30 de novembro de 2020
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ARTIGO

No México, cobertura da imprensa sobre coronavírus é semelhante a do Brasil

Autoridades pedem isolamento. Mas presidente faz comícios. Leia o artigo do Nieman Reports

*por John Gibler

Jornalistas mexicanos ficaram perplexo depois que as autoridades federais estabeleceram as medidas para evitar as transmissões da covid-19, como manter distância física entre as pessoas, e o presidente López Obrador liderou comícios, contradizendo as recomendações básicas.

O presidente passou duas semanas liderando eventos de massa que os jornalistas tiveram que cobrir. Ao mesmo tempo, esses mesmos jornalistas tiveram que reportar medidas sanitárias contrárias à agenda do presidente. Tudo isso ocorreu em 1 clima político e socialmente polarizado que precedeu a pandemia. Com a covid-19, no entanto, a polarização encontrou solo fértil nas mensagens contraditórias vindas do próprio governo.

Enquanto o Ministério Federal da Saúde realiza coletivas de imprensa diárias para atualizar informações sobre casos confirmados e explicar medidas para combater a pandemia, López Obrador contradizia seus próprios especialistas. Enquanto autoridades federais de saúde pediam isolamento, López Obrador enviou uma mensagem pedindo às pessoas que saíssem para as ruas e ajudassem a manter a economia viva.

Enquanto as mesmas autoridades de saúde pediam às pessoas que mantivessem “distância social”, o presidente realizou enormes comícios onde abraçou pessoas e beijou bebês. Quando perguntado sobre quais medidas estava tomando para se proteger do vírus, o presidente mexicano exibiu estampas religiosas e amuletos que protegiam os mexicanos de ficarem doentes.

O governo de López Obrador, em contraste com outros países, seguiu uma estratégia de proteção das economias dos pobres e daqueles que trabalham no setor informal, evitando medidas de bloqueio antecipadas e autoritárias. Essas decisões competem com as informações que circulam nas mídias sociais que mostram 1 consenso entre os países ocidentais em ordenar que os cidadãos fiquem em casa –em muitos casos implantando forças de segurança– e fechando fronteiras para evitar a propagação do contágio.

Ao ser questionado sobre essa estratégia, o presidente empregou a fórmula que usou em todo o governo: acusando a oposição política de estar contra ele.

O trabalho do repórter (de informar o público) é dificultado nesse clima de pronunciamentos oficiais contraditórios, onde, ao se questionar certas informações, é considerado 1 viés jornalístico.

Os prédios governamentais federais fecharam em 27 de março. Os espaços para a imprensa haviam fechado 5 dias antes. Isso prejudicou o trabalho de muitos jornalistas. Questionamentos sobre a pandemia deveriam ser feitas durante as coletivas de imprensa diárias do Ministério da Saúde ou em pronunciamentos diários do presidente sobre vários assuntos.

Os perigos da falta de informação e da divulgação de notícias falsas durante uma emergência sanitária ensinaram aos jornalistas mexicanos várias lições, conforme relatamos durante a epidemia de H1N1 de 2009 que paralisou a economia por várias semanas.

Naquele ano, entramos no trabalho sem nenhum tipo de proteção. Realizamos entrevistas em salas de espera de hospitais cheias de pacientes com os mais graves problemas respiratórios. Fomos a funerais. Entrevistamos familiares de pessoas que morreram e de outras que estavam doentes. Saímos para as ruas quando o país estava em quarentena. Nossa única proteção era usar máscaras e evitar contato físico. Alguns de nós sentimos sintomas que nos deixaram na cama pensando que íamos morrer.

Nesse ano também duvidamos das estatísticas oficiais. Ainda hoje, muitos mexicanos ficam com a sensação de que o governo ocultou informações.

Onze anos depois, a situação não é tão diferente. Uma parte da população confia no governo para fazer as coisas bem, e outra parte pensa que está mentindo. E, novamente, os jornalistas têm o trabalho de tentar verificar o discurso do governo indo para a rua para investigar. Assim, os jornalistas precisam enfrentar os riscos de tentar aprender e os riscos de cometer erros.

