27 de maio de 2024
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VEREADOR PRÓ-ESCRAVIDÃO

Jornalista baiana Jessica Senra responde vereador sulista xenofóbico (vídeo)

Âncora deu resposta história a vereador bolsonarista defensor do uso da mão de obra escrava

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A jornalista Jessica Senra, âncora do "BA Meio Dia", telejornal da TV Bahia, afiliada da Rede Globo no estado, usou parte da edição de seu programa desta 4ª.feira (1.mar.23) para dar uma verdadeira aula sobre xenofobia ao vereador bolsonarista Sandro Fantinel, de Caxias do Sul. Na 3ª.feira (28.fev), Faniel usou a tribuna da Câmara Municipal de sua cidade para atacar trabalhadores baianos vítimas do trabalho escravo com um discurso repugnante e xenófobo. 

Em sua fala, Fantinel relativizou o escândalo dos mais de 200 trabalhadores — a maioria da Bahia — resgatados em situação análoga à escravidão em uma empresa terceirizada que oferecia mão de obra para as vinícolas Salton, Aurora e Cooperativa Garibaldi, em Bento Gonçalves (RS), e afirmou que os nordestinos, a quem ele se referiu como os "lá de cima", seriam "sujos", sugerindo que as empresas gaúchas do ramo contratem apenas argentinos. 

O vereador disse que nenhum lugar que contratou argentinos em vez de baianos teve "esse tipo de problema", se referindo ao trabalho análogo à escravidão, e ainda afirmou que a "única cultura" dos trabalhadores da Bahia "é viver na praia tocando tambor".

Jessica Senra protagonizou um momento histórico ao vivo ao rebater Sandro Fantinel.

"Esse vereador ficou revoltado porque os trabalhadores escaparam e denunciaram as condições degradantes. A gente toca até tambor muito bem, temos praias lindas. Mas nossa cultura não é só isso, não, viu, vereador? Nossa cultura é de não se deitar para autoritários, tiranos para senhores de engenho", declarou a jornalista no início de sua intervenção. 

Na sequência, a apresentadora do telejornal fez um breve retrospecto da história da imigração que marcou o desenvolvimento do Rio Grande do Sul.

"Veja a ironia. O Rio Grande do Sul foi um estado colonizado por imigrantes europeus, especialmente os alemães e os italianos. Esses imigrantes não eram pessoas ricas que vieram investir no Brasil, pelo contrário. Eram pessoas fugindo de crises econômicas na Europa e que receberam inúmeros benefícios do Brasil para aqui se instalarem. Desde passagem, concessão de terras, até roupas e animais para criar. Hoje, esse vereador de um estado construído com a força de pobres imigrantes, discrimina pessoas humildes em busca de oportunidades de trabalho. Ignorando sua história, se crê superior social e economicamente"

A jornalista prosseguiu seu discurso dando uma aula sobre xenofobia ao vereador gaúcho e citando, inclusive, o escritor mineiro Luiz Ruffato, que elencou as diferenças entre ignorância e burrice. "A xenofobia é aquele comportamento que exclui, discrimina, que difama pessoas com base na percepção de que são estrangeiras à comunidade. É a aversão, o medo, a antipatia de quem vem de fora. Muitas vezes está atrelada a uma ideia equivocada de que os estrangeiros representariam prejuízos ao sucesso econômico de um cidadão ou de um país, somados a preconceitos e estereótipos que geram esse ódio", pontuou. 

"Enquanto ignorância é a falta de conhecimento sobre determinado assunto, a burrice é a incapacidade de compreender a realidade, por teimosia ou arrogância. A burrice costuma a vigorar em locais permeados pela intolerância, por essa sensação equivocada de superioridade. Para a ignorância o antídoto é o conhecimento, já para a burrice é necessária uma forte repressão social, nesse caso com punições exemplares como, por exemplo e no mínimo, a perda de mandato deste homem que se mostra indigno de representar um povo miscigenado como o povo brasileiro", sentenciou. 

EIS O VÍDEO:

EXPULSÃO 

Após a repercussão negativa da declaração de Sandro, o partido Patriota informou nesta quarta, 1°, a expulsão do vereador de 54 anos, após ele defender os senhoires de terras que estavam mantendo mais de 200 trabalhadores em situação análoga à escravidão em vinícolas de Bento Gonçalves. 

Posteriormente, o parlamentar passou a dizer que foi mal interpretado pela fala e quis pedir desculpas em plenário.

O partido, entretanto, afirmou, em nota, que comunicou a decisão ao vereador, à Justiça Eleitoral do município e à presidência da Câmara Municipal de Caxias do Sul.

“O discurso está maculado por grave desrespeito a princípios e direitos constitucionalmente assegurados, à dignidade humana, à igualdade, ao decoro, à ordem, ao trabalho, já que se referem de formal vil a seres humanos tristemente encontrados em situação degradante”, diz ofício da Comissão Executiva Nacional do partido, obtido pela reportagem do Estadão.  

“Essa situação torna inconciliável sua permanência nas fileiras do Patriota, partido que prima pelo respeito à leis, à vida e à equidade”, continua.

Fantinel tem vida política ligada pauta do agronegócio e às bandeiras do ex-presidente Jair Bolsonaro e já foi alvo de denúncia ao comitê de ética do município anteriormente.

FONTES: