24 de maio de 2024
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'SEGURANÇA PÚBLICA'

PM promove matança nas periferias de Campo Grande

'Se esconde ou morre', seria mensagem deixada nas periferias da Capital sul-mato-grossense

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Victor Kauan Coelho de Souza, de 23 anos, foi o 13º jovem assassinado em suposto confronto com a Polícia Militar (PM), na noite da 2ª.feira (25.fev.23), em Campo Grande (MS). A corporação teria ficado ainda mais violenta, após a Secretaria de Segurança Pública (Sejusp) trazer militares de alta patente do Rio de Janeiro (RJ) para comandar equipes na Capital. A informação foi passada com exclusividade à reportagem do MS Notícias. O número de mortos pela PM já saltou para 14, veja no final do texto. 

Em grupos de apoio a esse tipo de ação militar, segundo uma fonte que terá o nome preservado, sempre que um jovem é assassinado na periferia, os membros celebram as mortes. Os alvos dos militares são jovens que tenham qualquer tipo de histórico policial: “A lei é que não pode abater os sem passagens”, narra a fonte. Isso sugere que os alvos dos PMs são escolhidos de maneira meticulosa. A estratégia visa ganhar o apoio popular com a justificativa de que os alvos tinham envolvimento com o crime.

“Isso foi avisado ao povo da periferia da cidade. Nos bairros todos os jovens estão sabendo: ou se esconde ou a PM mata”, completa a fonte.

Em postagens no Facebook, amigos de Victor sugerem ter conhecimento do que é passado pela fonte: “Poxa, meu mano. Como foi acontecer isso? Nossas conversas trocadas sobre esses policiais que tão matando a molecada. Você até falou altas vezes para tomar cuidado. Agora fizeram com você, meu mano. Cuida de nós ai de cima. Nunca será esquecido”, escreveu um amigo de Victor.

“É sempre assim... troca de tiros. Que ódio desse mundo! O que está acontecendo meu Deus, que estão fazendo isso e ninguém está fazendo nada? matando pai de família!”, desabafou outra internauta.

Victor foi executado num quarto, na Rua Valparaíso, no Bairro Guanandi. Como já mostramos aqui no MS Notícias, esses ‘confrontos’ são pouco esclarecidos pela corporação. O corpo de delito das vítimas não é de fácil acesso à imprensa. Sempre que solicitado, inicia-se um moroso processo que termina numa resposta negativa de acesso aos laudos.

A arma usada para matar Victor foi uma submetralhadora Taurus SMT – Calibre .40 S&W. O PM que matou o jovem é o comandante da equipe que estava a bordo da VTR 10-3170, do 10° Batalhão da Polícia Militar. O nome do militar não foi divulgado.

Victor morreu às 19h40, após supostamente ter sido levado ao Hospital Regional.

Em registro, a PM ainda acusou Victor de ao menos 3 crimes: homicídio simples na forma tentada, tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo de uso permitido. Eles disseram ter apreendido com Victor um revólver Calibre .32 = Lacre nº 030838 – A, que teria sido a arma usada por Victor para “ofender a integridade física da equipe policial”, apesar disso, nenhum tiro saiu do revólver do jovem. A PM justificou que os projéteis do revólver “picotaram” – termo usado para se referir às munições que falham ao serem acionadas.

O caso foi registrado na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário do Centro Especializado de Polícia Integrada (Depac/Cepol).

AMEAÇA À IMPRENSA

A matança em Campo Grande já foi destaque no MS Notícias algumas vezes.  

Em uma das matérias, na qual denunciamos essas operações letais da PM, a própria equipe de reportagem do MS Notícias recebeu várias ameaças via rede social, de um perfil identificado como “Ser Policial Por Amor”, em que o responsável pela página avisava para o repórter “tomar cuidado”. O indivíduo invadiu as redes sociais do profissional da imprensa, para fazer ameaças a sua integridade física, a fim de intimidá-lo. Ele coletou fotos e fez uma montagem (abaixo) para estimular que seus seguidores atacassem o comunicador. Eis: 

