21 de junho de 2021
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Entrevista

Joguei a toalha, diz diretor de 'Cidade de Deus' sobre ator na cracolândia

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O cineasta Fernando Meirelles, diretor de "Cidade de Deus", diz que tentou de tudo para ajudar Rubens Sabino, 33, ator do filme que está vivendo na cracolândia, no centro de São Paulo. "Infelizmente eu esgotei os meus recursos emocionais", afirma, em entrevista por e-mail à Folha.

O ator, intérprete do personagem Neguinho no filme indicado ao Oscar, foi visto pela reportagem perambulando na região, com roupas doadas e pedindo dinheiro.

Afirmou viver na cracolândia há três anos e ser usuário de drogas desde os 13 anos –mas dizia estar "limpo".

Meirelles, que dirigiu Sabino (a quem chama de Rubinho) em "Cidade de Deus", disse que deu emprego e moradia ao jovem, além de ajudá-lo a estudar. Leia trechos da entrevista à Folha:

Folha - Sabino foi trazido para trabalhar na sua produtora?

Fernando Meirelles - Sim. Enquanto estávamos rodando o filme, a Kátia Lund [diretora] alugou uma casa para o Rubinho morar e, a nosso pedido, o Guti Fraga [ator e diretor artístico] o aceitou no grupo Nós do Morro. O Rubinho, no entanto, se desentendeu com o grupo e não pôde mais ficar lá. Como não podíamos deixá-lo voltar a morar na rua, trouxe-o para São Paulo para estagiar e aprender um ofício na O2 [produtora]. Ele queria ser montador e começou a trabalhar para aprender.

Arrumamos um lugar para ele morar provisoriamente e havia um produtor que ficou colado nele, para ajudá-lo a se adaptar a um trabalho e a uma vida com horário e regras, coisa que ele nunca tinha experimentado, pois morava na rua desde os 7 anos.

Ele disse que você possibilitou uma matrícula no colégio Santa Cruz. É verdade?

Foi isso, mas não era no colegial, era um supletivo que funcionava à noite. Não foi fácil conseguir a vaga. Mas, após muita conversa, resolveram aceitá-lo. Infelizmente, ele não levou a sério, não ia às aulas e acabou sendo convidado a sair. Na produtora também não deu certo, alguns funcionários começaram a pedir demissão, pois receberam ameaças.

Mesmo eu dizendo que o Rubinho jamais faria mal a alguém, ele mesmo criou um clima interno contra e tivemos que arrumar outro trabalho para ele numa produtora menor, de um amigo.

Ali também aconteceram alguns incidentes chatos e, apesar da boa vontade, acabaram dispensando-o. O Rubinho já foi adotado pelo O Rappa, pelo Seu Jorge, por muita gente, pois é muito inteligente e sensível, pois seu potencial é evidente.

Uma época arrumei uma clínica de reabilitação para ele no Pará, longe dos fornecedores e amigos da pesada. Ele topou começar uma vida nova num outro ambiente, mas depois de quatro meses começou a criar problemas ao não respeitar as regras da clínica, e pediram para ele sair. Foi nessa ocasião que joguei a toalha. Achei que, se ele estava fazendo suas escolhas, deveria arcar com as consequências. Mesmo assim, isso nunca ficou bem resolvido na minha cabeça.

Ele reclama que teve sucesso, mas não teve acesso a dinheiro, tecendo críticas e elogios a você. Como foi essa relação com ele?

De fato, os cachês do elenco de "Cidade de Deus" foram baixos. O filme não tinha patrocínio nem achávamos que faria sucesso, tudo saía do meu bolso. Apesar de todos ganharem mais do que em qualquer outro emprego que conseguissem na época, receberam menos do que um ator profissional receberia.

Como ninguém era profissional, fizemos uma oficina de atores por cinco meses. Enquanto aprendiam a atuar, só recebiam lanche e condução. O cachê foi pelas oito semanas de filmagem.

Vale repetir que ele é um camarada extremamente inteligente, articulado e sensível. Se alguém se dispusesse a colar nele para que abandonasse sua dependência, estou certo que nasceria um excelente músico e poeta. Infelizmente, eu esgotei os meus recursos emocionais.