21 de abril de 2021
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Às vésperas da eleição, candidatura de Simone chega esvaziada ao Senado

Histórico de relações conflitantes com MDB e PT tirou de senadora apoios que decidiriam a disputa

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Candidata avulsa à presidência do Senado, porque não teve o apoio de seu partido, o MDB - a senadora Simone Tebet amanheceu neste sábado, 30, conferindo informações sobre as tendências da disputa sucessória. E não deve ter ficado nem um pouco satisfeita, tendo em vista o cenário de abandono, que chama de traição, e a drástica redução das chances de derrotar o colega Rodrigo Pacheco (DEM/MG), apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Entre os partidos que Simone perdeu ou se recusam a apoiá-la está sua própria legenda, o MDB, e o PT, ainda ressentido com o episódio envolvendo Dilma Roussef em 2016. Dos 81 titulares das cadeiras senatoriais, 15 são emedebistas e seis petistas. São 21 votos que decidem qualquer disputa interna do Senado. Presume-se que se não fosse o histórico de conflitos com as duas legendas, Simone hoje estaria com melhores condições para vencer e tornar-se a primeira mulher a presidir o Senado.

Só resta à senadora sul-mato-grossense a esperança no improvável: deserções do outro lado e ouvidos à insistente pregação sobre o ineditismo que seria para o Senado Federal ter na sua história a primeira mulher a presidi-lo. Se esta possibilidade naufragar, não terá sido o voto machista o principal causador, como alega Simone em sua agenda de receios. Há, sim, doses efetivas de machismo na rejeição de parte dos senadores - mas existem outros débitos nessa conta política.

DOIS ATALHOS

Simone construiu uma rota de dois atalhos na trajetória senatorial. O primeiro, com sua exitosa performance na edificação articulada e inteligente com que ocupou importantes espaços congressuais, até chegar à presidência da Comissão de Constituição e Justiça, a mais poderosa e mais cobiçada do quadro orgânico da Casa. Em outros momentos de destaque, Simone também ganhou pontuações positivas importantes, alcançando o topo reservado ao chamado "alto clero" do Congresso Nacional.
Porém, existe um atalho mais complexo, que deriva de decisões e encaminhamentos que tomou, ferindo correligionários e colegas, além de atravessar negativamente caminhos que seu próprio partido estava tomando. Ainda que tenha preenchido espaços destacados no contexto afirmativo da presença feminina no centro nobre da política brasileira, Simone escorregou em intervenções que impactam no atual desafio, uma de caráter regional e as outras no âmbito senatorial.

FUGA DA SUCESSÃO

Em Mato Grosso do Sul, nas eleições de 2018, Simone foi convocada pelo MDB para substituir o ex-governador André Puccnelli e ser a candidata  ao Governo. Apesar de não refletir nas pesquisas um peso eleitoral semelhante ao do ex-governador, o anúncio de seu nome teve maciça receptividade partidária e as agendas de campanha foram redimensionadas e postas à sua disposição. E ganhando ou não, caberia a ela a honrosa missão de reencarnar o aguerrido e histórico espírito político emedebista no Estado. Enganaram-se os emedebistas e todos que pensavam assim.
Simone ignorou a necessidade extrema de sobrevivência de um partido tão judiado por desgastes sucessivos. Pôs sua candidatura de lado e seguiu cuidando de sua vida política e pessoal, focada no mandato e alheia ao fervor do embate sucessório. Não teve jeito para o MDB que, já desacorçoado, tentou recuperar-se daquela desfeita e chamou o presidente da Assembleia Legislativa, Júnior Mochi, para substituir Simone. A ela não faltaram, por parte dos correligionários, adjetivações como "trânsfuga", "traidora" e "fujona".

ORQUESTRA ANTI-DILMA

O PT é mais uma força partidária que se recusou a dar apoio à candidatura de Simone Tebet. Pesa na balança do histórico recente da política os passos largos dados pela senadora ao lado dos parlamentares que orquestraram no Senado a desafinada e bufa ópera do impeachment da presidenta Dilma Roussef. São muitos os registros do escancarado protagonismo de Simone no processo.
Até mesmo o material de divulgação da senadora dá destaque ao seu papel na derrubada de Dilma. A página que divulga seu mandato pela Internet dedica menções generosas ao seu protagonismo. Numa delas, é enfatizado que Simone "teve atuação de destaque na Comissão Especial do Impeachment da ex-presidente Dilma".  [Esta Informação pode ser conferida AQUI].

Em matéria de 27 de junho de 2016, o mesmo site da senadora emedebista dava o título "Para Simone Tebet, perícia derruba tese da defesa de Dilma". Na matéria, constam as informações e afirmações a seguir: "A senadora Simone Tebet (PMDB-MS) disse que o laudo da perícia, entregue nesta segunda-feira (27) à comissão do impeachment, confirma o crime de responsabilidade da presidente afastada Dilma Rousseff. Para a senadora, a perícia derruba a tese da defesa de que os decretos atenderam a programação financeira.

Na criminalização de Dilma a senadora contestou até o laudo pericial, cuja conclusão afirmava não existir, nos decretos, qualquer ato direto da presidente que tenha contribuído para as pedaladas. “Esses decretos, sem autorização legislativa, descumpriram a meta fiscal”, disse, reforçando que a presidente afastada poderia ser responsabilizada por ação ou por omissão.  

CALHEIROS TRAÍDO

Em 2019, o MDB travou disputa interna para escolher quem seria candidato à presidência do Senado. Renan Calheiros era uma das opções naturais, mas Simone Tebet exigiu o direito de disputar a indicação. Concorreu e perdeu. Então, a senadora anunciou que votaria no candidato do DEM, David Alcolumbre (TO). Não ao acaso, na atual disputa o MDB tem seus motivos para não apoiar a correligionária.

Desforra ou não, o voto de Simone ajudou a consolidar a vitória de Alcolumbre. Para os emedebistas mais críticos, foi uma das pás de cal nas pretensões de Calheiros e do próprio partido. De certa forma, a atitude de Simone não era esperada. Embora derrotada por ele na disputa interna do MDB, quando o nome do alagoano teve ampla maioria da bancada, esperava-se que Simone seguisse a orientação partidária.