19 de maio de 2024
Campo Grande 20ºC

PODER PARALELO

Primeira gestora da Capital tem autoridade desafiada pela Câmara

Carlão Borges privilegia elite dos servidores e fere Adriane Lopes, primeira mulher eleita para governar Campo Grande

A- A+

 A população campo-grandense ainda continua sem entender o que levou o presidente da Câmara Municipal, vereador Carlão Borges (PSB), a lançar na pauta de votações um projeto que causaria profundos desgastes ao poder legislativo, além de aprofundar o abismo das disparidades salariais entre os servidores públicos.

Adriane Lopes (Patriota), primeira mulher a administrar a Capital de Mato Grosso do Sul, debate-se para não deixar que a prefeitura seja engolida pelo caos financeiro e consiga manter em dia algumas contas de elevado valor social. Uma dessas contas é a folha de pagamento dos trabalhadores públicos, compromisso que vem sendo cumprido a duras penas. Enquanto a prefeita faz sua parte enfrentando esse desafio, o presidente do legislativo põe no colo da gestora uma bomba de alto teor destrutivo.

No final de fevereiro, mês do carnaval, a esmagadora maioria dos funcionários municipais foi brutalmente golpeada pela decisão de Borges, que colocou na pauta de votações o projeto de reajuste salarial da chamada elite do serviço público, formada pelos secretários, dirigentes de autarquias, procuradores e auditores fiscais. Para que esse tipo de projeto seja votado, é preciso que os vereadores votem também o aumento de salários do chefe do Executivo.

Com 18 votos favoráveis dos vereadores e 10 contrários, a matéria foi aprovada no dia 28 de fevereiro. A prefeita havia feito um apelo para que a Câmara adiasse a votação, tendo em vista a situação da grande maioria dos servidores que sofrem com a deterioração de seus ganhos. Não adiantou. Carlão ignorou o apelo e passou ao largo da contraditória situação. Seguiu adiante e convocou a sessão para sacramentar a medida, que vai beneficiar uma minoria de servidores da máquina.

MOTIVAÇÕES

Algumas hipóteses estão sendo levantadas para encontrar as verdadeiras razões da atitude do presidente do legislativo. Ele, simplesmente, poderia não incluir a matéria na pauta para ser votada. Com isto, demonstraria sensibilidade social e responsabilidade com o interesse público, contribuindo com o esforço da prefeita para colocar as finanças em ordem. Só então, num quadro favorável, seria sensato fazer os ajustes previstos pela política pública que a prefeita quer levar adiante para valorizar toda a massa de servidores, e não apenas um grupo.

Há quem acredite que o presidente da Câmara esteja agindo com um olhar de interesse político, na tentativa de organizar nos bastidores uma espécie de poder paralelo que dificulte as ações e a mobilidade da gestora. Com essa manobra, ela ficaria vulnerável às pressões e, em tese, sujeita a atender demandas que não constam do interesse público e das prioridades legítimas do município.

Contudo, crescem os comentários e suspeitas de que o fato de ser governado por mulheres não agrada muitas lideranças do sexo masculino. E Adriane Lopes, por ser a primeira prefeita eleita na história da cidade, pode também candidatar-se à reeleição em 2024. Nesse caso, a ambição política desmedida e o machismo — ou prática velada de misoginia — seriam dois dos impulsos que levaram Borges e a Mesa Diretora a pôr em pauta a votação de um projeto de poderoso efeito destrutivo.

DESIGUALDADES

Um dos vereadores que votaram contra o projeto disse que, no controverso cenário de mandatos, a caneta da Câmara remeteu à Prefeitura uma solução de desigualdades na política salarial dos servidores. Ainda que Adriane Lopes não quisesse ter a sua remuneração aumentada agora, Carlão Borges, vereador experiente, sabe que o trâmite para apreciar, votar e aprovar reajuste salarial dos servidores impõe que o Legislativo faça o mesmo com os ganhos do prefeito e vice.

Carlão procura justificar a medida utilizando argumentos e números para demonstrar que as remunerações do primeiro escalão estavam muito depreciadas. Porém, não consegue explicar porque considerou somente a depreciação da minoria e ignorou a maioria, exatamente os que ganham menos. Ele abriu o caminho do benefício à elite do funcionalismo. Todavia, não convence quem enxerga na decisão da Câmara uma flagrante inversão de prioridades.  

Além dos servidores discriminados na planilha de reajustes salariais, o inconformismo com a base governista provoca outras reações. Uma delas é a ação direta de inconstitucionalidade que foi movida pelo Sindicato dos Trabalhadores Públicos de Enfermagem (Sinte/PMCG) e Sindicato dos Guardas Municipais de Campo Grande (Sindgm/CG), assinada pelo advogado Márcio Almeida.

"A política é uma das atividades em que o machismo se manifesta com maior intensidade. As mulheres que conseguem escalar alguns dos degraus de representação popular encontram obstáculos às vezes intransponíveis, quase sempre plantados para tornar inviáveis seus mandatos e projetos"