Página fez essa publicação para intimidar profissional da imprensa. Foto: Print

Posteriormente, a mensagem foi enviada a um grupo fechado de PMs, com o aviso de que "tinha se dado um susto" e que, em razão disso, o repórter teria excluído sua rede social. As mensagens foram compartilhadas com a reportagem:  

No mesmo grupo, alguns PMs fizeram ameaças:"será cobrado". Outros demonstram insatisfação com a transparência de Boletins de Ocorrência à imprensa:  

Conversas trocada em grupo em que PM de Campo Grande participam. Foto: Print | Acervo jornalístico

Foi relatado à reportagem que responsável pela página citada seria irmão de um policial militar da Capital, ou mesmo um agente de segurança que usa o canal. O indivíduo, mantém um canal no YouTube desde 3 de maio de 2017 em que produz conteúdos pró ações violentas da PM. Ele também tem páginas no Instagram em que usa termos pejorativos ao se referir às pessoas assassinadas pela PM, se referindo aos alvos como “vagabundos”, na maioria das postagens.

Ele fez uma postagem se referindo ao caso de Victor, celebrando o assassinato do jovem. No post, na página do Instagram “Ser Policial Por Amor”, o responsável pelo perfil escreveu: “Vagabundo morre em confronto com a PM em Campo Grande/MS”. Em resposta a sua publicação, vários seguidores celebravam o assassinato, estimulando as ações violentas dos militares. Eis: 



Além de usar esses perfis escusos para tentar intimidar a imprensa, policiais militares recorreram a Associação dos Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul (ASPRA-MS) para repudiar um conteúdo escrito aqui, em que se denunciava o assassinato do jovem Alexandre Barreto de Castro, de 27 anos, foi morto às 18h40 da 5ª.feira (10.nov.22), na Rua da Docura, no Jardim Parati. Ele foi alvejado no peito por dois disparos de fuzil efetuados pelo Policial Militar André Luiz. A morte de Alexandre foi motivo de postagens jocosas na página "Ser Policial Por Amor". Eis:  



Na manifestação oficial (AQUI), a PM dizia que a intenção do repórter era “defender criminoso”, dando à própria entidade uma sentença à pessoa assassinada, sem nem mesmo ela ter sido levada à justiça. Eis: 



Na página "Ser Policial Por Amor" no Facebook outros jornalistas já foram alvos de ameaças por desenvolver seu trabalho. A redação deste veículo de comunicação acionou o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (Sindjor-MS), para acompanhar o caso.

NÚMEROS DE MORTES NO TRIÊNIO 

Entre janeiro de 2021 e fevereiro de 2023 a Polícia Militar matou 49 pessoas em Campo Grande. Os números constam no espaço de Estatísticas Online da Sejusp acessado em 28 de fevereiro de 2023. 

Os dados indicam que, ao longo de todo o ano de 2021, a PM matou 17 pessoas. Em todo ano de 2022, o número de mortes saltou 19 pessoas. Já em 2023, apenas nesses dois primeiros meses, a PM matou 13 pessoas em intervenções. Eis o gráfico:  

Se observadas as ocorrências por mês em cada ano, nota-se que em janeiro de 2023 a PM matou 5 pessoas, em fevereiro foram 8. Eis o gráfico: 

No interior de Mato Grosso do Sul, a letalidade da PM também apresenta índices alarmantes. Entre janeiro de 2021 e fevereiro de 2023 a PM matou 59 pessoas nos 79 municípios do estado. Foram 27 mortes em 2021; 23 mortes em 2022 e nos primeiros dois meses de 2023 já foram registradas 9 mortes em intervenções de agentes de segurança do estado. Eis o gráfico: 

Do total de mortes registradas no interior nesses últimos 3 anos, 28 ocorreram nos municípios fronteiriços com Paraguai. Eis o gráfico:  

