19 de maio de 2024
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MEMÓRIA | POLÍTICA

Vídeo: "Regime militar era de direita, sem vergonha, conservadora", diz Paulo Guedes

Guru econômico bolsonarista disse em entrevista que foi a esquerda que recuperou a democracia para o Brasil

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Antes de estar inebriado pelo bolsonarismo, o então economista Paulo Guedes membro do Instituto Millenium fez uma análise histórica da economia do Brasil e apresentou em 2013 quais deveriam ser os caminhos para o país vivenciar um futuro de crescimento.

Fundado pela economista Patrícia Carlos de Andrade, em 2005, com o nome de Instituto da Realidade Nacional, o Millenium foi oficialmente lançado em abril de 2006, durante o Fórum da Liberdade, em Porto Alegre.

Veja a análise de Guedes àquela altura sem estar influenciada ainda por alianças políticas de extrema-direita, sua atual condição como ministro da Economia bolsonarista: "O Brasil, exatamente como passou por um Regime Militar que era de direita. Então, você tem um Regime Militar de direita que estatiza o país inteiro e aí, depois, naturalmente, como uma resposta ao Regime Militar, que era de direita, todos os partidos políticos são de esquerda. Então, o Brasil tem Partido Social-Democrata, Partido Socialista Brasileiro, Partido Social Reformista, Partido Social Liberal, Partido Social, todos, só tem, só tem Socialista. O Brasil uma economia que no espectro político num existe Liberal Democracia, Democracia Cristã. O Brasil se tornou uma aliança de uma esquerda relativamente desequipada em matéria econômica e uma direita sem vergonha, conservadora, que captura o Estado em busca de privilégios para seus próprios setores. Então, em nome da governabilidade, uma esquerda que é popular, democraticamente realmente foi a esquerda que recuperou a democracia para o Brasil. Porque a direita apoiou o Regime Militar. Então, sumiram os partidos de direita, apagados na poeira da história exatamente por terem sido parceiros dos militares. Veio uma esquerda, mas curiosamente, o Regime Militar já fez o que teriam feito os governos de esquerda, porque o Regime Militar estatizou o Brasil inteiro como se fosse de esquerda. Aí a gente percebe que direita e esquerda são categorias do passado, são categorias totalmente superadas”, disse Guedes. Eis o vídeo:  

GUEDES MINISTRO

Passaram-se 9 anos desde a entrevista de Paulo Guedes ao Millenium. Em 2022, Ministro da Economia do Brasil, funcionário do candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) — político, que classifica Guedes como um dos “melhores economistas” do mundo. E acredita piamente que a "Economia" sobrevive sem uma gestão social eficiente. 

Todos os acertos de Guedes à frente da Economia nos 4 anos de governo Bolsonaro, foram ofuscados ou prejudicados justamente por Jair Bolsonaro. O atual mandatário atrapalha a Economia ao criar tensões políticas ideológicas com o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro destrói o pouquinho alcançado por Guedes quando ataca a lisura das eleições. Bolsonaro sepulta o trabalho de Guedes quando demonstra total desprezo pela preservação do meio ambiente e isola o Brasil. Numa era globalizada, essa medida está levando o país à ruína, não porque Guedes errou muito, mas sim porque o presidente não fez sua parte.  

Diante do incontrolável chefe, há dois anos Guedes, hoje com 73 anos, aderiu às narrativas bolsonaristas, na expectativa de que com isso, consiga tempo para deixar o governo de maneira menos prejudicial a sua história.  

Há dois anos Guedes entrou em rota de colisão com a economia mundial. O homem que em toda a sua vida usou, confiou e enriqueceu por meio de números, gráficos e pesquisas, chegou a contestar que existam 33 milhões de pessoas passando fome no país – essa afirmação foi feita em 21 de setembro de 2022, pouco mais de duas semanas antes do 1º turno. Ele sustentou isso durante um evento da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), em São Paulo. Para confrontar, Guedes não apresentou nenhum estudo que diz o contrário.  

O idoso Guedes virou mais um bolsonarista radical. Tanto é "mecânica" essa maneira de fazer política que, Bolsonaro, por sua vez, disse em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, em agosto deste ano, que não vê gente "pedindo pão" na porta da padaria, no Brasil. E, também na quarta-feira (21.set.22), em entrevista à emissora católica Rede Vida, Bolsonaro voltou ao tema. Ele disse que o número de pessoas que passam fome no Brasil é superestimado e que "tirar as pessoas da linha da pobreza é um trabalho gigantesco".

Apesar de negarem e tentar frear a realização de censos, a dupla não consegue esconder algumas medidas que fizeram ampliar a fome no país. Por exemplo, quando Bolsonaro vetou o reajuste nos valores repassados para a merenda escolar, que atende 40 milhões de crianças; quando reduziu em 90% as verbas do programa Farmácia Popular e Mais Médicos, das cisternas, e de tantas outras políticas públicas essenciais que deveriam complementar o Auxílio Brasil de R$ 600, que sozinho não é suficiente para a alimentação dos milhões que precisam. O valor do auxílio, com o preço alto dos alimentos, na maioria das capitais não dá para comprar sequer a cesta básica.

E vai piorar. Segundo o Banco Central do Brasil a Economia brasileira teve queda de 1,13% em agosto de 2022. A maior retração desde março do ano passado. De janeiro a agosto, o IBC-BR acumula 2,76%. O governo bolsonaro vinha alimentando nas redes uma "economia positiva", mas não é isso que os números mostram.  

Bolsonaro fez um 'acordão' com o Congresso e conseguiu derrubar os preços da gasolina quando já se aproximava do 1º turno, o mandatário acreditava que iria vencer o adversário Lula (PT) em 2 de outubro, entretanto, a decisão ficou para o próximo 30 de outubro, num duelo de 2º turno. E nesse meio tempo a gasolina voltou a subir, pois a medida adotada pela equipe econômica não se sustenta e resultará em um mega inflação no pós 2º turno. 

Ontem (17.out.22), a Agência Nacional de Petróleo (ANP), anunciou aumento do preço médio do litro da gasolina, que avançou para R$ 4,86 na semana de 9 a 15 de outubro, uma alta de 1,46% frente à semana anterior (R$ 4,79). De acordo com o novo levantamento da ANP, o valor máximo do combustível encontrado nos postos foi de R$ 7,35, voltando aos preços registrados há 3 meses. A tendência lógica é que esse preço tenha uma explosão, pois, o arranjo político feito pelos bolsonaristas deve se romper.