09 de fevereiro de 2026
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ALDEIA SÃO JOÃO - PORTO MURTINHO

Indígenas denunciam manobra de servidor da Funai para beneficiar eleição de cacique

Vereadora formalizou denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) pedindo a exoneração de chefe local da Funai; comunidade Kadiwéu relata desvio de casas populares e interferência externa em pleito

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Uma crise política e social se instalou na Aldeia São João, território do povo Kadiwéu em Porto Murtinho (MS). A vereadora Dra. Carla Mayara (PT) apresentou uma denúncia formal ao Ministério Público Federal (MPF) acusando o chefe da Unidade Técnica Local (UTL) da Funai de Bonito/MS, Gilberto Pires, de prevaricação e conduta contraditória durante a eleição para o cacicado, realizada no último dia 11 de janeiro de 2026.

Segundo a parlamentar e lideranças locais, o processo eleitoral foi marcado por irregularidades validadas pelo servidor federal, além de denúncias graves sobre o desvio de benefícios sociais destinados aos indígenas.

A denúncia aponta que, antes do pleito, houve um acordo de autonomia da comunidade para estabelecer regras internas: a votação seria por cédulas e vetada a não indígenas. No entanto, moradores relatam que o acordo foi quebrado. O grupo ligado ao ex-cacique Arisvaldo Mendes é acusado de trazer uma van com pessoas de fora da comunidade e não indígenas para votar. 

A vereadora Carla Mayara destacou a contradição na postura do representante da Funai.

"Na ocasião, ele relatou que a comunidade tinha autonomia para decidir que não poderia votar candidato não indígena. Porém, enviou um relatório totalmente contraditório à Funai, reconhecendo votos de não indígenas e de pessoas que já haviam votado em outras comunidades", afirmou a parlamentar.

Um vídeo comprova que o servidor, Gilberto Pires, disse que não indígenas e pessoas de fora da Aldeia não poderiam votar, veja: 

Elizia Matchua Leite da etnia Kadiwéu, liderança na Aldeia São João, explicou à reportagem do MS Notícias como a alegada manobra ocorreu.

“Nós ficamos com essa dor, triste esse servidor colocar Arisvaldo. Não houve eleição porque virou tumulto. As outras chapas desistiram, porque virou bagunça. E agora o servidor está falando que o Arisvaldo é o cacique. Nós somos 90 moradores da aldeia, e 300 com crianças. Deu mais votos porque chegou o ônibus com pessoas brancas. Aí já não respeitam nossa aldeia”, lamentou Elizia.

De acordo com a moradora, a aldeia sofre com a continuidade dos mesmos familiares em cargos, que acabam prejudicando a aldeia ao invés de trazer melhoras. 

“A gente quer evoluir nossa aldeia. Queremos que respeitem nossa aldeia, nosso povo, porque a Funai não está respeitando, está sendo beneficiada só uma família, essa do Arisvaldo. Queremos qualidade de saúde, atendimento. Nós queremos uma eleição decidida por moradores, que a Funai venha participar, sim, mas não interferir. Eu falo não só por mim, tem mais lideranças que confirmam isso. Não vamos engolir uma coisa errada dessa, que prejudica nossa aldeia”, desabafou Elizia.

A afirmação é de que o povo da comunidade Aldeia São João não conseguiu exercer seu direito democrático ao voto, devido a mudanças repentinas nas regras do jogo eleitoral.  

DESVIO DE BENEFÍCIOS E BENS PÚBLICOS

Além da disputa eleitoral, o documento encaminhado ao MPF expõe um cenário de negligência social. A denúncia detalha que programas como o Minha Casa Minha Vida e a distribuição de cestas básicas estariam beneficiando pessoas que não residem na aldeia — incluindo sobrinhas do ex-cacique que morariam na cidade de Bonito —, enquanto idosos e pessoas com deficiência na comunidade vivem em situação de precariedade.

“Isso é verdade, o pessoal parente do Arisvaldo ganhou casa e nem estão aqui na aldeia. Tem gente deles lá na cidade. E o povo que está aqui, no dia a dia, sofrendo, não é contemplado. O que tem é que só uma família está tirando benefícios com aval da Funai. Isso é ruim para a aldeia, é ruim para os parentes”, confirmou Elizia.

Há também acusações sobre o sumiço de bens da comunidade, especificamente a venda suspeita de uma grade de trator que pertencia ao patrimônio coletivo da aldeia.