QUEM SÃO OS MORTOS EM CAMPO GRANDE

  1. 1º de janeiro — Luan Veríssimo Valadares, de 31 anos;
  2. 13 de janeiro — Bruno Lander Alves de Matos, de 33 anos;
  3. 17 de janeiro — Michel Cauã Demétrio dos Santos, de 19 anos;
  4. 21 de janeiro — Rafael Saffe da Silva, de 35 anos;
  5. 1º de fevereiro —  Um adolescente de 17 anos, morto na Rua Minerva, no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian;
  6. 8 de fevereiro — Adriano Ferreira da Luz Junior, 20 anos, morto pelo Batalhão de Choque, no Bairro Mário Covas;
  7. 9 de fevereiro — Diego Rodrigues Botelho, de 37 anos, morto em confronto com policiais militares do Batalhão de Choque, no Parque Residencial Iracy Coelho Netto;
  8. 10 de fevereiro — Luan Espíndola, de 19 anos, e Marcus Vinícius, de 24 anos, mortos em ação dos policiais militares do Batalhão de Choque, na Rua Ênio Cunha, na região do Bairro Universitário;
  9. 12 de fevereiro — Júlio César de Matos Pereira,de  38 anos, conhecido como Buiú, foi morto pela Polícia Militar de madrugada, no Núcleo Habitacional Buriti, na Rua Jaime Costa;
  10. 18 de fevereiro — Leonardo de Souza, de 25 anos, morto pelo Batalhão de Choque, no Jardim das Macaúbas;
  11. 19 de fevereiro — Harley Leandro Estevão Assunção, de 23 anosm, morto na Rua Aicás, no Jardim Tijuca;
  12. 23 de fevreiro — Maicol da Rosa, 45 anos, morto pela PM  no Jardim Noroeste;
  13. 25 de fevereiro — Victor Kauan Coelho de Souza, de 23 anos, morto pela Força Tática do 10º Batalhão da Polícia Militar, na Rua Valparaíso, no Bairro Guanandi;

A maioria dos alvos da PM, são jovens pobres, pretos na faixa etária dos 17 aos 45 anos, moradores da periferia.

Enquanto produzíamos essa reportagem, a PM matou Thiago Felipe Peralta Alecrim, de 27 anos, na madrugada de 2 de março. Ele foi mais uma pessoa assassinada em uma operação do Batalhão de Choque, na Vila Albuquerque, elevando o número de mortos pela PM para 14, em dois meses. 

Seguindo um padrão, a PM mata os jovens sempre pela madrugada para evitar que a imprensa veja o corpo ou que conteste a versão apresentada pelas forças policiais.

O Instituto Médico Legal não responde posteriormente quais eram as condições do corpo alvo da corporação. Portanto, os alegados 'confrontos' acabam por ser de "versão única", a apresentada pelo braço armado do Estado.  

PELE ALVO

Doze dos quatorze mortos pela polícia (Foto: reprodução/redes sociais/Campo Grande News)Doze dos quatorze mortos pela polícia (Foto: reprodução/redes sociais/Campo Grande News)

A presidente do Fórum das Entidades Negras de Mato Grosso do Sul, Romilda Pizanni explicou ao MS Notícias que é muito importante que se olhe esse índice de assassinatos de homens negros de maneira analítica. "Porque a gente sabe que existe um extermínio da população negra no País. E quando nós, enquanto militantes do Movimento Negro, trazemos isso para esse local de evidência, ou quando vemos pessoas e seguimentos da sociedade que trazem isso como local de evidência é muito importante”, introduziu.

De acordo com Romilda, a sociedade precisa olhar para isso fazendo os recortes necessários e os questionamentos. "Ou seja, o porquê só a população preta desse país? Por que esses jovens são assassinados em especial nas regiões periféricas de nossa cidade? É a falta do conhecimento? É a falta de liberdade? Quais são as políticas públicas que faltam para que essas pessoas, antes de serem assassinadas, se sintam pertencentes à essa sociedade?", pontuou.

A ativista disse que a segurança pública cria toques de recolher colocando uma alvo nas costas das pessoas negras. "Quando a gente vê um homem negro sendo assassinado sem motivos aparentes, simplesmente por estar andando ‘fora de hora’ na rua... O que é esse ‘fora de hora’? Todos nós somos livres para ir e vir, não estamos em momento de toque de recolhimento.  A sociedade é livre, ou pelo menos deveria ser. Ou seja, ela é livre para quem? Para o não negro?”, questinou.

