05 de maro de 2021
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Prejuízo

Buraqueira fere, mata e danifica na cidade de Bernal. E agora?

“Um verdadeiro absurdo!”. Com esta qualificação o engenheiro Carlos Augusto Melke comentou postagens de mídia social sobre a buraqueira na malha viária de Campo Grande. E é interessante prestar atenção em reações desse tipo. Sua reverberação tem grande alcance, já que de 1989 a 1990 Melke foi presidente da Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul) e conhece muito bem o que significa a importância de investir na saúde das vias publicas.

Porém, há reações muito mais impactantes e dramáticas que o “absurdo” registrado por Melke. É o caso da família de Romildo Jacinto Estruquel. Na madrugada do dia 17 passado, esse trabalhador de 42 anos trafegava com sua moto pela Avenida Júlio de Castilho. Ao entrar na Rua Piraí, perto da Avenida Duque de Caxias, não conseguiu desviar-se de um dos vários buracos existentes nas vias da região. Perdeu o controle do veículo e caiu. Na queda, feriu-se com gravidade e morreu no local. São constantes as queixas dos moradores, como o casal Divaldo Silva e Edna Bispo, que num dia de chuva teve que pedir socorro para tirar a filha, que caiu com a moto numa das crateras do Bairro Sayonara.

Com 2.800 km de ruas urbanas danificadas – números oficiais divulgados no início do ano pela Prefeitura -, Campo Grande vive sua pior crise urbana e de serviços desde que tornou-se capital de Mato Grosso do Sul, em 1979. A situação chega a tal proporção que produz as mais diversas reações da comunidade. Com varas de pescar e linhada vários campo-grandenses ironizam a situação, simulando pescarias em ruas urbanas. Na região dos bairros Giocondo Orsi e Autonomista, o dentista Leonardo Nascimento imitou os muitos contribuintes que fotografam e filmam a buraqueira para publicar na Internet e denunciar a situação.

Além dos acidentes com dezenas de feridos e dois casos de óbito, buracos são também causadores de danos materiais de grande monta em veículos automotores e de tração animal. Quem lucra com isso são as lojas de peças e as borracharias – nestas, aumentou em 60% o faturamento com reparos e venda de pneus e rodas. Não deveria haver coisas piores, mas há contratempos de semelhante gravidade: os assaltos. Parar o veículo para trocar um pneu ou chamar um socorro por outros danos pode ser a chance esperada por ladrões, como os que renderam o advogado Pedro Paulo Centurião e a esposa. O casal parou por causa de um pneu furado num buraco e foi assaltado.

O prefeito Alcides Bernal (PP) põe a culpa nos antecessores e na antiguidade da malha viária, que tem, na média, 40 anos. Afirma que o pavimento, sobretudo o assentado nos últimos cinco anos, é de má qualidade. Culpa as empreiteiras contratadas nas gestões anteriores, argumento com o qual se armou para suspender e anular vários contratos, interrompendo as operações tapa-buraco que não poderiam sofrer descontinuidade.

De acordo com o prefeito, para consertar todas as vias afetadas seriam necessários R$ 2 bilhões, mais da metade do orçamento da cidade para este ano (R$ 3,4 bilhões). O Ministério das Cidades informa que repassa cerca de R$ 900 mil/ano a campo Grande para obras de infraestrutura viária (restauração de pavimentos). A Prefeitura divulga que do período de 4 a 17 deste mês restaurou cinco mil buracos. Em dezembro, teriam sido mais de 21 mil buracos tapados e mais de 11 mil em novembro. Diante desses números e da quantidade de buracos que se vê no dia-a-dia da cidade, é de imaginar-se que a administração municipal ou mediu muito mal as necessidades urbanas de Campo Grande ou não imaginava que fosse tão difícil governar uma capital com mais de 900 mil habitantes.