar. A cidade parece voltar à aflição que parecia estar riscado do mapa: encontrar a esperança e tocá-la no dia-a-dia de seu desenvolvimento.