19 de abril de 2021
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Memória

Do chumbo quente à era digital, a história do telejornalismo regional

Heraldo Pereira, Nelson Araújo, Rosana Zaidan, Rubens Volpe, Gilson Filho, Bosco Martins, Ilze Sacamparini, José Luiz Datena e José Roberto Burnier, entre outros. O que esses profissionais do jornalismo têm em comum?

Pelo menos 30 profissionais se reuniram para rememorar os áureos tempos do bom jornalismo local, entre eles, Arthur Barros, Antonio Carlos Almeida Campos, Marcos de Guide, Antonio Carlos Coelho,  Carlos Alberto Nonino, Carlos Alberto Paschuim, Wanda Alviano, Mariangela Gumerato, Flávio Guimerato, Stella Martins, Kiyoshi Chayamiti, Edson Soh, Miloca Nagle, Leonor Corrêa, Tereza Araújo e Mirtes Wiermann.

Todos fizeram parte da primeira equipe na estreia da segunda emissora de televisão do interior paulista afiliada da Rede Globo, a Empresa Paulista de  Televisão (EPTV).

“O jornalismo regional era um ovo de Colombo que José Bonifácio colocou de pé”, diz Rosana Zaidan editora da Rede Globo, ao lembrar dos desafios na época de criação da EPTV, período em que a Nova Televisão Brasileira enfrentava a escassez de profissionais para se expandir, sendo necessário o recrutamento de trabalhadores de várias áreas para montar as equipes de produção, reportagem e edição.

Os tempos de glória, mas de enormes desafios, foram rememorados em encontro dos profissionais que protagonizaram o telejornalismo regional e hoje estão espalhados pelo Brasil os principais veículos de comunicação.

A história do telejornalismo regional foi resgatada pelo jornalista Bosco Martins, diretor-presidente já pela terceira vez nas últimas três décadas da Rádio e TV Educativa (RTVE). Bosco deixou o emprego de radialista em Jaboticabal para integrar a equipe precursora da interiorização da notícia na EPTV.

A confraternização no fim de 2015 reuniu cerca de 50 profissionais e poderia ser denominado “Encontro com a História da Imprensa Regional de Ribeirão Preto”. O tema sugerido seria fiel à reunião dos primeiros profissionais que atuaram no marco histórico da telejornalismo regional brasileiro com a implantação da EPTV/Globo Campinas e EPTV/Globo Ribeirão. Entre os presentes,  Rosana Zaidan (jornal A cidade de Ribeirão Preto),  Heraldo Pereira (Globo), Nelson Araujo (Globo Rural) e  Carlos Alberto Nonino. Antes do início da reunião informal ocorrida em um buffet da cidade, os organizadores realizaram a exibição de um vídeo com a passagem marcante pela emissora dos profissionais presentes no evento.

Antes, a jornalista Rosana  Zaidan mencionou outros profissionais que iniciaram na emissora e que não puderam estar presentes  “Já não estão entre nós, Rubens Volpe, João Garcia  (Sombrero),  Otávio Ribeiro, Pena Branca, Antônio de Pádua, Luis Carlos Lepera,  e outros que  por compromissos  antecipados se fizeram ausentes mais foram lembrados, José Luiz Datena, José Roberto Burnier,  Ilze Scamparini,  Pelicano...”.

O grupo de profissionais, cinegrafistas,   repórteres, editores, radio escuta e outros funcionários iniciaram em televisão na década de 1980 sendo o primeiro grupo de profissionais contratados pela EPTV Globo/Ribeirão empresa projetada e criada a partir de Campinas/Ribeirão por José Bonifácio Coutinho Nogueira

A EPTV se transformou numa reveladora de  talentos para órgãos da imprensa nacional e esta história começa com um sonhador e um sonho. O sonhador e idealista é também um realizador.

Depois de fundar e presidir a TV Cultura, primeira TV educativa brasileira de repercussão nacional, o empresário, advogado, produtor, criador e secretário de estado José Bonifácio Coutinho Nogueira tinha a percepção que mudaria a história da comunicação regional. Compreendia que seria possível unir a missão da TV às potencialidades da região. Somavam-se ai os sonhos de JP com as necessidades regionais.

