
Em ano de Copa do Mundo, sempre voltamos a acreditar que podemos recuperar a posição que um dia nos pertenceu. Contudo, a seleção anda meio em baixa, com uma perda do seu valor simbólico, não sabemos mais se o brasileiro deixou de torcer ou de se reconhecer na seleção.
Para começar, o uso da camisa da seleção brasileira nos últimos 13 anos (sobretudo após as manifestações de 2013) passou a possuir outro valor. Outrora, uma camisa que representa a paixão nacional, atualmente um posicionamento político.
É verdade que, após as últimas eleições presidenciais, houve uma relativa retomada do uso de símbolos nacionais, entre eles a camiseta da seleção brasileira. Mas não dá para negar que a associação direta a um tipo de posicionamento fez com que parte do público deixasse de usar ou até mesmo rejeitasse profundamente o uso. Do outro lado, aqueles que usam a camisa fora de dias de jogos, podem ser já confundidos e enquadrados como possuidores de certas opiniões políticas. A polarização dos últimos 10 anos no campo da política afetou até mesmo o futebol.
Nesse sentido, o valor simbólico do uso da camisa passa por uma transformação, na medida em que a perda do consenso do contrato social brasileiro também se mutabiliza.
E o que dizer da “estética brasileira”? Em aplicativos de fotos e catálogos online, a imagem do brasileiro padrão foi simbolizada por jovens com a camisa da seleção, chinela de dedo e shorts. Isso impactou diretamente o estilo dos turistas no país, que procuram a camisa (mesmo que não oficial) para ficarem no estilo brasileiro. Não é algo mais sobre futebol, é sobre identidade.
E o próprio brasileiro - sobretudo o que mora em cidades com fluxo intenso de turistas -, pode até mesmo ser confundido com um turista se ousar usar sua camisa (sobretudo os modelos retrô).
A camisa da seleção brasileira, portanto, passou a adquirir novos significados, para além do futebol, ao passo que o próprio jogo foi ficando de lado, uma vez que essa imagem de país do futebol, como se sabe, foi fruto de um relacionamento passado, não do presente.
De outro lado, estão os jogadores. Quantas pessoas saberiam dizer, sinceramente, quem são as principais apostas do Brasil hoje para a copa do mundo? Os jogadores do brasil encontram-se em profundo afastamento dos torcedores – e do país.
Além das causas mais óbvias, a ida muito precoce para a Europa, temos ainda que considerar, figurativamente, que os jogadores e torcedores não falam mais a mesma língua – os primeiros, profissão; os segundos paixão. A construção de ídolos é um problema que vale a pena explorar, mas aqui basta dizer que a profissionalização dos jogadores também os tornou mais impessoais.
Em um futebol de números e valores, os jogadores (ainda garotos) passam a treinar desde cedo para se tornarem profissionais, não jogadores de seu clube de paixão. Não há mais torcedores dentro das quatro linhas, e a mesma lógica foi expandida para a seleção. Além, é claro, da ida cedo para outro continente causar esse afastamento da seleção de seu país.
Dessa perspectiva, a seleção aparece como uma marca global: os turistas querem usar a blusa que a representa e os jogadores podem pôr no seu currículo que usaram a “amarelinha”, contudo, onde se encontra a paixão?
A seleção brasileira não parece mais como um time propriamente dito, mas como uma marca, onde tudo pode ser importado – vide o treinador atual. E “futebol moderno” precisa estar presente, com técnicas vindas da Europa, de jogadores criados na Europa.
A CBF, claramente perdida, adota esse tom tecnicista e matemático, buscando recuperar com os brasileiros uma relação de amor que ficou pra trás, e que pouco sabe o que fazer pelo distanciamento que os gerentes do futebol atuais têm da massa – acompanhando o futebol de escritórios, de paletós.
Do lado do povo, está caro enfeitar as ruas; os preços estão altos pra comprar bandeirinhas, e os que acreditam em uma mudança são tímidos. De maneira geral, o povo quer torcer, mas quer uma seleção de verdade, um time onde eles possam se reconhecer.








