28 de junho de 2022
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NACIONAL | ELEIÇÕES 2022

Após Guedes sugerir 'congelamentos', Collor quer ser 'candidato' de Bolsonaro

Ex-presidente que sofreu impeachment elogia Bolsonaro e sugere aliança; político é lembrado por congelamentos e confisco de contas bancárias e poupança dos brasileiros em 1990

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O senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello quer voltar a ocupar o posto de governador de Alagoas. Em vídeo divulgado nesta terça-feira (14.jun.22) nas redes sociais, o político atualmente filiado ao PTB anunciou sua pré-candidatura ao governo estadual, sugerindo aliança com Jair Bolsonaro (PL). 

Diante disso, vale explicar o cenário em que Collor retorna a disputa. O fracasso da gestão econômica bolsonarista é irrefutável.

Bolsonaro: 'No governo do ex-presidente Lula, os brasileiros viviam melhor'

A alta no preço dos alimentos está no centro das discussões políticas e empresariais há meses no país.  

A subida mais expressiva do arroz, item da cesta básica, que já disparou 20% desde o começo do ano foi a ponta do iceberg

O conjunto Bolsonaro, Paulo Guedes e Tereza Cristina são os principais responsáveis por esse descontrole total, provocando inflação explosiva no País. A má gestão Econômica, no passado, já levou Collor a "fazer loucuras" 

O presidente Jair Bolsonaro já foi a público pedir "patriotismo" dos supermercados para que baixassem os preços. De imediato, a então ministra da Agricultura, Tereza Cristina, desconversou dizendo que o governo não iria interferir. Dias depois, a Câmara de Comércio Exterior decidiu zerar o imposto de importação do arroz até o fim do ano eleitoral.

Tais atitudes adotadas pelos políticos de direita eram comuns na segunda metade da década de 1980 até o Plano Real. A mais lembrada da história recente do Brasil, talvez, seja o ato do congelamento dos preços, o que os economistas chamam de "loucura econômica", principalmente por nunca ter funcionado.

"A hiperinflação era um processo crônico e o governo acreditou que congelando os preços funcionaria. Então a gente teve isso em Plano Cruzado, em 1986, no Plano Bresser, em 1987, no Plano Verão de 1989, Plano Collor, em 1990. Todos que usaram o congelamento de preço, viram que ele nunca deu certo", explicou o professor Jackson Bittencourt, coordenador do curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Coincide, justamente neste cenário o ex-presidente Fernando Collor sugerir aliança com Jair Bolsonaro.

Com 72 anos de idade, Collor foi governador de Alagoas há mais de três décadas. Ele administrou o estado de março de 1987 a maio de 1989. Na ocasião, renunciou para se candidatar à Presidência da República. Venceu o pleito federal, mas sofreu impeachment no fim de 1992. Veja o anúncio de Collor:

CONFISCO

Bolsonaro não cansa de dizer que o economista Paulo Guedes é seu guru. Assim como Zélia Cardoso de Mello era de Collor.Bolsonaro não cansa de dizer que o economista Paulo Guedes é seu guru. Assim como Zélia Cardoso de Mello era de Collor.

No dia 16 de março de 1990, milhões de brasileiros ficaram estarrecidos com o que assistiam ao vivo pela TV. Era o dia seguinte à posse do presidente Fernando Collor, e sua equipe econômica, capitaneada pela ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, anunciava medidas econômicas de grande impacto.

E dentro do pacote de 21 medidas provisórias e dezenas de portarias estava o inédito confisco de contas bancárias e poupança de todos os brasileiros por 18 meses.

O pretexto para tamanho sequestro monetário era acabar com a inflação em apenas um golpe. A inflação na época alcançava 80 por cento ao mês, o que impedia qualquer planejamento financeiro.

Na reforma monetária da equipe econômica de Collor, a antiga moeda, cruzados-novos, foi convertida em cruzeiros. E cada cidadão ou empresa podia dispor de no máximo 50 mil cruzeiros, como anunciou a então ministra Zélia Cardoso.

"Quem tinha ontem um depósito a vista, ou um de cinquenta mil cruzados, pode ir ao banco segunda-feira e sacar se quiser 50 mil cruzeiros. A parte excedente a esses 50 mil fica depositada junto ao Banco Central sob a titularidade da pessoa física ou jurídica em forma de cruzados-novos".

Todo o dinheiro restante depositado em bancos no país ou investido em aplicações financeiras ficou retido pelo governo, que prometeu restituí-lo em 12 parcelas.

Ao mesmo tempo em que confiscava o dinheiro, o Plano Collor congelou os preços de bens e serviços e também os salários, ignorando a inflação daquele mês de março.

O presidente anunciou também uma grande reforma administrativa. Extinguiu órgãos públicos federais, anunciou a privatização futura de empresas estatais e deu aposentadoria precoce à funcionários públicos. No enxugamento da máquina pública, o número de ministérios caiu de 23 para 12 unidades.

Com o Plano Collor, que na verdade se chamava Plano Brasil Novo, cairam também as restrições às importações, o que abriu o mercado brasileiro aos produtos importados.

Embora grande parte da sociedade brasileira tenha repudiado o Plano Collor, o Congresso aprovou as medidas econômicas anunciadas em virtude da legitimidade eleitoral do presidente, diz o deputado Roberto Freire, do PPS de Pernambuco.

"Não vamos esquecer que Collor confiscou poupança e conta-corrente desse país. Com apoio do Congresso e até do Judiciário. Por conta da força que ele tinha, da legitimidade da eleição presidencial que teve", lembrou.  

Ao deixar o povo e as empresas praticamente sem dinheiro, o Plano Collor jogou a economia brasileira em uma brutal recessão no ano de 1990.

A falta de dinheiro no mercado obrigou o Governo a liberar parte do dinheiro bloqueado para evitar a paralisia da economia.

A inflação foi contida, mas em pouco tempo o Governo perdeu forças no combate aos preços e o Plano começou a fracassar.

No início de 1991, com a inflação superando os 20% ao mês, a equipe econômica anunciou o Plano Collor 2, aplicando novo congelamento de preços e salários e proibindo as operações financeiras de overnight, aquelas que são realizadas de um dia para outro. 

As novas medidas não seguraram, entretanto, a alta de preços por muito tempo. Com isso, no mês de maio, a ministra Zélia Cardoso de Mello deixou o posto que ocupava, derrotada pela inflação.

Assumiu o ministério da Economia, o até então embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Marcílio Marques Moreira.

O novo ministro retomou o pagamento da dívida externa brasileira, que tinha sido suspenso no governo Sarney.

E em agosto de 1991, o dinheiro confiscado pelo Plano Collor começou a ser devolvido aos brasileiros como estava previsto.

No ano seguinte, Collor foi acusado de corrupção pelo seu próprio irmão, Pedro Collor de Mello, em matéria de capa da revista Veja.

Então, Collor foi processado por crime de responsabilidade pelo Congresso. Julgado, foi impedido de exercer a Presidência da República. O ex-presidente saiu do Governo com uma inflação de mais de mil por cento naquele ano.

O empresário Paulo César Farias, tesoureiro de campanha de Collor, foi a personalidade-chave do impeachment.

O governo de Itamar Franco que o sucedeu, também sofreu com a inflação galopante. Mas foi Itamar, em conjunto com a equipe econômica, liderada pelo ministro Fernando Henrique Cardoso, que faz a transição para uma nova moeda, o real, que seria mais eficiente no combate à inflação.

*Com Fatos históricos que tiveram como palco a Câmara dos Deputados