O resultado foi a implantação de uma emissora forte, bonita, ousada e atuante, perfil que marca a EPTV até hoje, ao cabo de 36 anos, completados em 1º de outubro de 2015. Um projeto bem-sucedido de emissoras regionais que começou em 1º de Outubro de 1979, em Campinas, e se expandiu em 1980, com a instalação da emissora em Ribeirão Preto, seguindo-se depois em Varginha, no Sul de Minas (1988) e em São Carlos, na região Central (1989).

Hoje, a cobertura das quatro emissoras alcança 300 municípios, com uma população de mais de 11 milhões de habitantes e mais de 3 milhões de residências com aparelhos de TV. JB vive até  2002 para ver o seu ovo de Colombo em pé. O fundador do grupo falece aos 78 anos, mas deixa o legado de  seu pioneirismo. 

Legado que se reflete até hoje no jornalismo local, dinâmico, investigativo, com documentários e reportagens que conquistam prêmios de relevância nacional, e em todas as ações e eventos que a EPTV realiza, unindo esporte e cultura. Vale o slogan. Esta é a alma da EPTV:  cada vez mais, a gente vive com você.

O patrono José Bonifácio já dizia: “O sonho futuro eu não sei qual será, mas uma coisa eu garanto: haverá sonho”.  O mesmo sonho que ainda move a escola de jornalismo idealizada por JB e estimula o exercício do conhecimento e concretização de ideais.

Sobre a escola de JB, Rosana Zaidan reforça que o segredo do jornalismo regional está na concepção sobre o que é notícia para o telespectador. “A ideia embrionária era simples e o Boni executou muito bem, juntando o sucesso comercial da rede Globo com a informação local”, que era buscada ali mesmo na cidade, nas redondezas de Ribeirão Preto, a capital da região canavieira no interior de São Paulo. As ferramentas eram o telefone e as ondas do rádio. “Nada é mais importante do que cuidar do nosso quintal, comer a comidinha da mamãe”, compara Rosana, para dizer da importância da notícia local para a população.

“Com a TV Ribeirão Preto as pessoas já não ouviam mais somente as notícias de São Paulo, do presidente. Elas se viam no vídeo e a concepção desse grupo que marcou época era justamente essa, de aproximar a televisão da comunidade”.

Sobre essa “interatividade” (chavão da era digital), no período do chumbo quente (material de composição das chapas tipográficas para impressão de jornal), o editor Arthur Barbosa menciona o “primeiro repórter cinematográfico a tirar a câmera do tripé”, Edson Soh, hoje no Globo Esporte e Esporte Espetacular. Soh justificava tamanha ousadia em quebrar o modelo certinho da Globo: “Temos que colocar o telespectador junto da gente”. No memorável encontro dos ex-EPTV, Edson Soh disse que “naquela época e até bem pouco tempo a TV era muito certinha, tinha que ser tudo no tripezinho, plano americano.

Soh lembra de um fato curioso em seu início de carreira. Pegou emprestado do amigo Bosco o carro para buscar a filha. Não tinha carteira de motorista e nem sabia dirigir.

Heraldo Pereira, outro profissional que começou na EPTV e se projetou até ocupar a bancada do Jornal Nacional, tem seus méritos destacados pelos colegas. Sem nunca ter feito curso de jornalismo ou assemelhado, avesso a texto, teve seu talento revelado logo no início do recrutamento de profissionais para a nova emissora.

“Gente isso é muito fácil”, dizia Heraldo no início de carreira, mostrando desde logo não só a paixão pela profissão, mas a habilidade natural com o microfone e narração da notícia. “Ele sempre foi talentoso, mas que isso, uma doçura de pessoa, aprendemos  juntos, a EPTV foi uma grande escola, para todos nós”, diz Rosana Zaidan, lembrando que Heraldo trabalhava na Rádio Clube de Rio Preto e acabou “convocado” a compor aquele primeiro time.

ANTENADO

Outro chavão do jornalismo contemporâneo, antenado, traduz hoje o que antigamente se constituía em ocupação fundamental, ferramenta de trabalho indispensável, tão importante que garantia a “instantaneidade” da notícia, tão exigida nessa era digital. No período do chumbo quente, porém, a antena não vinha da internet, mas do receptor que captava as ondas eletromagnéticas. Era por meio do rádio, o maior veículo de comunicação de massa, que eram buscadas as informações mais quentinhas.

Foi através do rádio escuta, operado por Coelho, que Nelson Araújo, hoje no Globo Rural, faturou o Prêmio de Jornalismo Wladimir Herzog. Nelson foi convidado para a equipe pela característica regional que imprimia em seu trabalho como repórter do jornal O Estado de S. Paulo (Estadão).

Acontecia a primeira greve de repercussão nacional dos canavieiros e o rádio escuta, Antonio Carlos Coelho, acompanhava os acontecimentos pelo rádio enquanto Araújo seguia para o local, uma cidade próxima chamada Guariba. “Os colegas editores diziam, não vai dar tempo, olha o link. Coelho esta determinado, era uma bomba, um furo de reportagem, coisa que já nem existe mais com a globalização da informação. Entrou em contato com um amigo delegado para que indicasse um taxista de confiança. Ele queria ter a certeza de que o motorista estivesse focado apenas na responsabilidade de buscar a fita no teatro da greve, que resultaria em um grande incêndio nas lavouras de cana-de-açúcar. A fita chegou a tempo e a reportagem entrou para s história.

Nesse pique a primeira equipe de telejornalismo regional seguia a rotina, provocando sustos, mas colecionando a admiração pelo profissionalismo e compromisso com a regionalidade da notícia.

“A EPTV abriu uma nova página. Todos eram novos, começaram juntos, o porteiro, os funcionários do escritório, motoristas, todos trabalhavam em clima de aprendizagem, havia muita união e camaradagem, estávamos ali protagonizando o telejornalismo regional, com uma vontade imensa”, lembra Mirtes Wiermann.

Kátia Esteves, que foi repórter e hoje é editora, diz que o principal desafio foi logo vencido. “Era muito difícil fazer televisão, as pessoas tinham receio de falar, fugiam das câmeras, mas conseguimos a aproximação com a comunidade e assim surgiu o jornalismo regional.

O editor de imagem Ricardo Pashuim recorda que começou como office boy, há 35 anos. “Fui, “guardinha”, auxiliar de câmera, iluminador, editor comercial e editor de imagem”, e naquela época “você aprendia por vontade, necessidade e amor àquilo que fazia e é lógico que nada disso seria possível sem a união daquela equipe, recrutada a duras penas em razão da falta de profissionais.

Lobão lembra do “professor Rubão (Rubens Volpe)”, que “sem nada pedir ou exigir em troca” ensinou a ele as manhas de um bom repórter. “Ele doou todo seu conhecimento de uma forma tão espontânea e carinhosa, sempre vou lembrar disso”, disse em alusão ao amigo, já falecido. “Eu era completamente virgem, um analfabeto, ele foi um grande visionário, há mais de 30 anos ele já falava da importância de cuidarmos dos nossos rios. Vejam aí, acabaram de matar o Rio Doce”, compara Lobão, que hoje é diretor de emissora de TV em Minas Gerais. “Nós aprendemos fazendo. Só tínhamos o conceito, mas apoiados numa grande liderança do Rubão”.

Carlos Alberto Nonino, que teve sua origem em jornal impresso, lembra que a RPTV surgiu em um momento importante, quando o Estadão estava desmobilizando suas equipes no interior, deixando uma lacuna logo preenchida pela televisão

Para Érica Amêndola, a trajetória na EPTV foi uma das mais produtivas porque havia “tesão” naquilo que se fazia e lamenta que “muitos dos nossos já se foram”. Segundo ela, naquela época, com o desafio da regionalidade, foi possível “construir uma linguagem com ética e muito amor”. Valéria Ribeiro reforça: “A EPTV criou uma safra muito boa que saiu pelo Brasil afora, todos aprendendo com o rádio escuta, como chefe de reportagem, com o cinegrafista, em um clima de muita bondade, coisa que já não existe mais”.

Sobre a garra e espírito de equipe Nonino lembra que os profissionais que se encontraram na confraternização de fim de ano têm duas alegrias – de terem trabalhado na EPTV e de poderem reviver essa história. A competência era algo tão especial para os “operários” da comunicação que a Rede Globo curvou-se ao êxito da EPTV-Ribeirão, comparando que em um mês a emissora tinha feito praticamente tudo que outra afiliada, de Campinas, havia realizado em um ano.

Gilson Filho diz que a TV Ribeirão “foi a maior escola de telejornalismo que conheceu” e o reencontro de profissionais que escreveram a história passou a se constituir em um dos maiores acontecimentos dessa mesma história, por resgatar fatos e pela afirmação do papel que a EPTV exerceu na consolidação do telejornalismo regional.

 

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