16 de abril de 2024
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JUSTIÇA

Único acusado da Lava Jato com absolvição por unanimidade, Vander exalta a fé

Com decisão do STF, pré-candidato Vinícius Siqueira e outros agressores serão acionados na Justiça

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“A fé - em Deus, em si mesmo, na Justiça, nos amigos e nas pessoas que se recusam a julgar por conveniência - foi o porto no qual ancorou ânimo, coragem e resistência para suportar cinco anos de dolorosa exposição aos ataques maledicentes e inescrupulosos de gente que o condenava sem qualquer sentença formalizada pelos foros competentes”

É assim que o deputado federal Vander Loubet (PT/MS) explicou como conseguiu levar a vida desde 2015, desde que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o acusou de ter recebido propina de um esquema de corrupção investigado na Operação Lava Jato. "Eu estou no quinto mandato. Minha vida é aberta, não tem trancas. Fui submetido a todo tipo de quebra de sigilos: bancário, fiscal, telefônico...Sou um sobrevivente", afirmou em entrevista conduzida pelo jornalista B de Paula, hoje (8.setembro) às 7h30 no programa Boca do Povo da Rádio Difusora Pantanal 101.9 FM.  

PREVISÃO DE TRAD

Vander Loubet é o único dos acusados da Lava Jato que teve sua inocência reconhecida no Judiciário pelo voto unânime de todos os magistrados. Antes do julgamento, ele mostrou o processo na íntegra ao colega do PSD, deputado Fábio Trad. Dias depois, Trad, ex-presidente da seccional sul-mato-grossense da Ordem dos Advogados, avisou: "Você vai ser absolvido por unanimidade. Nada existe que possa incriminá-lo". Quando então os cinco ministros da Segunda Turma do STF votaram por sua absolvição, Fábio Trad brincou, lendo a sentença: "Isto não é um voto de inocência, é de santidade".

Mas até chegar a esse instante, Vander Loubet viveu mergulhado num poço devorador e cruel de reações insanas de parte da sociedade. Em fevereiro de 2016, conversando com amigos numa cafeteria da Capital, viu-se rodeado por um grupo de pessoas que, em volta da sua mesa, imitavam a dança da quadrilha de São João, provocando e cantando em tom de deboche: "Pula a fogueira iaiá/Pula a fogueira ioiô/Cuidado para não se queimar/Olha o Lula/Olha a Polícia Federal".

À frente do grupo estava o vereador Vinícius Siqueira, à época no DEM e hoje pré-candidato a prefeito pelo PSL. Siqueira e seus parceiros de maledicência, assim como diversas pessoas que em atividades públicas ou nas redes sociais fizeram algo semelhante, responderão a processos criminais que estão sendo encaminhados à Justiça pelos advogados do deputado. Apesar disso, Vander Loubet afirma não ter guardado rancor.

"Fiquei muito triste, às vezes muito decepcionado com isso. Porém, recebi tantos abraços e manifestações solidárias que tirei o ressentimento de perto de mim", diz. "O que não posso deixar de fazer é cumprir a parte que me cabe, por mim e por minha família, que é acionar na Justiça as pessoas que me pisaram de forma cruel, por conveniência. Não só o prejuízo financeiro que acumulei, mas também pelos prejuízos emocionais e sociais, porque não há como manter uma convivência normal com o mundo num contexto desses", desabafa.

Vander não revela, mas deve ter sentido a dor e o desconforto de supor que muitas vezes, por causa da exposição negativa na mídia, pessoas de suas habituais relações afetivas ou políticas poderiam estar evitando aparecer em sua companhia. Isso, porém, se ocorreu, foi residual, acredita, por entender que a imagem gravada em sua memória é a dos gestos de solidariedade e de confiança em sua inocência.

DENÚNCIA SEM NOÇÃO

A injustiça das denúncias, segundo o petista, está evidenciada em todo o processo. "São elementos e acusações sem qualquer noção, fantasias do procurador Janot", afirma. Ele diz que Janot utilizou um erro de informação bancária, trocou o nome de operações [depósito por transferência] para incriminá-lo. O banco também será processado por Vander. Outra das peças grosseiras de Janot: começou sua denúncia apontando propina de R$ 1 milhão, depois foi baixando até chegar a R$ 11 mil.

O resultado de tudo isso, com as peças da denúncia sendo derrubadas uma a uma no Supremo Tribunal Federal, foi o reconhecimento da inocência pelos cinco ministros: Edson Fachin, Celso de Melo, Wilmar Lewandovski, Carmen Lúcia e Gilmar Mendes. Curioso também é o procedimento de parte da mídia que ajudou a criar a "onda difamadora" no Brasil com a Lava Jato. No caso de Vander Loubet, o Jornal Nacional, da TV Globo, demorou quase cinco minutos para noticiar a transformação de Vander em réu. E depois, dedicou bem menos de um minuto para informar sua absolvição.

CINCO VEZES

Vander Loubet se diz agradecido a todos que sempre acreditaram nele, tanto do partido e do arco de esquerda, como de outras concepções ideológicas. Ele e Nelson Trad (já falecido) são os únicos deputados federais eleitos consecutivamente cinco vezes em Mato Grosso do Sul. "Isso me deu um acúmulo de energias e experiências para fazer o que faço, cultivar boas relações e fazer em Brasília o que sei, que é pôr o mandato no âmbito dos debates nacionais e carrear recursos para o Estado", assinala.

O deputado cita que no empenho para garimpar verbas e projetos da União estabeleceu sólida e duradoura relação com todos os municípios e forças políticas, sem distinção de ideologia. exemplifica com o prefeito Marquinhos Trad (PSD), prefeito de Campo Grande, para quem, num esforço paciente e árduo, contribuiu para garantir à Capital aportes que comam R$ 100 milhões, principalmente por meio de emendas parlamentares impositivas.