O encarceiramento negro contemporâneo, segundo Romilda, assumiu formas diversas: “Durante 400 anos, era nítido o nosso encarceramento. E agora, esse encarceramento ele se dá de diversas formas e uma delas é o assassinato da população negra. Ou seria: ‘você que é negão, você que é negona fica em casa, porque o recado é esse!’. É isso que chega [nas comunidades], dessa forma que chega. E é isso que pretendemos e queremos mudar aqui no estado de Mato Grosso do Sul, no Brasil e no mundo”, indicou.

Romilda completou dizendo que para combater a matança das pessoas pretas e pobres nas periferias, é preciso criar equipes de seguranças especializadas para esse público. “É inadmissível que ainda nos dias de hoje a gente tenha que passar e ter conhecimento desse número de assassinato e não fazer nada. A Delegacia para Crimes de Injúrias Raciais tem que existir em cada canto desse país. E nós, enquanto seguimento do Movimento Negro, enquanto Fórum Permanente das Entidades do Movimento Negro, nós vamos lutar para que aqui no Mato Grosso do Sul isso possa ser implementado, de forma que com que todos que estejam trabalhando nessa delegacia estejam capacitados para atender e acolher as pessoas que sofram discriminação e para diminuir o índice de assassinatos da população negra desse estado”, finalizou.

O QUE DIZ A PMMS 

A reportagem enviou todas essas perguntas (abaixo) à Polícia Militar de Mato Grosso do Sul por e-mail. São elas: 

  1. A PM tem atuado de maneira mais violenta, o que resulta em mortes ao invés de prisões? O que tem colaborado para esses números?
  2. A corporação compreende esses dados como de preocupação à Segurança Pública e a vida?
  3. Quais são os mecanismos formativos oferecidos às equipes da PM para evitar mortes em operações?
  4. Há informação de que a PMMS recebeu militares de alta patente vindos do Rio de Janeiro (RJ) para comandar equipes na Capital e que, após a chegada desses militares, a corporação teria aumentado sua letalidade. Isso procede?
  5. Fontes relataram à reportagem que PMs teriam avisado moradores em comunidades periféricas da Capital que a ordem da SEGURANÇA PÚBLICA era em formato do seguinte aviso: "se esconde ou morre", em relação aos jovens com qualquer histórico policial. Isso procede? 
  6. A PMMS tem conhecimento da existência de uma página na internet chamada "Ser Policial Por Amor"? 
  7. A Corporação tem conhecimento que o indivíduo administrador de tal página fez ameaças a um jornalista da Capital em prol de PMs?
  8. A reportagem apurou que tal página é administrada pelo irmão de PM, ou mesmo o PM, lotado na Capital. E que o mesmo usa o espaço para expor mortos em operações da PMMS. A corporação está à par disso?
  9. O que faz a PMMS ser tão letal ao público em sua maioria negro e periférico na Capital e do interior?
  10. Em relação à clareza das mortes por intervenção policial, qual é o procedimento de apuração? 
  11. O militar sul-mato-grossense está sendo estimulado a matar em trabalho? 
  12. Estamos há 2 meses do ano e já se aproxima dos números de mortes em relação a todo ano de 2022. A PMMS acredita que 2023 se seguirá como um dos anos mais sangrentos em suas operações? 

A corporação teve um 48h para enviar seu posicionamento esclarecendo as perguntas acima, mas limitou-se a enviar a resposta econômica, abaixo: 

"Em atenção a solicitação feita por Vossa Senhoria, a Assessoria de Comunicação Social da PMMS informa que no ano de 2023 (até a presente data) foram instaurados 17 (dezessete) Inquéritos Policiais Militares para apurar a atuação da Polícia Militar em ocorrências de confronto armado decorrentes de oposição à intervenção policial.

A PMMS informa que, através do Fundo de Assistência Feminina, oferece suporte psicológico aos Policiais Militares que se envolvem em ocorrências em que há homicídio decorrente de oposição a intervenção policial e que caso haja indícios de que o profissional de Segurança Pública tenha agido dentro da legalidade, esse não é afastado de suas atividades.

A PMMS possui como canal oficial de comunicação o site pm.ms.gov.br e suas páginas oficiais no facebook e instagram as quais são gerenciadas pela Assessoria de Comunicação Social da PMMS".