Em 18 de março, uma mulher ficou do lado de fora de 1 hospital para dizer que o marido havia acabado de morrer de coronavírus, embora ele não tivesse sido testado. Jornalistas a cercaram. Pouco tempo depois, o governo confirmou sua história e essa foi a 1ª morte relatada pelo contágio . O governo também confirmou que a mulher tinha o vírus, apesar de ser assintomática. O medo aumentou entre os jornalistas que estavam lá.

Os repórteres estão investigando se o governo ocultou ou reduziu o uso de testes, se estabeleceu filtros nos aeroportos, se os profissionais médicos têm o equipamento necessário, se os hospitais têm capacidade para enfrentar a pandemia, se as mortes por coronavírus foram camufladas como “pneumonia”, se algumas mortes por coronavírus não foram analisadas por autoridades de saúde, se é verdade ou não que o contágio das cidades fronteiriças dos EUA não conseguiu ultrapassar o muro.

Essas são as realidades paralelas em que recebemos notícias de necrotérios lotados e mortes horríveis e solitárias em outros países, onde o contágio aumenta todos os dias.

Nos grupos de bate-papo com jornalistas, começamos a fazer perguntas difíceis, tentando prever cenários futuros. O que faremos quando as redações entrarem em quarentena? Dois funcionários da maior estação de televisão do país já deram positivo para o vírus. O que acontecerá se 1 jornalista for infectado em 1 evento que foi enviado para cobrir? Como verificar as informações quando a chamada é para restringir o contato e a movimentação?

As pessoas se queixaram nas redes sociais sobre empresas de mídia que não permitiram que seus funcionários se isolassem (“contrariando as medidas recomendadas pelas autoridades”). Houve demissões e reduções salariais. Jornalistas que tentam entrevistar profissionais de saúde foram atacados. Continuam as campanhas nas redes sociais para demitir jornalistas que questionam as políticas de saúde do governo. As conversas em grupo estão cheias de mensagens de pessoas preocupadas: “Eles nos chamaram para uma conferência de imprensa onde não podíamos manter distância física” ou “Tivemos que seguir a agenda de eventos do presidente com todos os jornalistas reunidos em 1 único lugar”.

Nas redações não familiarizadas com a cultura do home office, foi 1 desafio encaixar as mudanças necessárias na dinâmica da produção de notícias. Há também uma importante divisão digital entre jornalistas não acostumados a avanços tecnológicos.

Acrescente os desafios psicológicos. Como lidar com os impactos emocionais da cobertura de uma pandemia? Além da pressão de estar constantemente acompanhando as notícias e realizando a cobertura, existe o estresse acumulado de reportar sobre violência extrema em algumas áreas, insegurança no emprego e agora isolamento.

Várias redes de jornalistas locais estabeleceram protocolos de autocuidado enquanto relatavam, solicitando condições sanitárias em entrevistas coletivas, condições seguras de trabalho dos proprietários das empresas de mídia. Grupos de profissionais da área começaram a discutir essa ansiedade –onde toda a equipe precisa de apoio psicológico virtual.

Nesta nova realidade das comunidades virtuais de jornalistas, também estamos começando a desenhar iniciativas para organizar a cobertura colaborativa da pandemia, trocar informações entre colegas e apoiar as medidas propostas pelo governo. Começamos a realizar oficinas em redes sociais ou outras plataformas de comunicação para compartilhar ferramentas de segurança, práticas de denúncia responsáveis e grupos de apoio psicológico, para que possamos, como colegas, todos juntos, enfrentar os desafios que esta pandemia apresenta.

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*John Gibler é 1 jornalista norte-americano que mora no México. É correspondente da KPFA (rádio dos Estados Unidos).

Fonte: Poder 360

Leia o texto original (em inglês).