OUTRO LADO

O servidor da Funai Gilberto Pires. Foto: Reprodução | Redes sociaisO servidor da Funai Gilberto Pires. Foto: Reprodução | Redes sociais

Em despacho oficial datado de 22 de janeiro de 2026, Gilberto Pires, chefe da UTL-Bonito, rebateu as acusações. No documento (a íntegra), ele afirmou que a eleição ocorreu dentro da normalidade e classifica as denúncias como inconformismo da oposição.

"O grupo que denuncia é apenas parte ou algumas famílias da chapa contrária que não aceitaram a derrota (...) sem dúvidas o senhor Arisvaldo Mendes teve a chapa ganhadora", escreveu o servidor, alegando que caberia à organização interna criar um regimento claro antes do pleito para barrar votantes.

Procurado pela reportagem do MS Notícias, o servidor da Funai, inicialmente, disse desconhecer a existência de insatisfação com a eleição por parte de um grupo:

“Não sei onde me encaixo nessa situação, quanto à FUNAI fiz minha parte de seguir a OIT 169, das organizações internas das comunidades indígenas que não temos poder de intervir da organização interna, agora se existe grupo que está descontente eu sinceramente desconheço o motivo", argumentou. 

Na mesma mensagem de resposta, porém, ele confessou saber da existência de um grupo descontente com a eleição de Arisvaldo, que são, nas palavras do servidor, “baderneiros”.

"Esse grupo que está aí descontente só querem desordem dentro da comunidade, eu aconselho a não intrometer na questão que já foi solucionado dentro da legalidade, o grupo não votou por livre espontânea vontade por saber que não iam ganhar começaram a apelar pela baderna”, disparou.

Quanto ao não cumprimento do uso de cédulas para votação, o que antes teria sido acordado pelos indígenas, o servidor alegou: 

“O modo de exercer com cédula ou sem cédula, isso não cabe a mim, fizemos o que cabia a nós. Para essas regras não cabe a nós, como instituição, criar regras; nossa parte é manter a ordem. A primeira pergunta minha foi onde estavam o estatuto e as regras da eleição, não tinha. Quem tinha que criar, antes dessa eleição, as normas seriam eles, mas nem isso tinha”, atacou. 

Sobre a chegada de eleitores de fora da comunidade, o que antes havia sido proibido pelo servidor, segundo a vontade da comunidade, o servidor da Funai se esquivou:

“Cada chapa tinha que ter o seu fiscal, nem isso foram capazes de organizar e agora continuam tentando bagunçar a ordem na aldeia. Acabei de dizer: fiz minha parte, mas quem tinha que organizar são eles. Eu não tenho partido, mas esse grupo não tem um passado brilhante, então, por favor, antes de qualquer decisão, como repórter, procure se aprofundar mais no histórico”, completou.

PEDIDO DE PROVIDÊNCIAS

Diante do impasse, os moradores solicitaram a anulação do pleito e a exoneração de Gilberto Pires, alegando que o servidor "trabalha por interesse pessoal" e compactua com ilegalidades. O caso segue agora sob análise do Ministério Público Federal e da Coordenação Regional da Funai em Campo Grande.

A reportagem procurou Arisvaldo para obter seu posicionamento acerca das denúncias, mas as mensagens não foram respondidas.  

As informações baseiam-se em requerimentos assinados por moradores e despachos oficiais da Funai anexados à denúncia.

O espaço segue aberto para manifestação oficial da defesa dos citados. 

NOTA DE REPÚDIO

Nós, lideranças e membros da comunidade indígena da Aldeia São João, no município de Porto Murtinho – MS, manifestamos nosso repúdio às pessoas que não aceitaram, de forma democrática e respeitosa, o resultado da eleição para Cacique, realizada no dia 11 de janeiro de 2026.

Reafirmamos que as decisões tomadas por meio do voto devem ser respeitadas, pois tentativas de deslegitimação e a promoção de conflitos ferem gravemente os princípios da democracia, da convivência comunitária e do respeito à vontade coletiva do nosso povo.

Ressaltamos que o processo eleitoral ocorreu de maneira lícita, transparente e legítima, contando com o acompanhamento do Coordenador da CTL de Bonito-MS, Gilberto Pires, o que garante a seriedade e a legalidade de todo o procedimento.

Como resultado da escolha soberana da comunidade, foram eleitos:

  • Cacique: Arisvaldo Mendes
  • Vice-Cacique: Lindomar Fernandes

Reafirmamos nosso compromisso com a paz, a unidade, o respeito mútuo e com a liderança legitimamente eleita, conclamando todos a respeitarem a decisão coletiva expressa nas urnas.

Respeitem a decisão coletiva!